. [Vers. 14] “E seduzir os que habitam sobre a terra, por causa dos sinais que lhe foram dados fazer diante da besta”. Que isto signifique a persuasão daqueles que estão na igreja de que são veros por meio e testificações da Palavra conjuntas aos raciocínios do homem natural vê-se pela significação de ‘seduzir’, que é persuadir dos falsos, pois a persuasão do falso é sedução; pela significação de ‘os que habitam sobre a terra’, que são os que são da igreja (como acima, n. 821); pela significação de ‘sinais’, que são as testificações e, daí, persuasões (como logo acima, n. 824), aqui, as testificações pelo sentido da letra da Palavra; e pela significação da ‘besta’ – diante da qual fez esses sinais – que são os raciocínios pelo homem natural (de que se tratou acima, n. 774). Que pelos ‘sinais’ feitos por essa besta diante daquela outra sejam significadas as testificações pelo sentido da letra da Palavra conjuntas aos raciocínios pelo homem natural é porque pela ‘besta’ que fez os sinais são significadas as confirmações pelo sentido da letra da Palavra, e pela ‘besta’ diante da qual os sinais foram feitos são significados os raciocínios pelo homem natural. Aqui, por conseguinte, é significada a conjunção das confirmações pela Palavra com esses raciocínios, e como são conjuntos, tornam-se então testificações e persuasões, pois os raciocínios do homem natural nas coisas espirituais diante do mundo não têm força, mas, quando os mesmos são confirmados pela Palavra, têm força. A razão disso é que a Palavra é Divina e consiste, no sentido da letra, de aparências do vero e de correspondências, nas quais os veros genuínos que se acham interiormente encerrados não podem ser vistos senão por um iluminado. Por um não iluminado, porém, as aparências de vero podem ser arrastadas para confirmar falsos como se fossem veros, pois as falácias reinam no que não é iluminado e os raciocínios procedem das falácias. O iluminado, porém, vê pela luz espiritual e espiritual ao mesmo tempo, e a luz natural nele é iluminada pela espiritual, enquanto o não iluminado vê somente pela luz natural separada da espiritual, luz essa que, nas coisas espirituais, não é luz, mas escuridão. Após as confirmações do falso, essa escuridão pode mesmo aparecer como a luz do vero, mas é como a luz nos infernos, que, diante dos que ali estão, aparece como luz, mas tão logo entra a luz do céu, a luz ali se muda em mera escuridão, e o pensamento deles se entorpece. Nos infernos em que se acham aqueles que se persuadiram mais interiormente de falsos, pelo talento de pensarem mais interiormente do que os outros, [os espíritos] estão numa luz de fantasia, luz essa que brilha até um ponto, mas essa luz se torna uma escuridão ainda mais negra pelo influxo dos raios da luz do céu. Essa luz é a luz da confirmação do falso pelo sentido da letra da Palavra por meio de raciocínios das falácias do homem natural. Daí é evidente que a luz da confirmação do falso até a destruição do Divino Vero, que está no céu, é uma luz infernal. [2] Visto que nos artigos precedentes tratou-se das boas obras, desejo aqui continuar o tema e mostrar o que é o amor ao Senhor. No terceiro ou íntimo céu se acham todos os que estão no amor ao Senhor pelo Senhor, e eles são tais que os veros puderam ser como que gravados em suas vidas e não na memória, como os anjos dos céus inferiores. Esta também é a razão pela qual os que estão no terceiro céu nunca falam dos veros, mas somente ouvem os outros falando deles e respondem ou que isto é assim, ou que aquilo é assim ou não é assim, pois veem em si mesmos se as coisas que ouvem são ou não verdadeiras, e veem isto não por alguma visão no pensamento, como os outros, mas pela afeição do vero no entendimento, porque todos os veros com eles foram gravados nas afeições desses anjos, as quais tiram sua essência do amor celeste, que é o amor ao Senhor. Assim, os veros com eles fazem um com as suas afeições. Além disso, como esses anjos estão no amor ao Senhor pelo Senhor, a vida interior deles consiste de meras afeições do bem e do vero desse amor; daí é que não falam dos veros, mas praticam os veros, assim, as boas obras, porque as afeições do bem e do ver, que provêm desse amor, só podem existir no ato, e, quando existem, chamam-se usos e se entendem pelas boas obras. Eles também percebem em si mesmos a qualidade dos usos ou das obras oriundas da afeição de que procedem, como também as suas diferenças pela conjunção de muitas afeições. Assim, fazem todas as coisas com uma sabedoria interior. E visto que eles não pensam nos veros e, assim, não falam deles, mas somente os praticam - e isto vem do amor deles ao Senhor e, assim, unicamente das afeições de que a vida deles consiste – é evidente que o amor ao Senhor consiste em praticar os veros pela afeição a eles, e que os seus feitos são boas obras e, por conseguinte, que amar o Senhor é praticar, o que também se entende pelas palavras do Senhor em João: “Quem tem os Meus preceitos, e os pratica, esse é o que Me ama... quem, porém, não Me ama não guarda as Minhas palavras” (Jo. 14:21, 24), e entendem-se também por estas palavras em Jeremias: “Porei a Minha lei no meio deles, e sobre o coração deles a ecreverei; ...nem ensinarão... cada um a seu companheiro, ou cada um a seu irmão... Reconhecei Jehovah, porque todos Me conhecerão, de o menor deles até o maior deles” (Jr. 31:33, 34); pela ‘lei’ se entendem todas as coisas da Palavra, assim todos os veros e bens do céu; ‘no meio deles’ significa na vida deles, e o ‘coração’, sobre o qual a lei será escrita, significa o amor. Daí é evidente quão ampla é a doutrina do amor ao Senhor, pois é a doutrina de todas as afeições que pertencem ao amor, e cada uma das afeições tem inscrita em si os veros segundo a qualidade de sua perfeição, e os produz no ato com variedade infinita; e essas afeições não entram no pensamento sob a forma de ideias, mas na percepção sensitiva interior, sob a forma de prazeres da vontade; por isso elas não podem ser descritas por palavras. Tornam-se anjos do terceiro céu aqueles haurem da Palavra as leis da vida, vivem segundo elas e adoram o Senhor.