. “E o seu número é seiscentos e sessenta e seis.” Que isto signifique que, não obstante, sua qualidade provém de todos os falsos e, daí, de todos os males em conjunto vê-se pela significação de ‘número’ que é a qualidade da fé separada da vida; e pela significação de ‘seiscentos e sessenta e seis’, que são todos os falsos e, daí, todos os males em conjunto. Que esse número signifique tais coisas é porque ‘seis’ significa todas as coisas e se atribui aos veros e, daí, aos bens, e, no sentido oposto, aos falsos e, daí, aos males, pois esse número é composto dos números 2 e 3 multiplicados por si, e o número ‘dois’ se atribui aos bens e, no sentido oposto, aos males, e o número ‘três’ se atribui aos veros e, no sentido oposto aos falsos, e um número composto significa o mesmo que os números simples de que se compõe. Daí é, pois, que ‘seis’ significa todos os veros e, daí, todos os bens em conjunto e, no sentido oposto, todos os falsos e, daí, todos os males em conjunto. Para que sejam significadas todas essas coisas até à plenitude, esse número é triplicado e da triplicação resulta seiscentos e sessenta e seis, pois o ‘triplicado’ significa inteiramente e plenamente, do princípio ao fim; aqui, pois, que nada absolutamente resta do vero e do bem. [2] Que por todo número na Palavra seja significada algo da coisa ou o estado, e que a sua qualidade seja determinada pelos números que são apostos, vide acima (n. 203, 429, 574 e 841). Que os números maiores e agregados signifiquem o mesmo que os menores e simples, dos quais resultam por multiplicação, [vê-se acima] (n. 430). Assim, o número ‘seiscentos e sessenta e seis significa o mesmo que ‘seis’, e ‘seis o mesmo que ‘três’ e ‘dois’, dos quais resulta por multiplicação. Que ‘três’ signifique o que é pleno, completo, inteiramente e todas as coisas, do princípio ao fim, e se diga dos veros e dos falsos, [vê-se] acima (n. 532); e que ‘dois’ se diga semelhantemente dos bens e dos males, n. 532, ao fim. Por ‘seis’ também é significado o mesmo que por ‘doze’, porque doze resulta da multiplicação de 3 por 3, e ‘quatro’, semelhantemente a ‘dois’, se atribui aos bens e, também, aos males. Por aí se vê agora que pelo número ‘seiscentos e sessenta e seis’, número que se diz ser ‘de homem’, e que calcular se diz ser ‘de inteligência’, é significada a qualidade da fé separada das boas obras, que é de todos os falsos e, daí, de todos os males em conjunto. Que se diga ‘ser de inteligência calcular esse número’ não significa ser inteligência saber ou achar a significa desse número, mas ser inteligência investigar e ver os falsos e males que fazem a qualidade da fé separada da vida. [3] Que a qualidade dessa fé seja assim quanto aos falsos ver-se-á logo na sequência. Que também seja assim quanto aos males é porque, quando as boas obras são removidas – e elas são removidas quando se crê que em nada justifiquem ou salvem – segue-se que em lugar delas há as más obras, pois o homem deve estar ou nos bens ou nos males; não pode estar em ume outro ao mesmo tempo, o que se entende por estas palavras do Senhor: “Ninguém pode servir a dois senhores; ... ou terá ódio a um e amará o outro;... não podeis servir a Deus e a Mamona7 (Mt. 6:24). Daí é que pela fé que remove as boas obras, que são os bens da vida, seguem-se todos os males em conjunto. Além disso, toda religião tem por fim a vida, porque ensina os males de que se deve fugir e os bens que devem ser feitos. Uma religião que não tem a vida por fim não pode ser chamada religião; consequentemente, onde se ensina que as obras da vida nada fazem, mas somente a fé, e onde se ensina isto, porventura não permissíveis todos os males da vida, na medida que as leis civis não proíbam e inibam? Pois a fé, só, [as] encobre, desculpa e arrebata. Que isto seja assim pode-se ver pelo fato de dizer que a fé, só, justifica a vida, e, todavia, se ensina que o homem não é salvo por algum bem da vida, e também que é salvo por essa fé até na última hora da morte, e também que ele é justificado no mesmo momento que recebe essa fé, além de muitas coisas semelhantes que persuadem inteiramente que a vida não é o fim dessa religião; e se a religião não tem por fim a vida, segue-se que ela solta os freios a males de todo gênero. [4] Que aqueles que estão nessa fé tanto na doutrina quanto na vida tenham todos os falsos em conjunto pode-se ver pelo fato de que a fé, só, justificante ou salvífica é esta fé: que o Pai enviou o Filho para que ele reconciliasse a Si o gênero humano pela paixão da cruz e, assim, pela anulação da condenação. Mas, qual é essa fé, e o que há nela de vero ou não de vero, é o que foi exposto acima. E cada um pode ver que nessa fé nada há senão um pensamento, e nada de vida, pois se diz que, se crermos nisso com certeza e confiança, isto é, se reconhecemos com o pensamento, seremos salvos. Se a salvação está nessa fé só, que necessidade há, pois, de saber o que é o amor ao Senhor, o que é a caridade para com o próximo, o que é a vida do homem e os bens e males da vida, o que é a remissão de pecados, o que é a reforma e regeneração? Não são todas essas coisas essa fé só? Se se perguntar o que é a remissão de pecados, não é essa fé só? Se se perguntar o que é a caridade para com o próximo, não é essa fé só? Se se perguntar o que é a igreja, não é essa fé só? E assim no restante. [5] Daí é evidente que essa fé, só, absorveu e, como um dragão, engoliu todos os veros e bens da Palavra e, assim, da igreja, os quais são, todavia, inumeráveis e pelos quais os anjos têm toda inteligência e sabedoria, e pelas quais todo homem tem salvação. Visto que por essa fé eles baniram todos os veros e bens da igreja, segue-se que em lugar deles há falsos e, daí, males, consequentemente, uma igreja devastada. De fato, também, por este vero, que o homem não pode por si fazer o bem que é bem, são rejeitados todos os veros e bens da igreja, como se ao homem fosse permitido desistir de fazê-los, porque, se não são bens, são antes condenáveis do que salvíficos. E é admirável que, por um vero mal compreendido, todos os veros e bens da igreja em todo o conjunto sejam rejeitados. Estas são as coisas que são significadas no sentido espiritual pelo ‘número da besta, seiscentos e sessenta e seis’. * * * * * * *