AE 802

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. [Vers. 7] “E foi-lhe dado fazer guerra aos santos, e vencê-los” significa a luta contra aqueles que estão nos veros do bem e não alcançaram as combinações por causa das aparências vê-se pela significação de ‘guerra’, que é a luta espiritual, que é a do vero contra o falso e do falso contra o vero (de que se tratou acima, n. 573 e 734); assim, ‘fazer guerra’ é lutar pelos veros contra os falsos e pelos falsos contra os veros; aqui, pelos falsos contra os veros; pela significação de ‘santos’, que são os que estão nos veros do bem (de que também se tratou acima, n. 204); e pela significação de ‘vencê-los’, que é fazê-los de sua doutrina e de, daí, da religião; e como fazem isso por meio de raciocínios, pelos quais induzem falsos em aparências de vero, e por passagens do sentido da letra da Palavra, pelas quais confirmam os seus raciocínios, por isso essas palavras significam aqueles que não alcançaram, ou não entenderam, de que maneira a fé pode se conjungir às boas obras, por causa dos falsos induzidos em aparências de vero. Por aí se pode ver que ‘foi dado à besta fazer guerra contra os santos e vencê-los’ significa a luta contra aqueles que estão nos veros do bem e não alcançaram as combinações, por causa das aparências.
[2] Em muitos lugares acima tratou-se dos raciocínios, pelos quais os defensores da fé separada da vida induziram falsos em aparências de vero, pelas quais pareciam ter removido as discordâncias com a Palavra. No entanto, que eles não tenham removido as discordâncias, mas teceram uma imperceptível teia como a de aranha, para induzirem a fé aos falsos, pode-se ver pelas coisas que a respeito deles foram citadas acima (n. 780, 781, 786 e 790), e também pelo fato de se dedicarem e insistirem, pela doutrina, pela pregação e pelos escritos, que a fé foi dada como meio de salvação, porque o homem não pode fazer o bem por si e Deus, todavia, opera as boas obras no homem sem que ele o saiba; por essa operação, os males que o homem justificado pela fé faz não são pecados, mas fraquezas da natureza, e os males de propósito ou voluntários são remidos, ou imediatamente ou depois de alguma penitência de boca; e que disto se segue que por ‘obras’ e por ‘fazer’ entende-se, na Palavra, a fé e ter a fé.
[3] Esta é a teia deles, pela qual induzem os simples a crer que de tesouros da sabedoria ou de uma percepção interior – que existe unicamente nos doutos e eruditos – eles tiraram sólidas provas para estabelecerem a fé separada de um esforço manifesto – que é a vontade – da parte do homem para fazer os bens. Assim desculpam e soltam os freios a si mesmos e a todo o povo da igreja para praticaram e viverem pelo bel prazer e pela inclinação de todas as cobiças. Como esse dogma agrada a carne e aos olhos, o povo comum o recebe de bom grado. É isto, pois, que é significado aqui por ‘ser dado à besta fazer guerra aos santos e vencê-los’. Contudo, a fim de que os líderes que foram introduzidos nesse dogma quando iniciados no sacerdócio e, por eles, o povo da igreja, não sejam infectados com o veneno preparado por astutos raciocínios, do qual não podem escapar de morrer, desejo retomar somente as argumentações a respeito da separação entre a fé e o fazer os bens da parte do homem, como também as conjunções enganosamente ligadas, pelas quais procedem de alguma coisa para o nada, ou do vero para o falso, e apresentar à luz perante o entendimento de algum modo ilustrado os detestáveis falsos do mal e os males do falso que se encerram nesse dogma mais do que herético e que daí brotam em constante fluxo.
[4] Primeiro: Que a fé seja dada como meio de salvação, porque o homem não pode fazer o bem por si mesmo. Que o homem não possa fazer o bem por si mesmo é verdadeiro. E como o homem não pode ter fé alguma por si, segue-se que não pode fazer coisa alguma por si, por conseguinte, tampouco pode crer em alguma coisa por si. Qual é o homem da igreja que não reconhece que a fé vem de Deus e não do homem? Daí, então, devem-se dizer a respeito da fé absolutamente as mesmas coisas que a respeito das obras. Das obras se diz que, se elas vêm do homem e enquanto são do homem, não justificam. O mesmo deve ser em relação à fé, se ela vem do homem e enquanto for do homem. E, no entanto, cada um crê por si, pois claramente pensa e quer pensar em si e como por si naquilo que é da fé. Se, pois, com a fé não se dá de modo diferente do que com as obras, segue-se que somente os eleitos podem ter a fé ser salvos, o que implica na predestinação, da qual flui de todo modo a segurança da vida nos maus e a privação de toda esperança, da qual vem o desespero, nos bons, quando, todavia, todos foram predestinados para o céu e chamam-se eleitos os que aprendem os veros e os praticam. Visto que se dá em relação à fé o mesmo que em relação às boas obras, segue-se também que não pode não deve agir de outro modo senão como um autômato, ou como algo que não tem vida, esperando o influxo de Deus para seja movido e assim vá sem pensar e sem querer o que foi mandado na Palavra. E, todavia, tal homem continuamente pensa e quer algo por si, e como aquilo que é por si não vem de Deus, mas do inferno, e, no entanto, pensar e querer pelo inferno é contra Deus, e dois opostos existindo ao mesmo tempo é impossível, tal homem é ou vazio ou ateu. Se depois alguém disser que a fé, por ser dada como meio de salvação, pode ser recebida pelo homem, como vinda de outro, terá dito a verdade. Contudo, ter a fé, isto é, pensar que assim é e daí falar como por si, e não poder querer porque assim é como por si, é aniquilar a fé, pois um sem o outro é algo que não existe. Se, porém, alguém disser que a fé justificante é somente crer que Deus Pai teve misericórdia do Filho para que por Sua paixão da cruz houvesse propiciação, redenção e salvação, e isto não envolve algo que deve ser feito, também porque é a imputação que salva, visto que crer nisto não é vero algum do céu, como será demonstrado em seu lugar, segue-se que a fé do falso, que é a fé morta, justifica.
[5] Segundo. “Que, no entanto, Deus opere os bens no homem sem que o homem esteja ciente”. Que Deus opere os bens no homem é verdade, e, também, na maioria das vezes, sem que o homem esteja ciente, mas as coisas necessárias para a salvação Deus dá que o homem perceba. Com efeito, Deus opera para que o homem pense nas coisas que são da fé e fale delas, e para que queira e faça as que são do amor. Quando o homem daí pensa, fala, quer e faz, não pode deixar de pensar, falar, quer e fazer como por si mesmo. Deus opera no homem nas coisas que são de Deus no homem, a saber, nos veros que são da fé e nos bens que são do amor. Por isso, quando Deus apresenta aqueles ao entendimento e estes à vontade, tais coisas parecem ao homem como se fossem suas e como suas ele as produz. Pensar e falar, como também querer e fazer, ninguém pode senão por Deus. É suficiente que o homem saiba e reconheça que elas vêm de Deus. A operação Divina mesma se faz muitas vezes sem que o homem esteja ciente, mas os efeitos daí se fazem com o homem ciente. Assim se entende
Que “o homem” não possa “receber coisa alguma sem que do céu lhe seja dada” (Jo. 3:27);
Disse Jesus: “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo. 15:5).
Se o homem não fosse ciente de pensar os veros e de fazer os bens, para que não se tornassem veros e bens vindos de si, o homem seria ou como um animal como um toco; por conseguinte, não poderia pensar e querer coisa alguma de Deus ou vinda de Deus e viver na eternidade. A diferença entre os animais e os homens é que os animais não podem pensar e falar os veros, nem querer e fazer os bens de Deus, mas os homens o podem e, assim, podem crer nas coisas em que pensam e amar as que eles querem, e isto como por si mesmos. Se não fosse como por si mesmo, o influxo e a operação Divina transfluiriam e não seriam recebidos; o homem seria como um vaso sem fundo, que nada recebe de água. O pensamento do homem é o receptáculo do vero, a vontade é o receptáculo do bem, e a recepção não existe a menos que o homem esteja ciente. E, se não houvesse recepção, não existiria o recíproco, que faz com que o que é Deus seja como se fosse do homem. Todo agente que quer se conjungir a outro deve necessariamente ter algo como se fosse seu, como se conjunte, de outro modo não existe o reagente, e onde não há ação e reação ao mesmo tempo, não existe conjunção. As coisas no homem com as quais Deus – que é o único Agente – se conjunge são o entendimento e a vontade. Essas faculdades são do homem; quando elas agem, embora o façam por Deus, não podem agir de outro modo senão como por si mesmas. Segue-se daí, pois, que os veros e bens, se não fazem assim, não são coisa alguma. Todavia, uns exemplos ilustrarão isso. Foi ordenado na Palavra que o homem não adultere, não roube, não mate, não testemunhe falsamente. Que o homem possa fazer isso por si, é notório, como também que o homem pode desistir de tais coisas porque são pecados; não pode, porém, desistir disso por si mesmo, mas por Deus. Quando, pois, desiste disso por Deus, o homem pensa sempre que quer desistir de tais coisas porque são pecados; assim, desiste delas como por si mesmo. E quando fez isso, então, como chama o adultério de pecado, vive na castidade e ama a castidade também como por si; e como chama o furto de pecado, vive na sinceridade e ama a sinceridade, também como por si; quando chama a morte de pecado, vive então na caridade e ama a caridade, e isto como por si; quando chama o falso testemunho de pecado, vive então na verdade e na justiça, e ama a verdade e a justiça, e isto como por si. E, ainda que viva nisso e ame isso como por si, ele vive e ama, todavia, por Deus, pois tudo o que o homem, pela castidade mesma, pela sinceridade mesma, pela caridade mesma e pela verdade e justiça mesma, faz como por si mesmo, por Deus ele faz, e, daí, tais coisas são bens. Em suma, todas essas coisas, quaisquer que sejam, que o homem faz como por si mesmo, os males sendo removidos, são provenientes de Deus e são bens. Mas todas as coisas que o homem faz antes de os males serem removidos, embora sejam obras de castidade, obras de sinceridade, obras de caridade, obras de verdade e de justiça, não são, todavia, bens, porque são provenientes do homem. Uma vez que todas as obras, tanto as que se fazem de Deus quanto as que não se fazem de Deus, não podem deixar ser executadas pelo do homem, ou como se fossem por ele, é evidente o motivo pelo qual na Palavra se dizem tantas vezes ‘obras’, ‘feitos’, ‘agir’ e ‘fazer’, coisas que de modo algum seriam ditas e mandadas se fossem feitas por Deus sem que o homem estivesse ciente, segundo o sentido interior da doutrina daqueles que separam da fé as boas obras.
[6] Terceiro. “Que os males que o homem justificado pela fé pratica não sejam pecados, mas fraquezas de sua natureza, e que os males voluntários ou por propósito sejam perdoados, ou imediatamente ou após alguma penitência de boca”. Esta é a crença daqueles que se examinaram profundamente e entraram nos arcanos da separação entre a fé e as boas obras, com variedade em alguns segundo a sutileza de raciocinar e de concluir, pois são consequências. Com efeito, os que atribuem tudo da salvação à fé, só, e suprimem tudo da salvação das boas obras dizem que estão na graça e, alguns, que estão em Deus. Se estão na graça, concluem que os males não são vistos, e, se são vistos, que são imediatamente perdoados. Se estão em Deus, que nada os condena, por conseguinte, que os males não são pecados, porque esses condenam, mas são fraquezas da natureza. E como os males do voluntário – que na Palavra são chamados pecados os que são de ‘alta mão’ [???] – não são fraquezas da natureza, eles dizem que esses são perdoados, ou imediatamente ou após alguma penitência de boca, porquanto o justificado pela fé está no bem e não tem necessidade de fazer penitência de vida. Alguns acrescentam que esses males foram feitos por permissão. Isto também é consequência do fato de crerem que o justificado pela fé foi redimido, purificado diante de Deus e regenerado; e como não pode fazer o bem por si mesmo, o mérito do Senhor lhe é adjudicado e imputado, e por essa imputação e, ao mesmo tempo, pela redenção e pela regeneração, foi adotado como filho de Deus, conduzido por Deus Pai e iluminado pelo Espírito Santo, donde as suas obras são aceitas e os males não males como nas outras pessoas. Como esses males não condenam, não podem ser chamados pecados, mas fraquezas que se aderem a cada um, como herança desde Adão, as quais, tão logo surgem, são perdoadas e afastadas. Isto além de muitas outras coisas, variadas segundo as ideias a respeito da essência da fé e de sua separação dos bens da vida, ou a respeito da fé e da conjunção com os bens. Contudo, não interessa submeter cada uma dessas coisas sob exame, pois são torrentes que brotam de um falso princípio, do qual não podem profluir senão falsos numa série contínua. Quem não sabe e reconhece, quando pensa consigo, que o homem deve se examinar, confessar seus pecados diante de Deus, abominá-los e, depois, viver uma vida nova para que herde a vida eterna? Isto é o que ensinam as recitações solenes nas igrejas, principalmente por aquelas pelas quais se faz preparação para participar do sacramento da Ceia. Isto é o que a Palavra ensina, isto é o que ensinam todas as pregações da Palavra e isto é que o ensina a razão, por pouco iluminada que seja. Mas, não obstante, a luz desse vero é extinta tão logo alguém inquire os arcados da doutrina e daí quer obter fama de erudição. Como esse é conduzido pelo amor de si e, daí, pelo orgulho da própria inteligência, ele se afasta da fé do povo comum e abraça o falso que destrói todo vero da Palavra e todo vero do céu. E, como se crê instruído, arrasta muitos após si e os seduz, e assim dispersa as ovelhas que devia ajuntar, ensinando que nenhum mal condena aquele que pode pensar com confiança e enunciar que Cristo sofreu a paixão por ele e desse modo o redimiu. Na sequência, porém, ver-se-á que nessa fé nada há de vida. Eles não são diferentes daqueles que estão na visão pela fantasia, que, quando veem homens, creem serem espectros, e quando veem imagens, creem serem homens. Assim veem veros como falsos e falsos como veros, principalmente se a fantasia do lume ilusório pelas falácias é hábil em formar imagens conformes o seu lume. No delírio de seus arcanos esses veem a sabedoria, sem saberem que aqueles que a ignoram têm melhor sorte após a vida no mundo.
[7] Quarto. Que por ‘obras’ e por ‘fazer’ se entendam, na Palavra, a fé e ter a fé. Por essas suposições eles querem persuadir que verificam todas as coisas da Palavra, quando, todavia, falsificam todas as suas coisas, pois concluir assim é um contraditório e uma mentira. O contraditório é dizer que por ‘fazer os bens’ entende-se ter a fé, quando, todavia, a fé recebida não somente separa as boas obras, mas também as exclui como meio de salvação. Nada que é separado e excluído de alguma coisa pode existir nessa coisa, por conseguinte, na fé, na qual se diz estar não somente alguma coisa, mas também tudo, nem por ela ser entendido. É um contraditório também que pelo salvífico e pelo espiritual, que se dizer ser da fé, se entenda ao mesmo tempo o não salvífico e não espiritual, pois chamam a fé de salvífica e espiritual, mas as obras, não salvíficas, assim, não espirituais. A mentira é que a operação Divina sem cooperação alguma do homem se entende pelas ‘obras’ e por ‘fazer’ na Palavra, quando, porém, foi ordenado ao homem que os faça. É mentira, também, que pelas ‘boas obras’ se entenda a fé recebida e chamada salvífica, quando, todavia, ela é somente do pensamento e não da vontade. Eles dizem, também, que as ‘obras’ e os ‘feitos’ são falados na Palavra por causa dos simples, que não compreendem os arcanos da fé. Cumpre saber, porém, que uma coisa é crer em algo e outra crer em alguém, como crer que há um Deus e crer n’Ele. Crer em Deus, ou em Seu nome, significa fazer e ter fé, como em João:
“Todos quantos... receberam... deu-lhes o poder de serem filhos de Deus, os que creem no Seu nome, os que não nasceram de sangues, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus” (Jo. 1:12, 13).
Os que ‘não nasceram de sangues’ são os que não falsificam a Palavra; os que ‘não nasceram da vontade da carne’ são que os que não estão nas cobiças oriundas do amor de si; os que ‘não nasceram da vontade do varão’ são os que não estão nas falsidades oriundas da própria inteligência; os ‘nasceram de Deus’ são os que foram regenerados pelo Senhor por meio dos veros da Palavra e por uma vida segundo os veros, e daí são chamados ‘filhos de Deus’. Tal fé não é a fé dos instruídos da igreja de hoje.

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