. “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor”. Que isto signifique a ressurreição na vida eterna dos que anteriormente viveram a vida de caridade e a viverão depois vê-se pela significação de ‘mortos no Senhor, que são os que ressurgem na vida eterna (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘mortos’ e ‘dos que desde agora morrem’, que é a ressurreição daqueles que anteriormente viveram a vida de caridade e a vivem depois, pois isto se diz daqueles que ‘guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus’, que são os que vivem segundo os preceitos do Senhor na Palavra e reconhecem o Seu Divino, portanto, os que vivem a vida de caridade pelo Senhor (vide acima, n. 894 e 895). [2] Que se diga ‘desde agora’ é porque se entendem os que viveram essa vida anteriormente e a vivem depois. Os que viveram essa vida anteriormente foram conservados pelo Senhor abaixo dos céus e protegidos da infestação dos infernos até o juízo final; sendo este realizado, eles foram erguidos de seus lugares e elevados ao céu. Se não o foram antes é porque antes do juízo os infernos tinham prevalecido e havia preponderância da parte deles; mas, depois do juízo, os céus prevaleceram e assim havia preponderância de sua parte, porque pelo juízo final todas as coisas, tanto nos infernos quanto nos céus, foram repostas em ordem; por isso, eles tivessem sido elevados antes, não poderiam resistir ao poder em que os infernos estiveram mais do que os céus. Foi-me concedido ver quando eles foram elevados, pois da terra inferior, onde tinham sido conservados pelo Senhor, vi falanges ressurgindo, sendo elevados e transportados às sociedade celestes. Isto aconteceu após esse juízo final de que se tratou no opúsculo Do Juízo Final. O mesmo aconteceu após o primeiro juízo, que foi realizado pelo Senhor quando esteve no mundo, do qual também se trata no mesmo opúsculo. Este arcano é o que se entende pela ressurreição daqueles que anteriormente tinham vivido a vida da caridade. Isto é também o que se entende por estas palavras em João: “Agora é o juízo deste mundo; agora o príncipe deste mundo será lançado fora. Eu, porém, se elevado da terram a todos atrairei a Mim” (Jo. 12:31, 32); e isto foi representado pelo fato de que Muitos dos santos que dormem foram levantados, “e saído de seus túmulos após a ressurreição” do Senhor, “entraram na santa cidade e apareceram a muitos” (Mt. 27:52, 53). Mas, a respeito deste assunto, mais coisas serão ditas na sequência no Apocalipse, onde se tratar da ressurreição ou primeira e segunda morte. [3] Que por ‘bem-aventurados os mortos’ e ‘os que morrem’ também se entendam aqueles que hão de ressuscitar na vida após esta, que são aqueles que vivem a vida de caridade, pode-se ver pelo fato de se dizer ‘desde agora’ e, também, ‘mortos’ e ‘os que morrem’. Por isso, ‘desde agora’ se refere não somente àqueles que são tais após o juízo final, mas também aos que foram tais anteriormente, dos quais se tratou logo acima. Que a ‘morte’ signifique a ressurreição e que, daí, os ‘mortos’ signifiquem os que ressurgem na vida eterna, é porque a ‘morte’ significa o inferno e, daí, os males e falsos, e são essas coisas que devem morrer para que o homem receba a vida espiritual, que é a que se entende na Palavra pela ‘vida’, pela ‘vida eterna’ e pela ‘ressurreição’. Por isso, por ‘morrer’, aqui e em outras passagens na Palavra, se entende a extinção da vida do proprium, que, considerada em si mesma, consiste unicamente de males e dos falsos daí. E visto que, quando essa vida se extingue, em seu lugar entra a vida espiritual, assim, pelo ‘mortos no Senhor’ são significados aqueles que foram feitos espirituais pelo Senhor. [4] Além disso, no sentido espiritual, por ‘morrer’ pode-se entender a ressurreição, porque os anjos, que estão no sentido espiritual, não sabem coisa alguma da morte natural, como a dos homens que falecem, mas sabem a respeito da morte espiritual, que têm aqueles que são regenerados pelo Senhor por meio de tentações, nos quais os males e os falsos daí são domados e entregues à morte. Ademais, a morte natural não é outra coisa senão a ressurreição, porque, quando o corpo morre, o homem ressurge quanto ao seu espírito, e, assim, a morte é somente uma continuação de sua vida, pois o homem, pela morte, passa da vida no mundo natural para a vida no mundo espiritual, com a única diferença de que a vida no mundo natural é a vida exterior e mais imperfeita, enquanto a vida do mundo espiritual é a vida interior e mais perfeita, mas ambas são semelhantes entre si quanto à aparência, como se pode pelas coisas relatadas na obra O Céu e o Inferno, do que foi ouvido e visto. [5] Por aí se pode ver que pela ‘morte’ é significada tanto a morte espiritual, que é a danação, como também a ressurreição na vida, que é a salvação. Que pela ‘morte’ seja significada a danação vide acima (n. 186, 383, 427 e 694); que pela ‘morte’ seja significada a ressurreição na vida eterna e a salvação pode-se ver pelas passagens seguintes. Em João: “Jesus disse: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive [e crê em Mim] não morrerá na eternidade” (Jo. 11:25, 26). “Eu sou a ressurreição e a vida’ significa que a ressurreição e a vida vêm d’Ele e não de outro; ‘quem crê em Mim’ significa quem crê em Seu Divino e Ele como Todo-poderoso e único Deus; e como ninguém pode crer nisto senão aquele que vive a vida de caridade, por isso ela também se entende por ‘crer n’Ele’.; ‘ainda que esteja morto viverá’ significa que embora morra naturalmente, ressurgirá, todavia, na vida; ‘e todo aquele que vive, e crê em Mim, não morrerá na eternidade’ significa que quem foi reformado não morrerá espiritualmente, isto é, não será condenado, mas ressurgirá na vida. Daí é evidente que por ‘morrer’ não se deve entender morrer, mas ressurgir na vida. [6] No mesmo: “Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram; este é o pão que desce do céu, para que quem dele comer, não morra” (Jo. 6:49, 50, 58); pelo ‘maná’ que os filhos de Jacob comeram no deserto se entende quanto a eles, que eram naturais, a comida natural; e pelo ‘pão que desce do céu’ se entende a comida espiritual, que vem do Senhor somente; e como vem d’Ele somente, pelo ‘Pão’ no sentido supremo se entende Ele mesmo, pelo que também diz: ‘Eu sou o Pão da vida’. É, com efeito, o Divino Bem unido ao Divino Vero procedente do Senhor, do qual os anjos e também os homens têm a vida espiritual. Por isso, por essas palavras no sentido espiritual se entende que aqueles que se nutrem apenas naturalmente da Palavra estão mortos, isto é, condenados, como o foram os filhos de Jacob, o que é também significado pelo de fato de todos serem mortos no deserto. Mas os que se nutrem espiritualmente da Palavra não hão de estar sujeito à danação, o que se entende por ‘não morrerão. Daí é evidente que não se entende que não morrerão, mas a ressurreição na vida, porque ‘morte’, se não é morte, é vida. [7] No mesmo: “Se alguém guardar a Minha palavra, não verá a morte na eternidade” (Jo. 8:51, 52); por ‘guardar as palavras do Senhor” é significado viver segundo os preceitos do Senhor; ‘não ver a morte’ significa não {ver} a condenação, mas a vida na qual o homem ressurge e entra pela morte. No mesmo: Jesus disse: “Amém vos digo, que quem ouve a Minha palavra e crê n’Aquele que Me enviou, tem a vida eterna, e não vem a juízo, mas passa da morte para a vida” (Jo. 5:24); por ‘ouvir a palavra do Senhor e crer n’Aquele que O enviou” se entendem as mesmas coisas que acima, pois o Senhor entendia por ‘Pai’ o Divino esteve n’Ele pela concepção, assim, em Si mesmo; ‘não vir a juízo’ significa não ser condenado; ‘passar da morte para a vida’ significa a ressurreição e a vida no céu; ‘da morte’ significa não somente da morte natural para a vida eterna, assim, a ressurreição, mas também da morte espiritual, que é a danação, para a vida eterna, assim também a ressurreição, pois na Palavra existe um sentido natural e um sentido espiritual. [8] No mesmo: Jesus disse: “Assim como o Pai levanta os mortos e vivifica, assim... o Filho vivifica os que {Ele} quer” (Jo. 5:21); por ‘levantar os mortos e vivificar’ se entende não somente a ressurreição para a vida pela morte natural, mas também pela morte espiritual. A ressurreição para a vida se faz por meio de reforma e regeneração, e esta por meio de remoção e separação dos males que condenam o homem, que é a morte espiritual. No mesmo: Jesus disse: “Amém vos digo, que vem a hora... quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que ouvirem, viverão” (Jo. 5:25); pelos ‘mortos’, aqui, são significados os que estão nos males e, daí, nos falsos, mas são libertos deles pela reforma; por essas palavras se entende que eles hão de ser ressuscitados, pois então esses não estão mais mortos, mas vivos, porque são ‘os que ouvem a voz do Filho de Deus’, assim, os que vivem segundo os Seus preceitos. Semelhantemente, em Lucas: Que seria retribuído na ressurreição dos mortos (Lc. 14:14); pela ‘ressurreição dos mortos’ se entende não somente a ressurreição dos que morreram naturalmente, pois esses ressurgem imediatamente após a morte, mas também dos que morrem espiritualmente e são vivificados pelo Senhor. [9] Em João: Jesus disse: “Virá a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz” do Filho de Deus, “e sairão; os que fizeram o bem, para a ressurreição da vida; os que... fizeram os males, para a ressurreição do juízo” (Jo. 5:28, 29); por essas palavras não se entende que os túmulos serão abertos e eles sairão no dia do juízo final, mas pelos ‘túmulos’, que serão abertos, se entendem os lugares na terra inferior onde foram conservados e guardados pelo Senhor aqueles que viveram a vida de caridade e reconheceram o Divino do Senhor, e no dia do juízo final, e após, elevados ao céu, dos quais se tratou acima neste artigo. Aqueles lugares são significados pelos ‘túmulos’ no sentido espiritual. Que não se entenda que os túmulos na terra hão de ser abertos e que deles as pessoas hão de sair no dia do juízo final vê-se claramente pelo fato de que todos os homens vêm ao mundo espiritual imediatamente após a morte, e aí vivem em forma humana semelhante à do mundo natural. Assim, cada tem ressurreição logo após a morte, ressurreição de vida para aqueles que fizeram os bens, e ressurreição de juízo para aqueles que fizeram os males, como se pode ver pelas coisas que foram relatadas na obra O Céu e o Inferno pelo que foi ouvido e visto. [10] Essas coisas foram representadas por Os túmulos terem sido abertos, e muitos corpos dos santos que dormem foram levantados, e, saindo de seu túmulos após a ressurreição do Senhor, entraram na santa cidade e apareceram a muitos (Mt. 27:52, 53). Que então os túmulos tenham sido abertos e que os santos, que tinham morrido anteriormente, tenham saído e, entrando na santa cidade, tenham aparecido a muitos representava a ressurreição daqueles que tinham sido conservados nos lugares sob o céu pelo Senhor até o Seu advento ao mundo, e que, depois da ressurreição d’Ele, foram tirados dali e levados ao céu. Essas coisas também aconteceram e foram vistas pelos que estavam em Jerusalém, mas, não obstante, foram representativas da ressurreição daqueles a cujo respeito foi dito agora e acima; pois assim como todas as coisas da paixão do Senhor eram representativas, e também que o véu no templo foi rasgado em duas partes, que a terra foi abalada e as rochas se fenderam (Mt. 27:51), assim também estas, que eles tenham saído dos túmulos abertos. Por isso também foi dito que ‘entraram na cidade santa e ali apareceram’, pois Sião, que aqui se entende pela ‘cidade santa’, representava ainda o céu, onde o Senhor reina por Seu Divino Vero (a respeito dessa significação de ‘Sião’ vide acima, n. 850). Essa cidade, a mesma que Jerusalém, agora era profana em vez de santa, pelo que também é chamada Egito e Sodoma, no Apocalipse (11:8), mas é chamada ‘santa’ por causa da sua representação e, daí, da sua significação na Palavra. [11] A ressurreição dentre os mortos, tanto no sentido natural quanto no espiritual, foi também representada e, daí, significada pelos mortos que o Senhor ressuscitou, por exemplo, Pela ressuscitação de Lázaro (Jo. 11:11-44); Pela ressuscitação do jovem de Nain (Lc. 7:11-18); E pela ressuscitação da filha do chefe da sinagoga (Mc. 5:21 ao fim). Porque todos os milagres que foram feitos pelo Senhor, assim também todos os milagres que foram descritos na Palavra, envolveram coisas santas do céu e da igreja, e assim as significaram. Assim, esses milagres eram Divinos e se distinguiam dos milagres não Divinos. As mesmas coisas são significadas por Ser concedido aos discípulos ressuscitar os mortos (Mt. 10:8). [12] A regeneração, que também é uma ressurreição dentre os mortos, foi representada pela vivificação dos ossos, em Ezequiel (37:1-14). Que a regeneração seja representada por essa vivificação é claramente evidente pelos versículos 11 a 14 ali, onde se diz: “Esses ossos são toda a casa de Israel;... por isso, profetiza e dize-lhes:... Eis que Eu abrirei os vossos sepulcros... ó povo Meu, e vos conduzirei sobre a terra de Israel, para que conheçais que... porei Meu espírito em vós, para que vivais” (Ez. 37:11-14). Aqui também se diz que ‘os sepulcros seriam abertos’, pelo que também é significada a ressurreição para a vida. (Que ‘sepultar’ e ‘sepultura’ signifiquem a ressurreição e, também, a regeneração, por ser a rejeição das coisas imundas vide acima, n. 659). [13] Que a morte natural, que é a rejeição das coisas imundas do corpo, e a morte espiritual, que é a remoção das coisas imundas do espírito, signifiquem a ressurreição vê-se também pela sequência no Apocalipse, onde se trata da primeira morte e da segunda morte, que também se chamam primeira e segunda ressurreição (Ap. 2:11; 21:8), como também em David: “Preciosa aos olhos de Jehovah é a morte de Seus santos” (Sl. 116:15); que a ‘morte dos santos’ não signifique a danação, mas a separação e a remoção das coisas imundas do seu espírito, assim, a regeneração e a ressurreição, é evidente. Como também em João: Jesus disse: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, ele permanece só; se, porém, morrer, dá muito fruto” (Jo. 12:24). Dá-se o mesmo também com o homem, que deve morrer quanto ao corpo para que ressurja, e quanto ao seu proprium, que em si é infernal; se este e aquele não morrerem, o homem não tem a vida do céu. [14] Como os homens ressurgem após a morte, por isso o Senhor quis sofrer a morte e no terceiro dia ressurgir, mas para que Se despisse de todo o humano que foi de Sua mãe e Se revestisse do Divino Humano, pois o Senhor rejeitou de Si, por meio de tentações, todo o humano que tomou da mãe, e pela investidura do Humano vindo do Divino mesmo, Que estava n’Ele, glorificou-Se, isto é, fez Divino o Seu Humano. Daí é que por Sua ‘morte’ e Seu ‘sepultamento’ não se entende no céu morte e sepultamento, mas a purificação do Seu Humano e a glorificação. Que seja assim, o Senhor ensinou por essa comparação com o trigo que cai na terra, que ‘deve morrer para dar fruto’. Isto também está implícito no que o Senhor disse a Maria Madalena: “Não me toques, pois ainda não subi para Meu Pai” (Jo. 20:17); por ‘subir para o Seu Pai’ entende-se a união de Seu Humano com o Seu Divino, sendo plenamente rejeitado o humano vindo da mãe.