. “Tendo autoridade sobre o fogo”. Que isto signifique assim quanto ao amor celeste e espiritual vê-se pela significação de ‘fogo’, que é o amor em ambos os sentidos, a saber, o amor ao Senhor, que está naqueles que no céu são chamados anjos celestes, e o amor para com o próximo, que está naqueles que no céu são chamados anjos espirituais. E, no sentido oposto, o amor de si, que está naqueles que no inferno são chamados diabos, e o amor do mundo, que está naqueles que são chamados satanás. (Que esses amores sejam significados na Palavra pelo ‘fogo’ vê-se acima, n. 68, 496, 504 e 539). Que a respeito desse anjo se diga que ‘tem autoridade sobre o fogo’ é porque se trata da devastação da igreja quanto ao bem do amor, e a devastação quanto a isso é atribuída a esse anjo, como ao anjo anterior a devastação quanto ao vero da doutrina, o qual, por isso, tinha ‘uma foice afiada na mão’. Daí é evidente o que se entende por se dizer que esse anjo ‘tinha autoridade sobre o fogo’, a saber, que devastará na igreja o amor celeste e espiritual e todas as suas coisas.
[2] Atribui-se ao anjo a devastação da igreja, assim como se atribui ao Senhor em outras passagens na Palavra; mas isto se diz a respeito d’Ele somente no sentido da letra, mas não se entende assim no sentido espiritual, porque a verdade no sentido da letra é como uma face transparecendo por um véu, enquanto a verdade no sentido espiritual é como uma face descoberta; ou, a verdade no sentido da letra é como uma nuvem, enquanto a verdade no sentido espiritual é como a luz e seu esplendor; ou, a verdade no sentido da letra aparece como verdade diante do homem sensual, enquanto a verdade no sentido espiritual é a verdade diante do homem espiritual racional. Por exemplo: na Palavra se diz do sol que ele nasce, movimenta-se, morre e faz os dias e os anos, por conseguinte, inteiramente segundo a aparência diante do homem sensual, enquanto o homem racional pensa num sol imóvel e uma terra movimentando-se; daí é evidente que o entendimento do homem pensa de modo inverso a respeito das coisas que aparecem diante dos sentidos, a fim de que ele as apresente diante de si na luz do vero. Dá-se de modo semelhante em relação às coisas que agora se dizem no apocalipse a respeito d’Aquele que está sentado sobre uma nuvem e a respeito dos anjos, a saber, que ‘eles lançam sua foice à terra e a ceifam’, e que ‘vindimarão os cachos da vinha da terra, e [os] lançam no lagar da ira de Deus’. Semelhantemente, essas coisas são ditas segundo as aparências diante do homem sensual, mas, não obstante, devem ser invertidas e entendidas segundo o sentido espiritual delas.
[3] Por aí também se pode ver que o homem sensual, tal como é a criança e o menino em sua primeira idade, e também o homem simples, pode {possint} pensar e crer nestas e em semelhantes coisas segundo o sentido da letra, como que Deus tira o bem e o vero dos homens por causa da maldade deles. Mas o homem adulto que deseja ser sábio não deve explicá-las desse modo, que Deus faz isso e, assim, que tira do homem todo bem e vero e, em lugar desses, incute o mal e o falso, também devasta a igreja e, tampouco, que ele Se encoleriza e se inflama. Porque, se o adulto que é sábio explicar tais coisas segundo o sentido da letra e as confirmar pelos raciocínios, então destruirá o vero genuíno mesmo como está no céu, e assim fechará o céu para si. Pois quem é que pode entrar no céu com a fé de que Deus se encoleriza, vinga, castiga e coisas semelhantes, quando os anjos do céu estão na percepção de que Deus nunca Se encoleriza, vinga e castiga? Porventura não se desviariam dele e ordenariam que se afastasse, fechando imediatamente a porta após ele? Assim também o céu se fecha para aqueles que, quando vivem no mundo, explicam o sentido da letra da Palavra até a destruição do Divino Vero nos céus, vero esse que é o mesmo que o vero do sentido espiritual, que se encerra em cada um dos veros do sentido natural, os quais constituem o sentido da letra da Palavra.
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