AE 817

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E falava como o dragão.” Que isto signifique com afeição, pensamento, doutrina e pregação semelhantes aos daqueles que fazem separação entre a fé e a vida da fé, que é a caridade, vê-se pela significação de ‘falar’, que é a afeição, o pensamento, a doutrina e a pregação. A razão por que ‘falar’ signifique tais coisas é porque toda fala do homem vem da afeição e, daí, do pensamento. A afeição mesma é expressa pelo som da fala, e o pensamento por suas palavras. Que uma e outro, tanto a afeição quanto o pensamento, estejam na fala, qualquer que reflete pode ver. A afeição mesma, sozinha, não pode falar, a não ser somente emitir som e cantar, e tampouco o pensamento mesmo, sozinho, pode falar diferentemente de um autômato sem vida, pois a afeição vivifica toda palavra da fala. Esta é, também, a razão pelo qual o homem é considerado pelos outros segundo a afeição de sua fala, e não seguindo as palavras de sua fala. Que ‘falar’ também signifique a pregação pela doutrina, assim, a doutrina e, daí, a pregação, é porque se diz que ‘a besta falou como o dragão’, e pelo ‘dragão’ se entendem aqueles que estão na fé separada da caridade na doutrina e na vida (vide acima, n. 714), e por essa ‘besta’ se entendem as confirmações pelo sentido da letra da Palavra em favor da separação entre a fé e a vida e, por conseguinte, as falsificações da Palavra. Por isso é que essa religiosidade, quanto à doutrina e quanto à pregação, é significada por ‘falar como o dragão’.
[2] Visto que a fé separada da caridade e, daí, a falsificação da Palavra, são descritos pelo ‘dragão’ e por suas duas ‘bestas’, eu gostaria de mostrar neste artigo que uma heresia semelhante é descrita na Palavra por ‘Cain’, por ‘Reuben’ e pelos ‘filisteus’, e que o mesmo se entende pelo ‘bode’ em Daniel. Com efeito, nesta terra existiram muitas igrejas, a saber, a Antiquíssima, que existiu antes do dilúvio, a Antiga, após o dilúvio, a Judaica, que sucedeu à Antiga, e, por último, a Igreja Cristã. Todas essas igrejas se degeneraram no decorrer do tempo em dois erros enormes: um, que adulterou todos os bens da igreja, e outro, que falsificou todos os seus veros. A Igreja que adulterou todos os bens da igreja é descrita na Palavra pelos ‘babilônicos’ e pelos ‘caldeus’; e a Igreja que falsificou todos os veros da igreja é descrita por ‘Cain’, por ‘Reuben’, pelos ‘filisteus’ e, em Daniel, pelo ‘bode’ que lutou com o carneiro e o venceu. Da adulteração do bem da igreja, que é descrita pelos ‘babilônicos’ e ‘caldeus’, se dirá na sequência, onde se trata da ‘Babilônia’ no Apocalipse. Mas agora se dirá a respeito da falsificação do vero, que aqui, no Apocalipse, é descrita pelo ‘dragão’ e por suas duas ‘bestas’, o que também é descrito por ‘Cain’ e pelos outros citados acima.
[3] Que ‘Cain’ represente os que fazem separação entre as cognições do vero e do bem e a vida segundo elas, e creem que por elas, somente, serão salvos, foi mostrado em poucas palavras nos Arcanos Celestes, onde se tratou de Cain e Abel. Ao que foi mostrado eu gostaria de acrescentar o que se segue. A respeito de Cain se lê:
Que ele foi o primogênito de Adão, cultivava o humo e trouxe do fruto do humo em oferta a Jehovah; que Abel foi pastor de rebanho e trouxe dos primogênitos de seu rebanho e de sua gordura; que Jehovah olhou para a oferta de Abel e não para a oferta de Cain, e por isso acendeu-se a ira a Cain e ele matou seu irmão; que, por isso, Cain foi amaldiçoado e lançado fora do humo, e tornou-se errante e fugitivo na terra; que Jehovah impôs em Cain um sinal para que fosse morto, com o estatuto de que seria vingado sete vezes aquele que o matasse (sobre isto, vide o cap. 4 de Gênesis).
Cumpre saber que por todos os nomes de pessoas e lugares na Palavra são significadas coisas e estados da igreja, principalmente pelos nomes nos primeiros capítulos de Gênesis, porque os relatos históricos nesses capítulos são histórias produzidas, contendo coisas secretíssimas do céu e, no entanto, santíssimas no sentido da letra, porque em cada uma das palavras ali há um sentido espiritual que conjunge os céus aos homens da igreja. Nos Arcanos Celestes foi explicado o que esses relatos históricos envolvem no sentido espiritual e o que os nomes das pessoas ali significam. Por ‘Cain’ são significadas as cognições do vero e do bem separadas da vida segundo elas, assim, separadas do amor celeste, e por ‘Abel’ é significado o amor celeste. Ou, o que dá no mesmo, por ‘Cain’ é significado o vero separado do bem, e por ‘Abel’, o bem conjunto ao vero. E como o vero é a primeira coisa da igreja – pois toda igreja é formada por meios dos veros, já que toda igreja começa pelos veros ou pelas cognições do vero e do bem – por isso Cain foi o primogênito e chamado ‘varão de Jehovah’, porque ‘varão de Jehovah’ significa na Palavra o vero do céu e da igreja, e pelo ‘humo’ que Cain cultivava é significada a igreja. A separação entre o vero e o bem é significada pela ‘morte de Abel, por Cain’, porque quanto se põe tudo da igreja nos veros ou nas cognições, e não nos bens ou nas afeições de se viver segundo os veros, então o bem é morto juntamente com suas afeições. E, como tudo da igreja perece quando o vero é separado do bem, por isso ‘Cain foi lançado fora do humo’ pelo qual, como foi dito, é significada a igreja. Como, porém, os veros são as primeiras coisas da igreja, pois os veros devem ensinar a vida, por isso ‘foi posto um sinal em Cain, para que não fosse morto’, e foi estatuído que ‘seria vingado sete vezes, se alguém o matasse’. E visto que o vero sem o bem é levado de uma parte a outra – já que nada há que o conduz, pelo que cai sucessivamente em falsos e se afasta do caminho que conduz ao céu – por isso ‘Cain foi lançado fora de diante da face de Jehovah, e tornou-se errante e fugitivo’. Dá-se o mesmo em relação à fé e à caridade, porque a fé pertence ao vero e a caridade pertence ao bem. Assim, com a fé separada da caridade se dá o mesmo que o que foi dito a respeito de Cain, a saber, que ‘mata a Abel, seu irmão’, que é a caridade, e daí a igreja perece, o que é significado por ‘ser lançado fora do humo’ e ‘tornar-se errante e fugitivo’, pois quanto a fé é separada da caridade, então o vero se muda sucessivamente em falso e se dissipa.
[4] Viu-se acima (n. 434) que ‘Reuben’, o primogênito de Jacob, significou a luz do vero e, daí, o entendimento da Palavra, por conseguinte, o vero oriundo do bem ou a fé oriunda da caridade, do mesmo modo que o apóstolo Pedro; e, alternativamente, ele também representou o vero separado do bem, ou a fé separada da caridade, e essa fé é representada por seu adultério com Bilha, mulher de seu pai, e por isso lhe foi tirada a primogenitura e dada a José. A isto se deve acrescentar que todas as heresias, enquanto são adulterações e falsificações da Palavra, correspondem a adultérios e meretrícios de vários gêneros, e como correspondem tais coisas, por isso são realmente percebidos no mundo espiritual por aqueles que estão em heresias. A razão disso é que os casamentos, tais como são nos céus, derivam sua origem espiritual da conjunção do bem e do vero, e, ao contrário, os adultérios derivam sua origem da conjunção do mal e do falso, razão pela qual o céu é comparado na Palavra ao casamento, e o inferno ao adultério. E como nos infernos existe uma conjunção do mal e do falso, por isso dali exala continuamente uma esfera de adultério. É por esta razão que os ‘adultérios’ e as ‘escortações’ significam na Palavra as adulterações do bem da igreja e as falsificações de seu vero (vide acima, n. 141 e 161).
[5] No que concerne à fé separada da caridade, ela é percebida no mundo espiritual como um adultério do filho com a mãe e, também, com a madrasta. A razão disso é que essa fé exclui o bem da caridade, que, sendo excluído, em lugar do bem da caridade sucede o mal do amor de si e do mundo, amor com o qual essa fé se conjunge. Com efeito, toda fé deve necessariamente se conjungir a algum amor; por isso, quando é separado o amor espiritual, que é a caridade, então a fé se conjunge ou ao amor de si ou amor do mundo, amores esses que são os amores dominantes no homem natural; assim é que um nefando adultério resulta da fé separada da caridade. Daí é agora evidente o que significa ‘o adultério de Reuben com Bilha, mulher de seu pai’, e por que motivo ele rejeitou o direito de primogenitura. É isto também que se entende pela profecia do pai, Israel, a respeito de Reuben, que é assim:
“Reuben, meu primogênito, tu, a minha forma e o princípio de meu vigor, excelente em eminência e excelente em valor; leve como a água, não te exaltes, porque subiste à cama de teu pai, então profanaste; ao meu leito subiste” (Gn. 49:3, 4),
palavras que se veem explicadas nos Arcanos Celestes (n. 6341-6350). Que tal adultério seja percebido pela fé separada da caridade no mundo espiritual é o que foi evidenciado a mim pelas correspondências no mundo espiritual. Todas as vezes que percebi de longe uma esfera de adultério com a mãe ou com a madrasta, conheci logo que se aproximavam aqueles que se tinham confirmado na fé, só, tanto na doutrina quanto na vida, e então eles também se manifestavam; e, quando examinados, descobria-se que foram tais no mundo.
[6] Isto a respeito de Reuben. Dir-se-á agora a respeito dos filisteus, que também eles representam na Palavra a fé separada do amor, assim, o que foram chamados de ‘incircuncisos’, pois ‘incircunciso’ significa o que é desprovido do amor espiritual e está somente no amor natural. Com esse amor, sozinho, nada que é religioso, e ainda menos o que é da igreja, pode ser conjunto, pois todo religioso e tudo da igreja consideram o Divino e consideram o céu e a vida espiritual, e estes não podem ser conjuntos a outro amor senão o amor espiritual, e não com o amor natural separado do espiritual, porque o amor natural separado do espiritual é o proprium do homem, que, considerado em si mesmo, nada é senão o mal. Todas as guerras que os filhos de Israel travaram com os filisteus representavam lutas do homem espiritual com o homem natural, e, assim também, lutas do vero conjunto ao bem com o vero separado do bem, que em si não é vero, mas falso, pois o vero separado do bem é falsificado na ideia do pensamento a seu respeito. A razão disso é não há espiritual algum no pensamento que ilumine. Esta é a razão, também por que aqueles que estão na fé separada da caridade não têm vero algum, senão somente quanto à fala ou a pregação da Palavra. A ideia do vero logo perece, assim que se pensa nele.
[7] Como essa religião nas igrejas está em todos os que amam viver a vida natural, por isso na terra de Canaan os filisteus não foram subjugados como as demais nações daquela terra, e daí houve muitas lutas contra eles. Os relatos históricos da Palavra são todos representativos de coisas tais que são da igreja, e todas as nações da terra de Canaan representaram heresias que confirmam ou os falsos da fé ou os males do amor, e os filhos de Israel representaram os veros da fé e os bens do amor, por conseguinte, a igreja. O que, porém, representaram as guerras que os habitantes da terra de Canaan fizeram será dito em seu lugar e seu tempo. Aqui se dirá somente que os filisteus representaram a religiosidade separada do bem espiritual, como também é a religiosidade da fé só, separada de sua vida, que é a caridade. Daí era que todas as vezes que os filhos de Israel se desviaram do culto de Jehovah para o culto de outros deuses eles foram entregues aos seus adversários ou vencidos por eles. Por exemplo,
Foram entregues aos filisteus e a eles serviram por dezoito anos e, depois, por quarenta anos (Jz. 10:13),
o que representava que eles se tinham afastado do culto pelo bem do amor pelos veros da fé para o culto pelo mal do amor e pelos falsos da fé. Semelhantemente,
Os filhos de Israel foram vencidos e afligidos pelos filisteus (1 Sm. 4; 13; 28; 29; 31),
mas, quando os filhos de Israel voltaram ao culto de Jehovah, que era o culto pelo bem do amor e pelos veros da fé,
Eles venceram os filisteus (1 Sm. 7, 14; 2 Sm. 5, 8, 21, 23; 2 Re. 18).
Que esses relatos históricos envolvem tais coisas não se pode ver senão pela série das coisas ali descritas, iluminadas no sentido interno, que aqui não há tempo de apresentar. Por isso somente uma passagem das profecias da Palavra será citada, pela qual se verá que tais coisas da igreja foram representadas pelos filisteus nesses relatos históricos.
[8] Por exemplo, em Isaías:
“Não te alegres, ó toda a Filístia... por ser quebrada a vara que fere, pois da raiz da serpente sairá um basilisco, cujo fruto é uma serpente que voa. Então apascentarão os primogênitos dos pobres, e os necessitados se deitarão confiantemente. E matarei de fome a tua raiz, e os teus restos ele matará. Uiva, ó porta! Clama, ó cidade! Tu, Filístia, toda te derreteste, porque do setentrião veio uma fumaça, não há solitário em tuas assembleias. O que então responderá [aos] mensageiros da nação? Que Jehovah fundou a Sião, e nela esperarão os indigentes do seu povo” (Is. 14:29-32).
Aqui se descreve a Filístia, que significa a igreja ou os que estão na igreja, os quais estão, de fato, nos veros oriundos do sentido da letra da Palavra ou de outra revelação, e, no entanto, em amores imundos, pelo que os seus veros não vivem, e os veros que não vivem se convertem em falsos quando vão do pensamento exterior, que é o pensamento próximo à fala, ao pensamento interior, que é do entendimento, e quando esse [pensamento] considera os veros em sua origem, que aqueles que se entendem pelos ‘filisteus’ não veem. Que não vejam é porque cada homem, mesmo o mau, tem a faculdade de entender, mas não o bem da vontade, que é o bem da vida, pois este nasce do amor a Deus e do amor para com o próximo, amores esses que fazem com que essa faculdade de comunique com o céu e dali recebe iluminação.
[9] Nesse capítulo e Isaías se descrevem aqueles que estão nos veros sem o bem, e descreve-se também que todos os veros neles são convertidos em falsos. É este, pois, o sentido literal dessas palavras: ‘não te alegres, ó toda a Filístia, por ser quebrada a vara que fere’ significa que não se regozijem pelo fato de lhes permitido permanecer em sua heresia por causa do pequeno número daqueles que estão nos veros do bem; ‘pois da raiz da serpente sairá um basilisco’ significa que do homem sensual surgirá o dogma que destrói todo vero; ‘raiz da serpente’ é o sensual, que é o último da vida do homem, e ‘basilisco’ é a destruição de todo vero; ‘cujo fruto é uma serpente que voa’ significa do qual nascerá a fé separada da caridade; essa fé se entende pela ‘serpente que voa’ porque, pelos raciocínios e pelas confirmações das coisas reveladas não compreendidas, o entendimento voa no alto e assim mata as coisas que vivem. Portanto, pelo ‘basilisco’ é significado o mesmo que pelo ‘dragão’, que também é chamado ‘serpente’; e, semelhantemente, pela ‘serpente que voa’ é significado o mesmo que pela ‘besta que sobe do mar’ e pela ‘besta que sobe da terra’, neste capítulo do Apocalipse. ‘Então apascentarão os primogênitos dos pobres, e os necessitados se deitarão confiantemente’ significa que quando esse dogma for aceito por aqueles que são homens naturais e sensuais e se creem mais sábios do que outros, então os veros do bem naqueles que desejam os veros e querem os bens hão de viver; os ‘primogênitos’, na Palavra, significam os veros nascidos do bem, os ‘pobres’ significam os que não estão no bem, mas os querem de coração. ‘E matarei de fome a tua raiz, e os teus restos ele matará’ significa que todos os veros, dos primeiros aos últimos, hão de perecer pelos falsos. ‘Uiva, ó porta! Clama, ó cidade!’ significa que nenhuma entrada haverá para vero algum, e a doutrina será composta de meros falsos; a ‘porta’ significa a entrada para os veros da doutrina, e ‘cidade’, a doutrina; ‘Tu, Filístia, toda te derreteste’ significa a destruição dessa igreja por meros falsos. ‘Porque do setentrião veio uma fumaça’ significa que todo falso do mal irromperá do inferno. ‘Não há solitário em tuas assembleias’ significa que não restará um só vero entre as cognições. ‘O que então responderá [aos] mensageiros da nação?’ significa a iluminação daqueles que estão no bem da vida oriundo do amor ao Senhor. ‘Que Jehovah fundou a Sião’ significa que deles será instaurada a igreja. ‘E nela esperarão os indigentes do seu povo’ significa que aqueles que não são sábios por si mesmos e vencem nas tentações contra esses falsos haverá inteligência e salvação.
[10] A vastação do vero pelos falsos naqueles que se entendem pelos ‘filisteus’ é também descrita por Jeremias (47:1-7), do mesmo modo que em Ezequiel (25:15, 16), em Joel (3:4-6), em Amós (1:8). Que os mesmos falsifiquem os veros entende-se pelas ‘filhas dos filisteus’ em Ezequiel (16:27, 57) e 2 Samuel (1:20), pois as ‘filhas dos filisteus’ aí são as afeições do falso. A religiosidade delas era também representada por seu ídolo, que se chamava Dagon, depositado em Ashdod, o qual, segundo a descrição deles, foi formado como se fosse um homem da cabeça até o umbigo, e como peixe do umbigo para baixo. Como homem da cabeça até o umbigo representava o entendimento oriundo dos veros, e como peixe do umbigo para baixo representada o natural sem o bem do amor, pois a parte inferior até os joelhos corresponde ao amor celeste, e o ‘peixe’ corresponde ao homem natural, que é desprovido do bem espiritual. (Que o ‘homem’ signifique a afeição do vero vê-se acima, n. 280; que a sua ‘cabeça’ signifique o entendimento do vero e, daí, a inteligência, n. 553; que o ‘peixe’ signifique o homem natural, n. 513; e que os ‘genitais’ signifique, pela correspondência, o amor celeste, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 5050-5062. Também as ‘hemorroidas’, de que foram feridos os filisteus, quando a arca de Deus foi capturada por eles, significavam os veros conspurcados pelos males da vida. Mas estas e muitas outras coisas que a este respeito foram relatadas no Primeiro Livro de Samuel, capítulo 5, veem-se explicadas acima, n. 700).
[11] O vero conspurcado pelo mal da vida é também significado pelo ‘incircunciso’ (2 Sm. 1:20; Ez. 28:10; 31:18; 32:18, 19; 44:9), pois o prepúcio corresponde ao amor corpóreo, uma vez que o membro que o prepúcio cobre corresponde ao amor espiritual e celeste, e como os filisteus representavam aqueles que estão no conhecimento e nas cognições do vero sem bem espiritual e celeste algum, por isso eram chamados ‘incircuncisos’. E visto que os filhos de Israel foram realmente tais, para que, todavia, representassem a igreja que está no bem espiritual e celeste e, daí foi ordenado que eles se circuncidassem. Por aí se pode ver que essa religiosidade de hoje, que separa a caridade da fé, é, no sentido representativo, a Filístia.
[12] Até aqui a respeito dos filisteus. Agora se dirá a respeito dos bodes e das ovelhas, sobre os quais haverá o juízo, segundo as palavras do Senhor em Mateus (cap. 25:31 ao fim). É uma opinião comum que pelos ‘bodes’ aí se entendem todos os maus, e até hoje foi ignorado que pelos ‘bodes’ aí se entendem os que estão na fé separada da caridade, e pelas ‘ovelhas’, os que estão na fé oriunda da caridade. Pelos ‘bodes’, num bom sentido, se entendem os que estão no bem natural e, daí, nos veros, veros esses que são chamados cognições do vero e do bem oriundas do sentido natural da Palavra; esses, ou esse bem e, daí, esse vero, são significados pelos ‘bodes’ que eram sacrificados. Que também se faziam sacrifícios com bodes vê-se em Levítico 4:23; 9:2-4, 8-23; 16:2-20; 23:18,19; e Números 15:22-29; 28:11-15, 18 ao fim; 29, e outras passagens, pois todas as bestas com que se faziam sacrifícios significavam coisas tais que são da igreja, as quais se referem, todas, aos bens e veros. Os bens e, daí, os veros celestes, em que estão os anjos no terceiro céu, eram significados pelos ‘cordeiros’, enquanto os bens e veros espirituais, em que estão os anjos no céu médio, eram significados pelos ‘carneiros’; e os bens e, daí, os veros naturais, em que estão os anjos do último céu, eram significados pelos ‘bodes’. Os bens e veros celestes estão naqueles que estão no amor ao Senhor, enquanto os bens e veros espirituais estão naqueles que estão no amor para com o próximo; e os bens e veros naturais estão naqueles que vivem bem segundo os veros pela afeição natural. Esses são representados por essas três bestas em várias passagens na Palavra (como em Ez. 27: 21 e em Dt. 32:14).
[13] Mas, como a maioria das coisas na Palavra tem também um sentido oposto, assim também os ‘bodes’, que, nesse sentido, significam aqueles que estão na fé separada da caridade, pelo fato de serem mais lascivos do que os outros e porque eles, no sentido genuíno, são significados os que estão no bem e, daí, no vero espiritual. Todos aqueles que estão na fé separada da caridade, tanto na doutrina quanto na vida, são meramente naturais. Que eles sejam entendidos pelos ‘bodes’, na Palavra, foi-me mostrado ao vivo no mundo espiritual. Ali aparecem várias bestas, mas elas não são bestas como em nosso mundo, a saber, que tenham nascido bestas, mas são correspondências de afeições e, daí, de pensamentos dos espíritos e dos anjos. Por isso, também, tão logo variam e cessam essas afeições e, daí, os pensamentos, elas desvanecem da vista. Para que eu soubesse que aqueles que estão na fé separada da, ou, antes, as suas afeições e, daí, os pensamentos de sua fé, são representados pelos bodes, foi-me concedido ver alguns daqueles espíritos, e eles apareceram perante os meus olhos e os de muitos outros exatamente como bodes com chifres. E também foram enviados para o meio deles uns carneiros e ovelhas, contra os quais os bodes se lançaram, incendiados de ira, e se esforçavam para derrubá-los, mas em vão, pois no mundo espiritual os bodes não têm poder algum contra os carneiros ou ovelhas, pelo que os bodes foram derrotados. E, em seguida, foi-me concedido vê-los como homens, pelo que foi atestado que os bodes eram os mesmos que aqueles que no viveram na fé separada da caridade.
[14] Por aí se pode ver o que é significado pelo ‘carneiro’ e pelo ‘bode’, e pela ‘luta deles’, em Daniel 8, a saber, pelo ‘carneiro’ ali se entendem os que estão na fé da caridade, e pelo ‘bode’ aqueles que estão na fé separada da caridade. Por conseguinte, descreve-se ali o estado futuro da igreja, ou seja, que a fé separada dissiparia toda caridade, que é o bem da vida, e o falso daí dominaria em todo o mundo cristão. Para ilustrar eu gostaria de citar, em resumo, o que foi relatado em Daniel a respeito do carneiro e do bode, que é o seguinte:
Daniel viu numa visão um carneiro “que tinha dois chifres... um mais alto do que o outro... mas o alto subiu depois; ...ele se fez grande” ... mas, então, “um bode das cabras veio do ocidente sobre as faces de toda a terra” ...e lançou-se conta o carneiro, e o feriu, e quebrou os seus dois chifres, “e lançou o carneiro por terra e o pisoteou”; ele tinha um chifre entre os olhos, e quando este quebrou “subiram quatro chifres em seu lugar, conforme os quatro ventos dos céus; e de um deles saiu um chifre... que cresceu muito... e mesmo até o exército dos céus, e lançou por terra [parte] do exército, e das estrelas, e os pisoteou; sim... até ao príncipe do exército se exaltou, e d’Ele foi tirado o [holocausto] contínuo, e precipitado o habitáculo de Seu santuário;... e lançou a verdade por terra” (Dn. 8:1-14).
Que pelo ‘carneiro’ aí se entendam os que estão na fé da caridade e, pelo ‘bode’, os que estão na fé separada da caridade, vide acima (n. 316), onde essas mesmas palavras foram explicadas, pelo que é desnecessário explicá-las novamente.
[15] Que pelos ‘bodes’ também se entendam os que estão na fé separada da caridade e pelos ‘carneiros’ os que estão na fé da caridade vê-se também em Ezequiel:
“Vós... Meu rebanho... Eis que eu julgo entre gado e gado, e entre carneiros e bodes” (Ez. 34:17);
como também em Zacarias:
“Contra os pastores se acendeu a Minha ira, e os bodes visitarei” (Zc. 10:3).
Por aí se pode ver que pelos ‘bodes’ e pelas ‘ovelhas’ em Mateus (cap. 25:31 até o fim) não se entendem outras pessoas, pelo também são enumeradas somente as obras de caridades que as ovelhas fizeram e as obras que os bodes não fizeram. Que esses sejam entendidos aí pelos ‘bodes’ é confirmado também pelo seguinte: quando foi feito o juízo final sobre aqueles que foram da Igreja Cristã, todos aqueles que estiveram na fé separada da caridade, tanto na doutrina quanto na vida, foram precipitados no inferno, e foram preservados todos os que estiveram na fé da caridade.
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