. “E foi-lhe dada autoridade sobre toda tribo, e língua e nação”. Que isto signifique a dominação sobre todos os veros e bens da igreja, e sobre a doutrina da fé e do amor, vê-se pela significação de ‘autoridade’, que é a dominação; pela significação de ‘tribo’, que são os veros e bens da igreja em geral (de que se tratou acima, n. 39, 330, 430, 431, 454 e 657); pela significação de ‘língua’, que é a doutrina da igreja e também a confissão e a religião (de que também se tratou acima, n. 330, 455, 625 e 657), aqui, a doutrina da fé; e pela significação de ‘nação’, que é o bem do amor e também a doutrina do amor e, daí, da igreja (de que se tratou acima, n. 175, 331, 625, 657). Daí se pode ver que ‘ser dada autoridade à besta sobre toda tribo, e língua e nação’ significa a dominação sobre todos os veros e bens da igreja, e sobre a doutrina da fé e do amor. E como a ‘besta’ significa a fé separa da vida pelos raciocínios corroborados e confirmados do homem natural, segue-se que a essa fé foi dada a dominação sobre todas as coisas da igreja e de sua doutrina. Que lhe tenha sido dada a dominação é evidente pelo fato de a fé, só, é o princípio universal reinante nas igrejas, porquanto foi assumida como meio essencial de salvação, o que também é claramente evidente pelas doutrinas das igrejas, pela confissão de boca dos homens da igreja e, no geral, pela vida deles. E, também, pelo fato de não saberem o que é a caridade, o que é o amor e, por conseguinte, o que são as obras. E visto que assim é a dominação da fé separada, por isso também ela tem dominação sobre todos os veros e bens da igreja, os quais ela extingue, falsificando, pervertendo e adulterando-os, pois onde essa fé domina aí não há mais bem algum nem, daí, vero algum. [2] É sabido que a fé oriunda do amor é o meio essencial de salvação e, daí, é o princípio da doutrina da igreja, mas, visto que importa saber de que maneira o homem pode estar na iluminação a fim de aprender os veros que devem ser de sua fé, e na afeição, a fim de fazer os bens que devem ser de seu amor, assim, se a fé é a fé do vero e se o amor é o amor do bem, dir-se-á a respeito disto em sua ordem, que é esta: (1.) Que a cada dia o homem leia a Palavra, um capítulo ou dois, e aprenda por um mestre e pelas pregações os dogmas de sua religião, e aprenda principalmente que há um Deus, que o Senhor é o Deus do céu e da terra (João 3:35; 17:2; Mateus 11:27; 28:18), que a Palavra é santa, que há um céu e um inferno e que há a vida após a morte. (2.) Pela Palavra, pelo mestre e pelas pregações aprenda quais obras são pecados, que são principalmente os adultérios, furtos, assassinatos, falsos testemunhos e muitas coisas que há no Decálogo; também, que os pensamentos lascivos e obscenos também são adultérios; que as fraudes e os lucros ilícitos também são roubos; que os ódios e as vinganças também são assassinatos; e que as mentiras e blasfêmias também são falsos testemunhos, e assim por diante. Estas e aquelas coisas ele deve aprender desde a infância até a adolescência. (3.) Quando o homem começa a pensar por si mesmo, o que acontece após a adolescência, então a primeira e principal coisa para ele deve ser desistir de fazer os males porque são pecados contra a Palavra, assim, contra Deus, e que, e se faz os males, não tem a vida a eterna, mas o inferno. Em seguida, quando amadurece e envelhece, que fuja de tais coisas como coisas condenáveis e tenha aversão aos pensamentos com a intenção das mesmas. Mas, para que desista e fuja dela, e tenha aversão a elas, deve suplicar o auxílio do Senhor. Os pecados de que deve desistir e fugir, e ter aversão a eles, são principalmente os adultérios, as fraudes, os lucros ilícitos, os ódios, as vinganças, as mentiras, as blasfêmias e as exaltações da mente. (4.) Quanto mais o homem desiste deles pelo fato de serem contra a Palavra e, daí, contra Deus, mais lhe é dada a comunicação com o Senhor, e ele tem conjunção com o céu, pois o Senhor entra – e, com o Senhor, o céu – conforme os pecados são removidos, pois os males e os seus falsos são os únicos empecilhos. A razão disso é que o homem foi colocado no meio entre o céu e o inferno; por isso o inferno age de uma parte e o céu de outra. Quanto mais, pois, são removidos os males que vêm do inferno, mais entram os bens que vêm do céu, porque o Senhor diz: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir... e abrir a porta, entrarei a ele” (Ap. 3:20). Se, porém, o homem desiste de fazer os males por qualquer outra razão senão porque são pecados, contra a Palavra e, assim, contra Deus, ele não tem conjunção com o céu, porque desiste por si mesmo e não pelo Senhor. O Senhor está na Palavra, a ponto de ser chamado ‘Palavra’ [Verbum] (João 1:1-4), porque a Palavra vem d’Ele. Que daí haja conjunção com o homem da igreja pela Palavra vê-se na obra O Céu e o Inferno (n. 303-310). (5.) Então, quanto mais o homem detesta esses pecados, mais entram as boas afeições; por exemplo, quanto mais detesta os adultérios, mais entra a castidade; quanto mais detesta as fraudes e os ganhos ilícitos, mais entram a sinceridade e a justiça; quanto mais detesta os ódios e as vinganças, mais entra a caridade; quanto mais detesta as mentiras e blasfêmias, mais entra a verdade; e quanto detesta a exaltação da mente, mais entra a humildade diante de Deus e o amor ao próximo como a si mesmo; e assim por diante. Segue-se, por conseguinte, que fugir dos males é fazer os bens. (6.) Quanto mais o homem está nessas boas afeições, mais é conduzido pelo Senhor e não por si mesmo; e quanto mais age por elas, mais faz os bens, porque os faz pelo Senhor e não por si; então age pela castidade, pela sinceridade e justiça, pela caridade, pela verdade, em humildade de coração diante de Deus, e isto ninguém pode fazer por si mesmo. (7.) As afeições espirituais que são dadas pelo Senhor ao homem que está nelas e age por elas são a afeição de saber e entender os veros e bens do céu e da igreja, juntamente com a afeições de os querer e fazer, como também a afeição com o zelo de lutar contra os falsos e males e de os dissipar, em si e nos outros. Daí o homem tem fé e amor, e daí tem inteligência e sabedoria. (8.) Assim e não de outra maneira, o homem é reformado; e quanto mais conhece os veros e crê neles, e os quer e pratica, mais é regenerado, e de natural se torna espiritual, do mesmo modo que sua fé e seu amor. [3] Se os males não foram removidos porque são pecados, todas as coisas que o homem pensa, fala, quer e faz não são bens nem veros diante de Deus, por mais que pareçam ser bens e veros diante do mundo. A razão disso é que eles não vêm do Senhor, mas do homem, pois é do amor do homem e do mundo, do qual essas coisas vêm e que está nelas. Em sua maioria, as pessoas hoje creem que virão ao céu se tiverem fé, viverem piedosamente e fizerem os bens, e, no entanto, não têm aversão aos males por serem pecados; assim, ou os praticam ou creem que são lícitos. E os que creem que são lícitos, esses os praticam quando há ocasião. Saibam, porém, que a sua fé não é fé, a sua piedade não é piedade e tampouco os seus bens são bens, porque brotam das impurezas que se encerram no homem. Os externos derivam todas as suas coisas dos internos, pois o Senhor disse: “Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que o exterior também se torne limpo” (Mt. 23:26). Por aí se pode ver agora que, se o homem pudesse cumprir todas as coisas da lei, se desse muito aos pobres, se fizesse bem aos órfãos e às viúvas, e mesmo se também desse de comer aos famintos, de beber aos sedentos, acolhesse os estrangeiros, vestisse os nus, visitasse os doentes, fosse aos presos no cárcere, se pregasse vigorosamente o Evangelho, convertesse os gentios, frequentasse os templos, escutasse devotamente as pregações, participasse sempre, todos os anos, do sacramento da Ceia, dedicasse tempo às preces, e muitas outras coisas, e seu interno não fosse purificado do ódio e da vingança, da astúcia e da malícia, do amor de si e, daí, do amor de dominar e do orgulho da própria inteligência, e do desprezo pelos outros em relação a si, e dos demais males e falsos daí, todas aquelas obras seriam, não obstante, hipócritas, e viriam do homem mesmo e não do Senhor. No entanto, essas mesmas obras, quando o interno foi purificado, são todas boas, porque vêm do Senhor e não do homem, que não pode deixar de fazê-las, porque está na fé e no amor de fazê-las. Isto é o que me foi testificado por mil exemplos do mundo espiritual. Ouvi que a muitos foi concedido recordar os atos de sua vida no mundo e enumerar os bens que fizeram, mas, quando se abria o interno deles, descobria-se que estava cheio de todo mal e do falso daí. E então lhe era revelado que os bens que tinham enumerado foram feitos por si mesmos, porque os fizeram por causa de si e do mundo, e tinham brotado dos males dos interiores deles, pelo que apareciam ou como queimados no fogo ou como fuliginosos. [4] Dá-se diferentemente, porém, com aqueles que pela Palavra se abstiveram de fazer os males e, em seguida, fugiram deles e tiveram aversão a eles pelo fato de serem pecados, contra o amor a Deus e contra a caridade para com o próximo. As obras desses, ainda que semelhantemente percebidas como se fossem feitas por si, foram todas boas, e apareceram na luz do céu como neve e lã brancas (Isaías 1:12-18). São essas obras que na Palavra se entendem pelas ‘obras’, que não podem de maneira nenhuma ser separadas da fé, pois a fé separada delas é morta, e a fé morta é a fé do falso oriundo do amor do mal, ou é um pensamento de que assim é e, todavia, a vida é má. Que abster-se dos males por qualquer outra razão senão a Palavra não purifique o homem interno é evidente pela origem das más obas e pela origem das boas. Por exemplo, quem se abstém dos adultérios pelo temor da lei civil e de suas penas, pelo temor de perder a reputação e, daí, a honra, pelo temor do dano proveniente da pobreza, por parcimônia ou avareza; pelo temor da doença derivada disso, pelo temor das demandas em casa pela esposa e, daí, pelo desassossego da vida, pelo temor dos açoites pelos servos do marido lesado, por uma enfermidade oriunda do abuso, ou da idade, ou da impotência, ou mesmo também pelo bem natural e, assim, moral, por não ser decoroso e honesto, etc., e somente por essas razões vive castamente, esse é, não obstante, incasto e adúltero interiormente se não se abstiver disso pela fé espiritual, fé essa que os adultérios são infernais, porque são contra a lei Divina e, assim, contra o temor de Deus e o amor ao próximo. Semelhantemente em relação ao resto. [5] Pelas coisas agora citadas pode-se ver o que são o interno e o externo, e também o que são a fé e o amor, a saber, que a fé e o amor estão no homem quando o seu interno foi purificado dos males citados acima, e não estão quando não foi purificado; e que, onde estão a fé e o amor, aí está o céu, e onde não estão a fé e o amor, aí está o inferno. Mais coisas a respeito disso serão vistas abaixo (n. 825). * * * * * * *