AE 819

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. [Vers. 12] “E toda autoridade da besta anterior exerce diante dele”. Que isto signifique a conexão dos raciocínios do homem natural com o sentido da letra da Palavra, pela qual é corroborada a religião da fé separada, vê-se pela significação da ‘besta que sobre da terra, que exerceu toda autoridade da besta anterior diante do dragão’, que são as confirmações pelo sentido da letra da Palavra em favor da fé separada da vida, e, daí, falsificações do vero (de que se tratou acima, n. 815); pela significação da ‘besta anterior’, que são os raciocínios do homem natural que confirmam a separação entre a fé e a vida (de que se tratou acima, n. 774); e pela significação do ‘dragão’, diante do qual essa besta exerceu a autoridade da besta anterior, que é, em geral, a fé separada da vida, que é a caridade. Disto se pode ver que pelo fato de essa ‘besta exercer autoridade da besta anterior diante do dragão’ é significada a conexão dos raciocínios do homem natural com o sentido da letra da Palavra, conexão pela qual se confirma a religião da fé separada.
[2] Que seja a conexão dos raciocínios do homem natural com o sentido da letra da Palavra é porque pelo sentido da letra da Palavra nunca pode ser confirmado falso algum, a não ser pelos raciocínios do homem natural, pois a Palavra na letra consiste de aparências de vero e também de correspondências, e estas e aquelas contêm, em seu seio, isto é, no seu sentido espiritual, veros genuínos; por isso, quando algum falso é confirmado pelas aparências de vero correspondentes aos veros genuínos, então a Palavra é falsificada, e a falsificação da Palavra não pode provir senão dos raciocínios do homem natural. Daí é que o ‘dragão’, pelos qual é significado o dogma herético da fé só, é descrito adicionalmente pelas ‘duas bestas’; pela primeira delas é descrito o raciocínio do homem natural em favor da fé separada sua vida, que é a caridade, e, pela segunda, a confirmação pelo sentido da letra pelo sentido da letra da Palavra e, daí, sua corroboração e, depois, a falsificação do vero. Assim é d novo evidente que por essa besta ‘exercer a autoridade da besta anterior diante do dragão’ significa a conexão dos raciocínios do homem natural com o sentido da letra da Palavra. Estas coisas, porém, serão por meio de exemplos, tais como:
[3] (1.) Os dogmáticos que lutam em favor da fé, só, não atentam para todas as passagens da Palavra onde se mencionam ‘obras’, ‘feitos’, ‘obrar’ e ‘fazer’, as quais são tão evidentes que não podem admitir nenhum raciocínio contrário; e, no entanto, eles as subtraem de seu sentido genuíno e, por meio de raciocínios, as torcem e desviam do vero genuíno que está nos céus e que contém o sentido espiritual delas. Com efeito, eles raciocinam dizendo que a fé, só, envolve os feitos e as obras, pois os que estão na fé, estão nos feitos e nas obras, assim, que a fé os opera. Todavia, a fé sem os feitos ou as obras é uma fé morta, que nada pode operar. E, se lhes disser isso, eles raciocinam que os feitos estão, todavia, presentes por uma operação Divina oculta, e, não obstante, as excluem do meio de salvação, de sorte que possam estar presentes sem estarem presentes, como se pode ver pela justificação por meio da fé momentânea e também na hora da morte, ainda que sejam maus. (2.) É um raciocínio do homem natural que a fé separada dos bens da vida é também espiritual, quando, todavia, são os bens do amor que dão vida à fé e fazem com que ela seja espiritual, pois o amor é a alma mesma da fé, e o amor é fazer, pois o que o homem ama, isto ele quer, e o que ele quer, isto faz. É o que o Senhor também ensina em João:
“Quem tem os Meus preceitos e os pratica, esse é o que Me ama;... quem, porém, não Me ama, não guarda as Minhas palavras” (Jo. 19:21, 24).
Daí também é evidente que a fé sem as obras não é espiritual, pois está sem a sua alma, e uma fé sem a sua alma é uma fé morta. (3.) É também um raciocínio do homem natural que, visto que o homem não pode fazer o bem por si, a fé se torna o meio de salvação. (4.) Também é um raciocínio do homem natural que aqueles que estão na fé, estão em Deus e no estado de graça, de modo que nada os condena. Daí muitos creem que não é necessário viver a vida cristã, que é segundo os preceitos do Senhor, dizendo consigo: ‘Por que atentarei para as obras, quando os bens não salvam e os males não condenam? Tenho a fé de que o Senhor sofreu a paixão da cruz pelos pecados do mundo, e nos libertou da condenação da lei. Que mais [é necessário]?’ (5.) É, também, um raciocínio do homem natural que a fé, só, é como uma semente da qual nascem salvações de todo gênero, como frutos e árvores das sêmenes nos jardins, quando, todavia, na fé, só, não há semente de vida senão pela vida do homem espiritual. (6.) São, também, raciocínios do homem natural todas as coisas transmitidas pelos dogmáticos eruditos dessa religiosidade a respeito das progressões até a justificação pela fé só, tais como, que a certeza dessa fé deve ser adquirida da Palavra, da pregação e da autoridade dos instruídos, sem a visão do entendimento. E, se o entendimento entra, a fé não se torna espiritual, quando, todavia, se a visão do entendimento é excluída, o homem se torna cego, e diante de um homem cego podem ser confirmados igualmente falsos e veros, e, de fato, mais falsos do que veros, porque nele as falácias, que são das trevas, valem mais do que os veros mesmos, que estão na luz. Fecha o entendimento, extrai raciocínios e ajunta confirmações pelo sentido da letra da Palavra, e persuadirás quanto a tudo o que quiseres, principalmente nas coisas teológicas, que sobem aos interiores da mente racional.
[4] Que sejam chamados raciocínios do homem natural é porque o homem natural está nos prazeres do amor de si e do mundo, e esses prazeres, quando predominar, fazem com que o homem não creia senão nas coisas que concordam, as quais são em si falsas, porquanto também induzem trevas em todo assunto espiritual, de sorte que o homem foge da luz celeste e, assim, rejeita a iluminação do entendimento. A razão disso é que o homem natural separado do espiritual olha para si e para o mundo, e não para o Senhor e par ao céu, e assim é conjunto ao inferno, onde estão todos os falsos, e estes não podem jamais ser dissipados senão pelo predomínio do amor celeste pelos veros genuínos que são provenientes desse amor. Daí é, pois, que são chamados raciocínios do homem natural, e é pelos raciocínios do homem natural que a Palavra é falsificada, pois a Palavra não pode ser falsificada sem os raciocínios do homem natural.

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