AE 893

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. [Vers. 12] “Aqui está a paciência dos santos.” Que isto signifique as persecuções e as tentações daqueles que não estão nessa fé, mas na caridade, vê-se pela significação de ‘paciência’, que são as tentações (de que se tratou acima, n. 813); que elas também sejam persecuções, ver-se-á abaixo; e pela significação de ‘santos’, que são aqueles que estão nos veros do bem (de que se tratou no n. 204), portanto, os que estão na caridade, pois esses estão nos veros do bem. Esses estão também na fé, mas sabem que a caridade e a fé agem como um só, tal como o bem e o vero, ou como a vontade e o entendimento, ou como a afeição e o pensamento. E como agem como um, a fé para eles também é a caridade, pois tudo o que da caridade vem ao pensamento, como é da caridade, é caridade quanto à essência, embora quanto à existência ela seja chamada fé, porque nada pode existir no pensamento se não proceder de alguma afeição e, assim, é da afeição, pois esta é como o ser e, por conseguinte, é a vida e a alma do pensamento. Dá-se o mesmo com a caridade e a fé. Segue-se daí que a fé não é possível senão pela caridade, e que a fé é absolutamente tal qual é a caridade (todavia, a respeito disso se veem muitas coisas em outras passagens).
[2] No que concerne às persecuções daqueles que estão na caridade por parte daqueles que estão na fé separada da caridade, hoje em dia não há persecuções tais em que as pessoas sejam banidas e rejeitadas das assembleias do mundo cristão, mas insultadas [blasphementur] e condenadas por aqueles que estão na fé só, porquanto ninguém pode ser banido e rejeitado, em qualquer reino que seja, se vive no bem e diz que se devem viver no bem para ser salvo. A razão é que isto concorda inteiramente com a Palavra e porque qualquer vê, pelo lume racional, que se deve viver no bem; não obstante, eles são condenados por aqueles que estão na fé, só, como se não pudessem ser salvos, por causa do mérito nas boas obras e por causa das obras por si, que não são boas, além de outras coisas pelas quais confirmam a justificação e a salvação pela fé só. Isto é mais claramente evidente naqueles que são da assembleia moraviana, que são defensores da fé separada mais do que os outros; esses condenam tanto aqueles que na sua vida da religião pensam que se deve fazer os bens, que eles os chamam de não vivos, mas plenamente mortos e todos rejeitadas do céu. Os que não são daquela assembleia, nas igrejas onde as obras foram rejeitadas como meios de salvação, não insultam tanto, mas, no entanto, pensam erroneamente a respeito deles. Assim fazem principalmente aqueles que de muitos modos se confirmaram na justificação pela fé só, ou pelos escritos ou pelas pregações, ou pelos raciocínios. São essas persecuções que se entendem pela ‘paciência’, aqui e também no capítulo 12 do Apocalipse, pelo fato de
O dragão ter parado diante da mulher que estava para parir, para devorar o feto depois que ela parisse, e que depois perseguiu a mulher, e após ela lançou de sua boca água como um rio, para que fosse tragada pelo rio; e pelo fato de o dragão, irado contra a mulher, ter ido fazer guerra aos restantes de sua semente, os que observam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo (Ap. 12:4, 15, 17),
semelhantemente ás coisas que se dizem das ‘bestas’ (Ap. 13:5-7, 15).
Que eles também sofram persecuções por causa do reconhecimento e da confissão do Divino Humano do Senhor ver-se-á na sequência.
[3] No que concerne, porém, às tentações, que aqui se entendem também pela ‘paciência’, são as tentações espirituais que sofrem aqueles que recebem do Senhor a caridade genuína, porque devem lutar contra os males que cada homem tem por nascimento e, alguns, contra os falsos que desde a meninice receberam dos mestres e dos pregadores, a respeito da fé só. Esses falsos e males são removidos por meio de lutas de tentações. Isto é o que se entende pela ‘cruz’ nas seguintes passagens:
Jesus disse: “Qualquer que não toma a sua cruz e [não] segue após Mim não é digno de Mim” (Mt. 10:38; Lc. 14:27).
Jesus disse aos Seus discípulos: “Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesma, tome a sua cruz, e siga-Me” (Mt. 16:24; Mc. 8:34; Lc. 9:23).
Nessas passagens, pela ‘cruz’ se entendem as tentações, e por ‘seguir o Senhor’ se entende reconhecer o Seu Divino e cumprir os Seus preceitos. Que isto se entenda por ‘seguir o Senhor’ vê-se acima (n. 864). Que pela ‘cruz’ se entendam as tentações é porque os males e os falsos daí, que se aderiram ao homem por nascimento, infestam e atormentam aqueles que são naturais, quando se tornam espirituais. E como esses males e os falsos daí, que infestam e atormentam13, não podem ser dissipados senão por meio de tentações, por isso eles são significados pela ‘cruz’. Por esse motivo o Senhor diz que ‘deviam negar a si mesmos e tomar a sua cruz’, isto é, deviam rejeitar o proprium; a ‘sua cruz’ é o proprium do homem, contra o qual ele deve lutar.
[4] E, em outra passagem,
Jesus disse ao rico, que O indagara o que devia fazer para herdar a vida eterna. Disse-lhe Jesus: “Conheces os preceitos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não serás falsa testemunha, não defraudarás, honra teu pai e tua mãe; ele... respondendo, disse... Todas essas coisas observei desde a minha juventude. ... Jesus olhou para ele e o amou; disse-lhe, todavia: Uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens, e dá aos pobres; assim terás um tesouro nos céus; mas segue-Me, tomando a cruz” (Mc. 10:17-21).
Também aqui, por ‘seguir o Senhor’ e ‘tomar a cruz’ são significadas as mesmas coisas que acima, a saber, reconhecer o Divino do Senhor e o Senhor como Deus do céu e da terra, pois sem esse reconhecimento ninguém pode se abster dos males e fazer o bem senão por si e senão meritório. O bem que é bem em si, e bem não meritório, vem somente do Senhor. Por isso, a menos que o Senhor seja reconhecido, e que todo bem vem d’Ele, ninguém pode ser salvo. No entanto, antes que alguém possa fazer pelo Senhor, deve suportar as tentações. A razão disso é que pelas tentações o homem interno é aberto, pelo qual o homem é conjungido ao céu. Ora, visto que ninguém pode cumprir os preceitos sem o Senhor, por isso o Senhor disse: ‘Uma coisa, todavia, te falta: vende todas as coisas que tens e segue-Me, tomando a cruz’, isto é, que se deve reconhecer o Senhor e suportar as tentações. Que ‘vendesse todas as coisas que tivesse e desse aos pobres’ significa no sentido espiritual que se afastasse do proprium e o rejeitasse; assim, significa o mesmo que acima, que negasse a si mesmo; e por ‘dar aos pobres’, no sentido espiritual, é significado fazer as obras de caridade. Que o Senhor tenha falado assim com ele foi porque era rico, e pelas ‘riquezas’, no sentido espiritual, são significadas as cognições do bem e do vero, e nela, que era judeu, as cognições do mal e do falso, que eram as tradições. Daí se pode ver que aqui o Senhor falou por correspondências, como em outras passagens.
[5] As tentações são também significadas pelo ‘copo’ que eles haviam de beber:
Jesus disse a Tiago e a João: “Não sabeis o que pedis; acaso podeis beber o copo que Eu bebo, e serdes batizados com o batismo com que Eu sou batizado?... Disseram: Podemos. E Jesus lhes disse: O copo que Eu bebo, de fato, bebereis, e [com] o batismo com que Eu sou batizado sereis batizados. Mas sentar-se à Minha direita, e à Minha esquerda, não Me concede dar, mas àquele que foi preparado” (Mt. 10:38-40);
por ‘beber o copo que o Senhor bebeu’ é significado o mesmo que logo acima pela ‘cruz’, a saber, suportar tentações; e pelo ‘batismo com que o Senhor foi batizado’ é significado ser regenerado por meio de tentações. Mas entre o copo que o Senhor bebeu e o copo que eles haviam de beber existe uma diferença tal como entre as tentações do Senhor e as tentações dos homens. As tentações do Senhor foram gravíssimas e contra todos os infernos, pois pelas tentações admitidas em Si o Senhor subjugou todos os infernos, enquanto as tentações dos homens são contra os males e falsos que vêm dos infernos com eles, nas quais é o Senhor quem luta e não o homem, a não ser contra algumas dores. Há semelhante diferença entre o batismo com que o Senhor foi batizado e o batismo com os homens são batizados, tal como entre a glorificação e a regeneração. Pelas tentações o Senhor glorificou o Seu Humano pelo próprio poder, enquanto os homens são regenerados não pelo próprio poder, mas pelo Senhor, pois o ‘batismo’ significa ser regenerado por meio de tentações, e o ‘batismo do Senhor’ significa glorificar Seu Humano por meio de tentações. (Que o ‘batismo’ signifique a regeneração e, também, a tentação, vide na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 187-193 e sequência. E que o Senhor tenha glorificado o Seu Humano e o tenha feito Divino, assim como regenera o homem e o torna espiritual, vide nos Arcanos Celestes, n. 1725, 1729, 1733, 3318, 3381, 3382 e 4286).

[VERSAO IMPRESSA]

Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.