. Como no artigo precedente (n. 817) foi mostrado que, na Palavra, por Cai, Reuben e os filisteus foram representados os que estão nos veros separados do bem, desejo agora mostrar que pelo apóstolo ‘Pedro’, na Palavra dos Evangelhos, se entende o vero do bem que vem do Senhor e, também, no sentido oposto, o vero separado do bem. E visto que o vero pertence à fé e o bem pertence à caridade, por ele também se entende a fé da caridade e, também, a fé separada da caridade, pois os doze apóstolos, assim como as doze trinos de Israel, representaram a igreja quanto a todas as suas coisas, portanto, quanto aos veros e bens, porque todas as coisas da igreja se referem a esses dois, como à fé e ao amor, já que os veros pertencem à fé e os bens pertencem ao amor. Pedro, Tiago e João representaram, em geral, a fé, a caridade e as obras de caridade; por isso esses três seguiram o Senhor mais do que os outros, motivo pelo qual deles se diz em Marcos: ‘A ninguém permitiu que O seguisse, senão Pedro, Tiago e João” (Mc. 5:37). [2] E como o vero do bem, que vem do Senhor, é o primeiro da igreja, por isso Pedro foi o primeiro a ser chamado por André, seu irmão, e depois Tiago e João, como se vê em Mateus: “Andando... Jesus junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, deitando a rede no mar, pois eram pescadores; e lhes disse: Vinde após Mim, e vos farei pescadores de homens; e eles, deixando imediatamente as redes, O seguiram” (Mt. 4:18-20); em João: André “achou o próprio irmão, Simão, e lhe disse: Achamos o Messias, que é, se traduzires, Cristo. Conduziu-o, pois a Jesus, e, olhando para ele, Jesus lhe disse: tu és Simão, filho de Jonas. Tu serás chamado Cephas, que, traduzido, é Pedro” (Jo. 1:41-43); e, em Marcos, Jesus, subindo a um monte, chama a Si os que queria; primeiro, Simão, e lhe pôs o nome de Pedro; em seguida, Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago (Mc. 3:13, 16, 17). Pedro foi o primeiro dos apóstolos porque o vero do bem é o primeiro da igreja, pois o homem não sabe, pelo mundo, coisa alguma do céu e do inferno, nem a respeito da vida após a morte e nem mesmo a respeito de Deus. Seu lume natural não ensina outra coisa senão o que entra pelos olhos, portanto, somente o que é do mundo e o que é de si. Sua vida também vem daí, e enquanto o homem está nisso, está no inferno. Mas, a fim de ser daí tirado e conduzido ao céu, é necessário que aprenda os veros, que ensinam não somente que há Deus, que há o céu e o inferno, que há a vida a após morte, mas ensinam, também, o caminho para o céu. Daí se pode ver que o vero é a primeira coisa pela qual o homem tem a igreja, mas o vero do bem, porque o vero sem o bem é somente uma cognição de que assim é, e a cognição somente não faz outra coisa senão que o homem possa se tornar da igreja, mas não o faz antes que ele viva segundo as cognições. Então o vero se conjunge ao bem e o homem é introduzido na igreja. Os veros também ensinam de que maneira o homem deve viver, e quando ele é tocado pelos veros por causa dos veros – o que acontece quando ele ama viver segundo os veros – ele é então conduzido pelo Senhor e lhe é dada conjunção com o céu, e se torna espiritual e, após a morte, um anjo do céu. Cumpre saber, porém, que os veros não produzem isso, mas o bem por meio dos veros, e o bem vem do Senhor. Uma vez que o vero do bem, que vem do Senhor, é a primeira coisa da igreja, por isso Pedro foi chamado primeiro e foi o principal dos apóstolos. Ele foi também chamado ‘Cephas’, que é ‘rocha’ (petra), pelo Senhor, mas, para que fosse um nome de pessoa, foi dito Pedro. Por ‘Rocha’ (Petram), no sentido supremo, é significado o Senhor quanto ao Divino Vero, ou o Divino Vero procedente do Senhor. Assim, no sentido relativo, por ‘rocha’ é significado o vero do bem que vem do Senhor, do mesmo modo que por ‘Pedro’. (Que a ‘rocha’ signifique isso vê-se acima, n. 411; o que, porém, ‘Simão de Jonas’ significa, vê-se também acima, n. 443). [3] Que esses três apóstolos tenham sido pescadores, e que lhes tenha sido dito ‘vinde após Mim, e vos farei pescadores de homens’, era porque pescar significa instruir os homens naturais, pois havia naquele tempo, tanto dentro da igreja quanto fora dela, homens naturais que, conforme receberam o Senhor e receberam d’Ele os veros, tornaram-se espirituais. [4] Disto se pode concluir o que significam as palavras que foram ditas pelo Senhor a Pedro, sobre as ‘chaves’, que assim se leem em Mateus: Como alguns tinham dito que Jesus era João Batista, outros, Elias, outros, Jeremias ou algum dos profetas, Jesus disse aos discípulos: “Mas, vós, que dizeis que Eu sou? Respondendo... Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo; e, respondendo, Jesus disse:... Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque carne e sangue não te revelou, mas Meu Pai, que está nos céus. E mais te digo: Tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei a Minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus” (Mt. 16:14-19. Uma vez que o vero do bem, que vem do Senhor, é a primeira coisa da igreja e era significado por ‘Pedro’, por isso tais coisas foram ditas pelo Senhor a Pedro, e foram ditas quando ele reconheceu o Senhor como Messias ou Cristo e como Filho do Deus vivo, porque sem esse reconhecimento o vero não é vero, pois o vero deriva sua origem, essência e vida do bem, e o bem, do Senhor. Como o vero do bem, que vem do Senhor, é o primeiro da igreja, por isso o Senhor diz: ‘sobre esta rocha edificarei a Minha igreja’. Que ‘Pedro’ ou ‘rocha’, signifique no sentido supremo o Divino Vero procedente do Senhor, e, no sentido relativo, o vero do bem, que vem do Senhor, foi dito logo acima. Que ‘as portas do inferno não prevaleceriam’ significa que os falsos do mal, que vêm dos infernos, não ousam {???} se levantar contra os da igreja que estão nos veros do bem oriundo do Senhor; pelas ‘portas do inferno’ são significados todos os infernos, os quais têm, todos, portas pelas quais os falsos do mal exalam e se levantam; pelas ‘chaves dos céus’ é significada a introdução no céus para todos os que estão no veros do bem do Senhor; ‘tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus’ significa que o céu é aberto pelo Senhor para aqueles que estão nos veros do bem por Ele, e fechado para os que não estão. Essas coisas foram ditas a Pedro, mas, como por ‘Pedro’ se entende o vero do bem que vem do Senhor, essas coisas foram ditas a respeito do Senhor, de Quem vem o bem e, daí, o vero. Por isso é que foram ditas quando Pedro reconheceu o Senhor como o Messias ou Cristo, e como o Filho do Deus vivo. Também, assim que o bem é implantado nos veros no homem, ele é conjungido aos anjos, mas, quando o bem não for implantado nos veros no homem, o céu está fechado para ele, pois, então, em lugar do bem ele tem o mal, e em lugar dos veros há os falsos. Por aí é evidente quão sensualmente pensam aqueles que atribuem essa autoridade a Pedro, quando, todavia, essa autoridade é do Senhor, somente. [5] Que ‘Pedro’ signifique o vero do bem que vem do Senhor, e que isto seja manifesto do céu, vida no opúsculo Do Juízo Final (n. 57). Visto que ‘Pedro’ significava o vero do bem que vem do Senhor e, daí, também a doutrina, e assim representava aqueles que estão nos veros do bem e na doutrina do vero genuíno pelo Senhor, e como esses são os que instruem aos outros e são instruídos pelo Senhor, por isso Pedro falou tantas vezes com o Senhor e também foi instruído pelo Senhor. Ele falou com o Senhor quando o Senhor foi transfigurado, A respeito de fazer três tabernáculos (Mt. 17:1-5; Mc. 9:2-8; Lc. 9:26-36). O Senhor representou, então, a Palavra, que é o Divino Vero, e pelos ‘tabernáculos’ era significado o culto ao Senhor pelo bem do amor e, daí, pelos veros. (Vide acima a respeito da transfiguração do Senhor, n. 594, e a respeito da significação dos ‘tabernáculos’, n. 799). Ele falou a respeito do Senhor Que Ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Jo. 6:67-69). Foi instruído pelo Senhor A respeito da caridade, que um irmão deve ser perdoado quantas vezes tiver pecado (Mt. 18:21, 22), A respeito da regeneração, que é significada pelo fato de aquele que foi uma vez limpo não precisa ser levado senão quanto aos pés (Jo. 13:10); A respeito do poder do vero do bem oriundo do Senhor, que se entende pelo poder daqueles que têm a fé de Deus (Mc. 11:21, 23, 24); A respeito dos pecados, que são perdoados àqueles que estão na fé do amor (Lc. 7:40-48); A respeito dos homens que são espirituais, que esses são livres, e que os naturais são servos. Pedro era instruído a respeito disso quando tomou da boca do peixe o estáter e o deu por tributo (porque pelo ‘peixe’ é significado o homem natural, semelhantemente pelo ‘tributário’) (Mt. 17:24, 27); além de muitas outras coisas (a cujo respeito se vê em Mt. 14:26-31; 19:27, 28; Mc. 10:28, seq.; 13:3, seq.; 16:7; Lc. 22:8, seq.; 24:12, 33, 34; Jo. 18:10, 11; 20:3-8; 21:1-11). [6] Como aqueles que estão nos veros do bem do amor ao Senhor, ou na doutrina destes, eram representados por Pedro, e são esses que devem instruir aos outros, por isso o Senhor lhe disse, quando respondeu que O amava, que ‘apascentasse Seus cordeiros e ovelhas’, de que assim se lê em João: “Após... cerarem, Jesus diz a Simão Pedro: Simão Jonas, amas-Me mais do que estes? Disse-Lhe: Sim, Senhor, Tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os Meus cordeiros. De novo lhe disse: ... Simão Jonas, amas-Me? Disse-Lhe: Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo. Disse-lhe: Apascenta Minhas ovelhas. Disse-lhe terceira vez: Simão Jonas, amas-Me? Pedro se entristeceu, por lhe ter dito terceira vez, amas-Me?, pelo que Lhe disse: Senhor, Tu conheces todas as coisas, Tu conheces que Te amo. Disse-lhe Jesus: apascenta Minhas ovelhas” (Jo. 21:15-17). Por aí é se vê claramente que Pedro representou o vero do bem do amor ao Senhor, e por isso também era então chamado ‘Simão Jonas’, pois ‘Simão Jonas’ significa a fé da caridade; por ‘Simão’, a audição e a obediência, e por ‘Jonas’, a pomba, pela qual é significada a caridade. Que aqueles que estão na doutrina do vero oriundo do amor ao Senhor devam instruir os que serão da igreja do Senhor entende-se pela interrogação do Senhor, ‘Amas-Me’ e, depois, por ‘Apascenta Meus cordeiros’ e ‘Minhas ovelhas’. Não que Pedro somente havia de instruir, mas todos aqueles que são representados por Pedro, que são, como foi dito, os que estão no amor ao Senhor e, daí, estão nos veros pelo Senhor. Pedro ser interrogado três vezes significava a plenitude do tempo, desde o princípio da igreja até o seu fim, pois ‘três’ significa isso. Por isso, quando foi interrogado terceira vez, se diz que ‘Pedro se entristeceu’. [7] E visto que a terceira interrogação significava o fim da igreja, por isso se seguem então estas palavras do Senhor a Pedro, em João: “Amém, amém, te digo: quando foste jovem, cingias-te a ti mesmo e andavas onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará aonde não queres;... e, quando disse isto, disse a ele: Segue-Me. Voltando-se, porém, Pedro, vê que seguia o discípulo a quem Jesus amava, o qual também se reclinava na ceia sobre o Seu peito...; Pedro, vendo-o, disse a Jesus: Senhor, mas este, o que [será]? Disse-lhe Jesus: Se quero que ele permaneça até que eu venha, que importa a ti? Tu, segue-Me. Saiu, pois, essa palavra entre os irmãos, que aquele discípulo não morreria, mas Jesus não disse que ele não morreria, mas, se quero que ele permaneça até que eu venha, que importa a ti?” (Jo. 21:18-23). Ninguém pode saber o que todas essas palavras significam a menos que saiba que por ‘Pedro’ é significada a fé da caridade e, também, a fé sem a caridade. A fé da caridade na igreja quando começa, e a fé sem a caridade quando a igreja acaba. Assim, por ‘Pedro, quando foi jovem’ é significada a fé da igreja começando, e por ele ‘quando se tornou velho’ a fé da igreja acabando; e por ‘cingir-se e andar’ é significado aprender os veros e viver segundo os veros. Daí é evidente que por ‘digo-te, quando foste jovem, cingias-te a ti mesmo e andavas onde querias’ é significado que a igreja em seu início será ensinada nos veros que vêm do bem e, por eles, será conduzida pelo Senhor; e por ‘quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres’ é significado que a igreja em seu fim não saberá os veros, mas os falsos, que são da fé sem a caridade, e por estes será conduzida; ‘ cingir-se’ significa ser instruído nos veros, do mesmo modo que ‘vestir-se’, porque as ‘vestes’ significam os veros que revestem o bem (vide acima, n. 195, 395 e 637), e ‘andar’ significa viver segundo os veros (vide também acima, n. 97). Daí, ‘cingir-se a si mesmo e andar onde quer’ significa considerar livremente e ver os veros, e praticá-los; mas ‘estender as mãos’ significa não estar nesse livre, pois as ‘mãos’ significam o poder do vero por seu entendimento e percepção, e ‘estender as mãos’ significa não ter esse poder, assim, não ter tampouco o livre de pensar e de ver o vero; ‘outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres’ significa reconhecer como veros as coisas que outro dita e ele mesmo não vê, como acontece hoje com a religiosidade da fé só. Esta fé, agora, se entende por ‘Pedro’, pelo que foi dito que ‘voltando-se Pedro, viu que seguia o discípulo a quem Jesus amava’, e ‘disse a respeito dele: Mas este, que será?’, e, então, Jesus ter dito a Pedro: ‘Que importa a ti?’ Pelo ‘discípulo que seguia Jesus’ eram significados os bens da vida, que são as boas obras; que esses não haviam de perecer até o fim da vida é o que se descreve pela sequência ali. [8] Por aí se pode ver que ‘Pedro’ significa também a fé separada da caridade, como, por exemplo, quando Pedro negou três vezes o Senhor (Mt. 26:69-75; Mc. 14:29-31, 54, 66-72; Lc. 22:33, 34, 50, 51, 55-62; Jo. 13:36-38; 18:16-18, 25-27). Também quando o Senhor, voltando-Se para Pedro, disse-lhe: “Vai para trás de Mim, Satanás; és escândalo para Mim, porque não conheces as coisas que são de Deus, mas as que são dos homens” (Mt. 16:21-23); E quando o Senhor lhe disse: “Simão, Simão! Eis que Satanás vos pediu, para vos peneirar como trigo” (Lc. 22:31). Todas essas passagens foram aduzidas para que se saiba que ‘Pedro’, no sentido representativos no Evangelhos, significa o vero do bem que vem do Senhor, então, a fé da caridade; e, também, no sentido oposto, o vero separado do bem, que em si é o falso, e, então, a fé separada da caridade, que em si não é fé.