AE 918

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “Dizendo: Lança a tua foice afiada, e vindima os cachos da terra, porque amadureceram as suas uvas”. Que isto signifique que haverá o recolhimento e a separação dos bons de entre os maus, porque não há mais veros da fé, por não haver o bem espiritual, que é a caridade, vê-se pela significação de ‘lançar a foice afiada e vindimar’, que é recolher os bons e separá-los dos maus (de que se tratou acima, n. 911); (o que é significado aqui por ‘vindimar’ é o mesmo que é significado acima por ‘lançar’, mas diz-se ‘vindimar’ porque se trata de cachos e uvas, e ‘lançar’ porque se trata da seara, e por um e outro é significado devastar e dar um fim à igreja, que é significada tanto pela ‘seara’ quanto pela ‘vinha’; e quando a igreja foi devastada e, assim, finda, então acontece o recolhimento dos bons e a separação deles de entre os maus; o que é significado, além disso, por ‘vindimar’, ver-se-á na sequência); pela significação de ‘cachos’, que são os bens e, daí, os veros da fé (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘porque amadureceram as suas uvas’ que é por não haver mais os bens da caridade, portanto, por ser o fim da igreja. Por aí se pode ver que ‘lança a tua foice afiada e vindima os cachos da terra, porque amadureceram as suas uvas’ significa que serão feitos o recolhimento e a separação dos bons de entre os maus, por não haver mais bens e veros da fé, pelo fato de não haver o bem espiritual, que é a caridade.
[2] Que não haja veros da fé por não haver bem da caridade é porque o vero não existe sem o bem, pois o vero tira sua essência ou sua vida do bem; segue-se daí que não há veros nem a fé deles se não houver bem ou caridade. Dir-se-á em poucas palavras o que é a caridade, que é a mesma que o bem espiritual. A caridade ou o bem espiritual é fazer o bem porque é um vero, assim, é fazer o vero; e fazer o vero é fazer as coisas que foram ordenadas pelo Senhor em Sua Palavra; daí é evidente que a caridade é o bem espiritual; e quando o homem faz o bem porque é um vero, ou faz o vero, então a caridade se torna bem moral, que na forma externa é semelhante ao bem que está em todo homem que é homem moral e civil hoje [???]. A diferença, porém, é que o bem moral genuíno é o bem oriundo do bem espiritual, do qual aquele procede, pois o bem espiritual vem do Senhor, enquanto o bem moral vem do homem; por isso, a menos que o bem vindo do homem seja proveniente do Senhor, assim, do Senhor por meio do homem, tal bem não é bem. O fim pelo qual {é feito} declara sua qualidade. O bem moral separado do bem espiritual considera o homem, sua honra, lucro e volúpia como fins pelos quais {é feito}, enquanto o bem moral oriundo do bem espiritual considera o Senhor, o céu e a vida eterna como fim. Estas coisas foram ditas para que se saiba de onde procede que não há vero da fé onde não houver bem da caridade; consequentemente, que onde não há esses dois a igreja está devastada, assunto esse de que se trata aqui e na sequência, no Apocalipse. (Que não haja fé onde não houver caridade vide no opúsculo Do Juízo Final, n. 33-39).
[3] Que ‘cacho’ e ‘uva’ signifiquem o bem da caridade pode-se ver pelas passagens na Palavra onde os mesmos são nomeados, como nas que se seguem. Em Jeremias:
“Consumindo os consumirei... não {haverá} uvas na videira, nem figos na figueira, e a folha a cair; e {os} darei àqueles que passam sobre eles” (Jr. 8:13);
‘não {haver} uvas na videira’ significa que não há o bem espiritual no homem; ‘não {haver} figos na figueira’ significa que não há o bem natural nele; ‘videira’ e ‘figueira’ significam o homem quanto à igreja, assim, a igreja nele. Mas essas palavras se veem explicadas acima (n. 403).
[4] Em Isaías:
“Meu amado teve uma vinha num chifre de filho da oliveira, à qual cercou e tirou-lhe as pedras, e a plantou com uma videira nobre, e edificou uma torre no seu meio; também um lagar escavou nela, e esperou que desse uvas, mas deu uvas bravas” (Is. 5:1, 2, 4);
pela ‘vinha’ que o amado teve é significada a igreja espiritual, que foi instituída com os filhos de Israel; ‘num chifre de filho da oliveira’ significa que houve veros do bem da caridade; ‘à qual cercou e tirou-lhe as pedras’ significa guardada dos falsos e males; ‘plantou-a com videira nobre’ significa que teve veros genuínos; ‘edificou uma torre no seu meio’ significa os interiores em que houve o influxo e pelos quais houve comunicação com o céu; ‘também escavou um lagar nela’ significa a produção do vero oriundo do bem; ‘esperou que desse uvas, mas deu uvas bravas’ significa a esperança de frutificação deles pelo bem da caridade, mas em vão, porque houve iniquidade em lugar do bem.
[5] Em Miquéias:
‘Ai de mim... ; tornei-me como as colheitas do verão, como as respigaduras da vindima; não há cachos para comer; minha alma deseja as primícias [primitivum]; pereceu da terra o santo, e o reto entre os homens; todos espreitam para sangues” (Mq. 7:1,2);
a dor por causa da devastação do bem e, daí, do vero na igreja se entende e é descrita por ‘ai de mim, tornei-me como as colheitas do verão, como as respigaduras da vindima’; que não haja mais o bem espiritual nem o bem natural pelos quais se adora o Senhor é significado pelo fato de ‘não haver cacho para comer, minha alma deseja as primícias’; que não haja mais o vero espiritual nem o vero natural é significado por ‘pereceu o santo, e não {há} reto entre os homens’; que os veros e bens da Palavra e, daí, da igreja, seja destruídos pelos falsos e males é significado por ‘todos armam ciladas para sangues’.
[6] Em Oséias:
“Como uvas no deserto achei Israel, como primícias na figueira no seu início vi vossos pais” (Os. 9:10);
essas palavras se dizem da Igreja Antiga e de sua instauração; essa igreja se entende aqui por ‘Israel’, seu primeiro estado se entende por ‘no deserto’ e ‘no início’, o bem espiritual que há neles pelas ‘uvas’ e o bem daí oriundo no homem natural por ‘primícias na figueira’.
[7] Que por ‘Israel no deserto’ e pelos ‘pais no início’ se entendam aí os homens da Igreja Antiga e não os filhos de Jacob vê-se em Moisés:
“Da videira de Sodoma é a videira deles, e do campo de Gomorra; as uvas deles [são] uvas de fel, os cachos deles de amargor” (Dt. 32:32);
aqui são descritos os filhos de Jacob, tais como foram no deserto; que com eles a religião tenha sido infernal, porque adoraram os deuses e ídolos dos gentios, é significado por ‘da videira de Sodoma é a videira deles, e do campo de Gomorra; que em lugar dos bens da caridade eles tenham tido ódios, e em lugar dos veros os falsos que daí brotam é significado por ‘as uvas deles [são] uvas de fel, os cachos deles de amargor’.
[8] Em Moisés:
“Prende à videira o seu jumentinho, e à videira excelente o filho de sua jumenta; lava no vinho a sua veste, e no sangue das uvas a sua cobertura” (Gn. 49:11);
essas palavras estão na última fala do patriarca Israel a seus filhos; aqui, a Judah, pelo qual se entende no sentido supremo o Senhor quanto à igreja celeste e quanto à Palavra, e pelo ‘sangue das uvas’ é significado o Divino Vero proveniente de Seu Divino Bem, e, num sentido relativo, o bem da caridade. (Mas estas e as demais coisas se veem explicadas nos Arcanos Celestes, n. 6375-6379). Pelo ‘sangue das uvas’, semelhantemente ao ‘vinho’, o vero do bem espiritual é significado também em Deuteronômio 32:14.
[9] Que as ‘uvas’ signifiquem o bem da caridade é porque pela ‘vinha’ é significada a igreja espiritual, e pela ‘videira’ o homem dessa igreja; por isso, pelo ‘cacho’ ou ‘respigos’, e pelas ‘uvas’, que são os frutos, são significados os bens que fazem essa igreja, bens esses que se chamam bens espirituais e, também, bens da caridade; e como todo vero vem do bem, assim como das uvas vem todo vinho, por isso pelo ‘vinho’, na Palavra, é significado o vero do bem (dessa significação do vinho vide acima, n. 220 e 376). Mas pelo ‘cacho’ ou pelos ‘respigos’ são significadas propriamente as variações de estado do bem espiritual ou do bem da caridade, porque neles muitas uvas estão ligadas em série. O que, porém, se entende pelas variações do estado do bem dir-se-á em outra passagem.
[10] Visto que pela terra de Cannan era representada e, daí, significada a igreja, e a igreja é igreja pelo bem espiritual, pois esta é a marca da igreja, por isso
Os exploradores daquela terra trouxeram um cacho de uvas de um tamanho notável, carregado numa verga por dois {homens} (Nm. 13:23, 24).
Este foi um sinal representativo da igreja [significada] pela ‘terra de Canaan’. Que a igreja seja igreja pelo bem da caridade é porque esse bem considerado em si mesmo é o bem da vida oriundo do amor ao Senhor; consequentemente, é o efeito desse amor. Pelo bem da caridade se entende o justo, o sincero e o reto em toda obra e em toda função, pelo amor do justo, do sincero e do reto, amor esse que vem unicamente do Senhor.
[11] Visto que ainda se desconhece o que era representado pelo nazireu, e o que era significado pelo fato de ele se abster de uvas e de vinho, e que fizesse crescer a cabeleira de sua cabeça, isto pode ser desvendado aqui. A respeito da abstinência de uvas e vinho lê-se assim:
“De vinho e de bebida forte abster-se-á; o vinagre de vinho e vinagre de bebida forte não beberá, mesmo toda maceração das uvas não beberá; também uvas frescas ou secas não comerá; todos os duas de seu nazireado, de todo o que se faz de uva de vinho, desde os caroços até a casca, não comerá” (Nm. 6:3, 4).
Esta foi a lei do nazireado, antes que ele cumprisse os dias de seu nazireado, porque então representava o Senhor quanto ao Seu primeiro estado. O Senhor teve um primeiro estado, assim como o tem todo homem, que foi o sensual, porque todo homem é primeiro sensual, depois se torna natural e racional, em seguida espiritual, e finalmente, se for aberto nele o terceiro grau, torna-se celeste, como é um anjo do terceiro céu. O homem sensual é significado pelo ‘cabelo da cabeça’ (vide acima, n, 66 e 555). E como o sensual é o extremo da vida do homem e no extremo reside todo o poder, por isso os nazireus tinham tanta força. Que nos extremos ou últimos resida todo poder, consequentemente, no sentido último da Palavra, que é o sentido da letra, à qual a cabeleira corresponde e a significa, vide acima (n. 346, 417, 567, 666 e 726). Quando era um menino o Senhor teve esse poder, com o qual conquistou e subjugou os infernos mais medonhos, onde todos são sensuais. Esse estado do Senhor era representado pelos dias do cumprimento com os nazireus; sendo completos, o Senhor passou do sensual e do natural para o Divino espiritual e celeste. Ora, como esse estado e seu bem e vero é significado pelas ‘uvas’ e pelo ‘vinho’, por isso não foi lícito ao nazireu comer uvas e beber vinho antes de completar esses dias. Que depois isto lhe fosse permitido é evidente pelo versículo 20 desse capítulo, onde se diz: “E depois o nazireu beberá vinho”.
[12] Que, no fim do cumprimento dos dias,
Tosará a cabeça e porá o cabelo da cabeça sobre o fogo que está debaixo do sacrifício de ofertas pacíficas (Nm. 6:18),
representava o sensual então feito novo pelo Divino celeste, porque depois crescia cabelo novo no nazireu. E representava, também, que o Senhor, pelo Divino Vero no último, que é o sentido da letra, entrou no Divino Vero interior, que é a Palavra no sentido interno, até o supremo ali, pois o Senhor, quando estava no mundo, foi a Palavra, porque era o Divino Vero, e este cada vez mais interiormente por graus, à medida que cresceu, até o seu supremo, que é puramente Divino, inteiramente acima das percepções dos anjos. Cumpre saber que o Senhor, quando esteve no mundo, desde a infância até seu último dia aqui, progrediu sucessivamente até à união com o Divino mesmo, que esteve n’Ele pela concepção. (Sobre essa sucessiva progressão vide nos AC os n. 1864, 2033, 2632, 3141, 4585, 7014 e 10076). Por aí se pode ver o que representava que ao nazireu não foi concedido comer coisa alguma da uva nem beber coisa alguma de vinho, antes do cumprimento dos dias de seu nazireado.

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