. “E tinha dois chifres semelhantes [aos do] Cordeiro”. Que isto signifique o poder de persuadir [que existe] uma conjunção entre a fé separada e a Palavra, como se fosse pelo Senhor, vê-se pela significação de ‘chifres’, que é o poder (de que se tratou acima, n. 316 e 776); pela significação de ‘dois’, que é a conjunção (de que também se tratou acima, n. 532, ao fim); e pela significação de ‘Cordeiro’, que é o Senhor quanto ao Divino Humano (de que também se tratou acima, n. 314). Que, portanto, por ‘ter dois chifres semelhantes [aos do] Cordeiro’ seja significado o poder de persuadir [que existe] conjunção entre a fé separada e a Palavra, como se fosse pelo Senhor, pode-se ver pelas coisas que precedem e pelas que se seguem; pelas que precedem, o fato de pela ‘a besta que sobre da terra’ serem significadas as confirmações pelo sentido da letra da Palavra em favor da fé separada da vida (vide logo acima, n. 815); pelas que se seguem, pelo fato de se dizer que essa besta ‘falou como o dragão’ e ‘exerceu toda a autoridade da besta anterior diante dele’, pelo que são significados semelhantes afeição, pensamento, doutrina e pregação, com aqueles separam a fé da vida da fé, que é a caridade, e a conjunção dos raciocínios do homem natural, pela qual a religião da fé separada é corroborada, assuntos que serão tratados nos artigos logo seguintes. Por estas explicações é evidente que, como os ‘chifres’ dessa besta significam o poder de persuadir, ‘dois’ significa a conjunção, e ‘Cordeiro’ significa o Senhor, então, por ‘essa besta ter dois chifres semelhantes [aos do] Cordeiro’ é significado o poder de persuadir [que existe] uma conjunção entre a fé separada da vida e a Palavra, como se fosse pelo Senhor. Que sobre a cabeça dessa besta sejam vistos dois chifres, mas sobre a cabeça da besta anterior, dez chifres, é porque pela segunda besta são significadas as confirmações pela Palavra, e na Palavra existe um casamento do bem e do vero, e esse casamento é significado pelo ‘dois’. Daí também os chifres foram vistos como sendo ‘semelhantes [aos do] Cordeiro’, porque pelo ‘Cordeiro’ entende-Se o Senhor, aqui, quanto à Palavra. Que o Senhor quanto ao Seu Divino Humano seja a Palavra, isto é, o Divino Vero, é o que foi dito abertamente em João, a saber, Que a Palavra se fez Carne (Jo. 1:14). [2] Tal poder de persuadir e de confirmar qualquer heresia pela Palavra é bem conhecido no mundo cristão pelas tantas heresias que há ali, cada uma delas confirmada e, assim, persuadida pelo sentido da letra da Palavra. A razão disso é que o sentido da letra da Palavra é segundo a compreensão dos simples, e, por isso, quanto à sua maior parte consiste de aparências de vero, e as aparências de vero são tais que podem ser arrastadas para confirmar tudo o que alguém assume como princípio de religião e, daí, de doutrina, assim também um falso. Por esse motivo, aqueles que põem vero genuíno mesmo somente no sentido da letra da Palavra podem delirar em muitos pontos, se não estiverem na iluminação pelo Senhor e nela, como uma lâmpada, formarem doutrina para si. Estas coisas são aparências de vero, e as aparências de vero não podem ser entendidas de outro modo senão pelas passagens ali em que os veros se apresentam nus, pelos quais a doutrina pode ser formada a partir do Senhor naquele que é iluminado, e as demais coisas explicadas segundo ela. Daí é que aqueles que leem a Palavra sem a doutrina são levados a muitos erros. Que a Palavra tenha sido escrita assim é a fim de que nela houvesse conjunção do céu com o homem, e a conjunção existe porque cada palavra ali e, em algumas passagens, cada letra, contêm um sentido espiritual, no qual estão os anjos. Por isso, quando o homem percebe a Palavra segundo as suas aparências de vero, os anjos, que estão ao redor do homem, entendem-na espiritualmente. Assim o céu espiritual é conjunto ao mundo natural quanto às coisas tais que conduzem à vida do homem após a morte. Se a Palavra tivesse sido escrita de modo diferente não poderia haver conjunção alguma do céu com o homem. [3] E visto que assim é a Palavra na letra, por isso ela é como que um suporte para o céu, pois toda sabedoria dos anjos do céu, quanto às coisas que são da igreja, se apoia no sentido da letra da Palavra como se em sua base. Por esse motivo a Palavra na letra pode ser chamada de sustentáculo do céu. Daí o sentido da letra da Palavra é santíssimo e, de fato, mais poderoso do que o seu sentido espiritual, coisa que se fez notória para mim por meio de muita experiência no mundo espiritual, pois quando os espíritos proferem alguma passagem segundo o sentido da letra, eles imediatamente estimulam alguma sociedade à conjunção consigo. Por aí se pode ver que toda doutrina da igreja deve ser confirmada pelo sentido da letra da Palavra, para que tenham alguma santidade e algum poder em si, e isto pelos livros da Palavra que têm o sentido espiritual. Disto é também evidente quão perigoso é falsificar a Palavra ao ponto da destruição do Divino Vero, que está em seu sentido espiritual, porquanto assim o céu é fechado para o homem. Que isto seja feito por aqueles que confirmam pela Palavra a separação entre a fé e a sua vida, que são as boas obras, mostrou-se acima.