. “Senhor Deus Todo-poderoso”. Que isto signifique porque o Divino Bem é Ele vê-se pela significação de ‘onipotência’, que é ser, existir, poder e viver por Si mesmo (de que se tratou [acima], n. 32 e 698); e como todos os bens e veros vêm d’Ele porque estão n’Ele, é dito: ‘Senhor Deus’, pois diz-se ‘Senhor’ por causa do Divino Bem, e ‘Deus’ por causa do Divino Vero; e como a onipotência d’Ele vem do Divino Bem pelo Divino Vero, diz-se ‘Senhor Deus Todo-poderoso’. (Que na Palavra o Senhor seja chamado ‘Senhor’ por causa do Divino Bem vê-se [acima], n. 685; e ‘Deus’ por causa do Divino Vero, n. 24, 220 e 688). * * * * * * * Continuação [2] É notório que o interior do homem deve ser purificado antes que o bem que ele faz seja bem, pois o Senhor diz: “Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior se torne limpo” (Mt. 23:26). O interior do homem não é purificado de outro modo senão que ele desista dos males segundo os preceitos do Decálogo. Esses males, enquanto o homem não desiste deles, foge deles e tem aversão a eles como pecados, fazem o seu interior, e são como um véu ou como uma cobertura interposta. No céu, isto aparece como um eclipse que obscurece o sol e intercepta a luz; e é também como uma fonte de betume ou de água negra, da qual nada emana senão o que é impuro. O que emana dali, e ao mundo aparece como bem, não é, contudo, o bem, porque é conspurcado pelos males vindos do interior, pois é o bem farisaico e hipócrita. É diferente quando os males são removidos por uma vida segundo os preceitos do Decálogo. [3] Ora, visto que os males devem removidos primeiro, antes que os bens se tornem bens, por isso os dez preceitos foram a primeira coisa da Palavra, pois foram promulgados do Monte Sinai antes que a Palavra fosse escrita por Moisés e pelos profetas, e nos preceitos não estão contidos bens que devem ser feitos, mas males de que se deve fugir. Por isso, também, esses preceitos são ensinados em primeiro lugar nas igrejas, pois são ensinados a meninos e meninas, para que o homem inicie por eles a sua vida cristã, e de nenhum modo se esqueça deles, quando cresce, o que, todavia, acontece. Coisas semelhantes se entendem por estas palavras em Isaías: “Que é para Mim a multidão de sacrifícios? ... Vosso minchá, vosso incenso... vossas luas novas, e vossas festas marcadas, Minha alma odeia; ... ainda se multiplicardes a oração, Eu não ouço. ... Lavai-vos, purificai-vos, removei a malícia de vossas obras de diante de Meus olhos; cessai de fazer o mal. ... Então, se os vossos pecados fossem como a escarlate, embranquecerão como a neve; se fossem rubros como a púrpura, como a lã serão” (Is. 1:11-19); por ‘sacrifícios’, ‘minchá’, ‘incenso’, ‘luas novas’ e festa, como também pela ‘oração’, entendem-se todas as coisas do culto. Que elas sejam inteiramente más, mesmo abomináveis, a menos que o interior seja purificado dos males, entende-se por ‘lavai-vos, purificai-vos, removei a malícia das obras, e cessai de fazer o mal’. Que, depois, todas as coisas sejam bens, entende-se pela sequência ali.