. Visto que se tratou do amor celeste e do amor espiritual, segue-se que agora se dirá alguma coisa a respeito do amor natural, no qual estão os anjos do primeiro céu, ou o céu mais externo. Esse é o amor que é propriamente chamado caridade para com o próximo. Esses anjos, por serem quase semelhantes aos homens no mundo quanto ao entendimento, e por serem naturais, não têm entendimento elevado – senão um pouco – acima do [que foi] seu no mundo. Por isso não veem os veros na luz, como os anjos do segundo céu, mas recebem, reconhecem e creem nos veros pela doutrina, na qual foram instruídos antes de serem introduzidos no céu. Daí é que somente os mais inteligentes dentre eles sabem o que é a caridade para com o próximo. Os mais simples ali creem que cada homem é o próximo, e que a caridade é prestar auxílio aos indigentes e fazer bem aos pobres, aos estrangeiros, e assim por diante. Eles consideram principalmente as pessoas e às suas falas, e não aos interiores dos quais procedem. A razão disso é que eles são naturais, e o homem natural não prensa abstratamente das coisas que vê com os olhos senão na proporção que admitem em seu lume natural a luz do céu. São, todavia, instruídos ali de que pelo ‘próximo’, na Palavra, não se entende o homem somente quanto à pessoa, mas quanto à qualidade nele que faz com que seja tal ou tal homem; que a qualidade do homem vem de seu entendimento e sua vontade; que a qualidade do entendimento vem dos veros, a qualidade da vontade, dos bens, e a qualidade de ambos, tanto do entendimento quanto da vontade, de seu amor. Daí se sabe que, como cada homem é o próximo, assim cada homem é próximo por sua qualidade; e, assim, que a qualidade do homem, pela qual ele é homem, se entende no sentido espiritual pelo ‘próximo’. De outro modo tanto o mau quanto o bom seriam igualmente o próximo, e, no entanto, fazer bem ao mal é, às vezes, fazer mal aos bons. Que seja assim, qualquer pode ver pelo lume natural. Escolhe para ti um ajudante ou um criado, dentre alguns vizinhos, e põe dez diante dos olhos, dos quais há de eleger um. Acaso escolherás alguém pela face? Não o faria pela qualidade que amas, que o sincero, o modesto, o pio, o probo? Estas coisas tu consideras quando os examina. É semelhante em relação ao próximo, que é a qualidade do homem que deve ser amada. Daí se seque que o próximo no sentido espiritual é, no homem, aquilo pelo qual o homem é tal ou tal.
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