. “E lhes deste sangue a beber”. Que isto signifique que daí eles estão nos falsos do mal vê-se pela significação de ‘beber sangue’, que é absorver os falsos, pois pelo ‘sangue’ é significado o vero falsificado, e por ‘beber’ é significado absorver; e como o vero falsificado é o falso do mal, por isso, aqui, por ‘beber o sangue’ é significado estar nos falsos do mal. Que o vero falsificado seja o falso do mal é porque o mal falsifica o vero. O fato de eles estarem nos falsos do mal é atribuído aqui ao Senhor, pois é dito ‘deste-lhes sangue a beber’, como se o Senhor tivesse feito isso por vingança, embora o Senhor nunca se vingue do mal que é feito a Ele pelo homem. Daí é evidente que se encerra um sentido interior nessas mesmas palavras e que se mostra quando é tirado o sentido da letra, que ó sentido do vero aparente. Quando este é tirado, sai o sentido espiritual, que é que o Senhor não lhes deu sangue a beber, mas o homem a si mesmo, isto é, que o homem, pelo mal em que está, falsificou a Palavra e, daí, está nos falsos do mal. * * * * * * * Continuação sobre o Quinto Preceito [2] Sejam, por exemplo, os juízes. Todos aqueles que praticam uma justiça venal, amando a função de julgar por causa das vantagens provenientes dos julgamentos e não por causa do uso da pátria, são, todos eles, ladrões, e os juízos deles são furtos. Semelhantemente se julgam segundo as amizades e os favores, pois amizades e favores são também ganhos e vantagens. Quando essas coisas estão em lugar do fim e os juízos em lugar dos meios, então as obras que eles fazem são más, e são as que se entendem na Palavra pelas ‘obras más’ e por ‘não fazer juízo e justiça, pervertendo o direito dos pobres, dos necessitados, dos órfãos, das viúvas e dos inocentes. Até mesmo se fazem justiça, mas visam o ganho como fim, eles, de fato, fazem boa obra, mas não para eles, pois a justiça, que é Divina, é para eles um meio, e o tal ganho é o fim, e o que está em lugar do fim, isso é tudo. Por isso, esses juízes, após a morte, amam igualmente o injusto e o justo, e como ladrões são condenados ao inferno. Isto eu falo por experiência. Esses são os que não se abstêm dos males como pecados, mas somente porque temem as penas da lei civil e a perda da reputação, da honra, da função e, assim, do ganho. [3] É diferente, porém, com os juízes que se abstêm dos males como pecados e fogem deles porque são contra as leis Divinas e, assim, contra Deus. Esses têm a justiça como fim e a veneram, adoram e amam como se fosse Divina. Esses veem, por assim, Deus na justiça, porque tudo o que justo, assim como todo bem e vero, vem de Deus. Eles sempre conjungem o justo ao equitativo e o equitativo ao justo, cientes de que o justo deve ser equitativo para ser justo, e o equitativo deve ser justo para ser equitativo; semelhantemente, que o vero pertence ao bem e o bem ao vero. Visto que eles têm a justiça como fim, assim, para eles, fazer justiça é fazer boas obras; mas essas obras, que são os julgamentos, são para eles mais e menos boas, conforme nos juízos estejam, em maior ou menor grau, o respeito da amizade, o favor e o ganho, e também mais ou menos conforme nelas houver o amor do que é justo por causa do bem público, que é que a juíza reine nos cidadãos e eles tenham segurança segundo vivem as leis. Esses juízes têm a vida eterna no grau condizente com as obras, pois eles semelhantemente são julgados segundo eles mesmos julgaram.