. “E será atormentado no fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro”. Que isto signifique que o inferno deles procede do amor do mal e do falso, medonho segundo a falsificação e, daí, a rejeição do Divino Vero e do Divino Bem, assim, da Palavra, vê-se pela significação de ‘ser atormentado’, que é o inferno, pois assim como se diz ‘céu’ e se entende o regozijo ali, quando se diz ‘inferno’ entende-se o tormento ali, e vice versa, principalmente ‘ser atormentado no fogo e enxofre’; pela significação de ‘fogo’, que é o amor em ambos os sentidos, a saber, o amor ao Senhor e o amor para com o próximo, que são os amores que reinam no céu, e, no sentido oposto, o amor de si e do mundo, que são os amores que reinam no inferno (de que se tratou acima, n. 504); e como todos os bens nascem do amor ao Senhor e do amor para com o próximo, assim, pelo ‘fogo’ é significado o amor de todos os bens, e, no sentido oposto, o amor de todos os males; pela significação de ‘enxofre’, que é o amor do falso do mal, propriamente a concupiscência de destruir os veros do bem da igreja pelos falsos do mal (de que se tratou no n. 578); pela significação de ‘santos anjos’, que são os Divinos veros procedentes do Senhor (de que se tratou acima, n. 130, 200, 302 e 800); e pela significação de ‘Cordeiro’, que é o Divino Humano do Senhor, aqui, o Divino procedente do Senhor, que é o Divino Bem unido ao Divino Vero nos céus; aqui, pois, é o Divino Bem, porque se diz juntamente a ‘santos anjos’, pelos quais são significados os Divinos veros procedentes do Senhor. [2] Que ‘ser atormentado diante dos santos anjos e diante do Cordeiro’ signifique o caráter medonho do inferno segundo a falsificação e, daí, a destruição do Divino Vero e do Divino Bem é porque o caráter medonho do inferno e o tormento ali é absolutamente segundo a falsificação, porque quanto mais o homem falsifica a Palavra, mais fecha para si o céu, e, então, quanto mais destrói os Divinos veros interiores – que são os Divinos veros nos céus e dos quais vêm os céus – mais ele é removido dos céu e lançado abaixo no inferno. Que isto seja ‘ser atormentado diante dos anjos e diante do Cordeiro’ é porque a Palavra na letra comunica-se com o céu, pelo sentido espiritual; por isso, quanto mais ela é destruída pela falsificação, mais o falsificador é rejeitado do céu, e quanto mais alguém é rejeitado do céu, mais é atormentado. Que este seja o sentido espiritual dessas palavras pode-se ver pelo fato de que ninguém é atormentado no inferno pelos anjos e pelo Senhor, assim, tampouco diante dos anjos e diante do Senhor, mas por si mesmo, pela falsificação e, daí, pela destruição do Divino Vero, o qual é significado pelos ‘santos anjos’, e do Divino Bem, o qual é significado pelo ‘Cordeiro’. [3] Quão danoso e, daí, quão infernal é falsificar a Palavra até a destruição do Divino Vero e do Divino Bem nos céus pode-se ver pelo fato de que todas as coisas do sentido da letra da Palavra, que são os Divinos veros para o homem natural, comunicam-se com os anjos do céu, a ponto de os homens serem conjuntos aos anjos do céu pela Palavra. Por isso o sentido da letra da Palavra, no homem que o falsifica, é percebido de modo dúplice no céu, a saber, como vero genuíno e, ao mesmo tempo, como esse vero destruído. Como vero genuíno pelo sentido da letra segundo as correspondências, e como destruído segundo as falsificações. Daí acontece que o vero e o falso se apresentam ao mesmo tempo como conjuntos, pelo que os anjos do céu se confundem [???] e se afastam completamente. Assim o céu é fechado e toda comunicação do céu com aquele homem perece. Daí a conjunção para ele se faz com o inferno, e quanto mais alguém é conjunto ao inferno, mais está no amor de todo mal e, daí, do falso, e por isso na concupiscência de destruir os veros e bens da igreja, e então, ao mesmo tempo, no tormento. É isto, pois, que é significado por ‘ser atormentado no fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro’. [4] Isto acontece principalmente naqueles que pensam pela fé, só, e ao mesmo tempo vivem pela fé só, isto é, os que confirmam essa fé em si mesmos na doutrina e na vida, como fazem principalmente os que muito se dedicaram em confirma essa fé por escritos e pregações. Esses não podem deixar de falsificar a Palavra até a destruição de seu vero genuíno, pois a Palavra em todo o seu conjunto considera a vida do homem, por conseguinte, as obras, porque o Senhor diz que a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos, a saber, que se ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. A ‘Lei’ e os ‘Profetas’ significam a Palavra em todo o conjunto, e ‘amar a Deus e ao próximo’ é cumprir os preceitos; por conseguinte, são as obras (vide acima, n. 826). Essas, a saber, as obras, os defensores da fé separada excluem, e, daí, rejeitam todas as coisas essenciais da Palavra quando a leem. E quando as coisas essenciais da Palavra são rejeitadas as demais coisas são escórias, absolutamente como quando a vida animal é tirada e o corpo apodrece, pois o amor, que é o mesmo que os feitos, é a sua vida. Ouvi uns espíritos que, quando viveram como homens no mundo, tinham abraçado a fé só, falando da Palavra, na qual há os Divinos veros em abundância, dizendo: “O que são para mim as cognições do bem e do vero? Que importa saber alguma coisa da regeneração, da remissão dos pecados, do livre arbítrio, da providência, do amo e da caridade, das boas obras e das demais coisas, quando unicamente salvam a certeza e a confiança somente dessa fé, que o Senhor morreu por nossos pecados, e quando todas as coisas da Palavra devem ser explicadas para confirmar isso, e podem ser explicadas? Porque todas as coisas que aí se dizem do amor, das boas obras e do fazer estão incluídas nessa fé, e são como tesouros ocultos sob a terra.” É evidente que tais pessoas não podem deixar de falsificar todos os veros e bens da Palavra quando a leem e pensam de seu sentido interior diferentemente do que pensam, e aplicam isto à fé somente. [???]