. “E foi-lhe dado afligir os homens com ardor, pelo fogo”. Que isto signifique as cobiças de falsificar os veros, oriundas dos males dos amores de si e do mundo, vê-se pela significação de ‘ardor’, que é a concupiscência do falso e em relação ao falso (de que se tratou no n. 481); e pela significação de ‘fogo’, que é o amor em ambos os sentidos, a saber, o amor ao Senhor e o amor para com o próximo, e, no sentido oposto, o amor de si e o amor do mundo, e, daí, a cobiça em relação a males de todo gênero. Que os amores de si e do mundo sejam as origens de todos os males vide nos n. 162, 171, 506, 510, 512, 517, 650, 653, 950 e 951; e como esses amores são as origens de todos os males, e esses amores em seu contínuo se chamam cobiças e também concupiscências, daí, por ‘afligir os homens com ardor, pelo fogo’ é significada a cobiça ou concupiscência em relação aos falsos e males de todo gênero e, assim também, em relação ou mal ou para causar dano aos outros. Este é, pois, o prazer da vida daqueles estão no amor de si e no amor do mundo; por causa do prazer é que os contínuos desses amores são chamados cobiças e concupiscências. [2] No mundo dificilmente se sabe que todos os que estão no amor de si, segundo o prazer desse amor, estão no prazer de prejudicar os outros, que não fazem um com eles. Que isto seja assim é claramente evidente por eles mesmos após a morte; então o prazer da vida deles é causar dano e fazer mal aos outros de todos os modos, principalmente aos bons. O prazer deles é o prazer do ódio, pois têm ódio a todos os que adoram o Senhor e pelo ódio os perseguem. Esse ódio não se manifesta neles no mundo, porque os vínculos externos, que são os temores por causa das penas da lei civil e por causa da perda da reputação, da honra, do ganho, das funções, das volúpias, da vida e de seus danos, os retêm e impedem, para que {esse ódio} não se apresente à vista dos outros, mas jaza oculto no espírito deles. Por isso, após a morte, quando o homem se torna espírito, e os vínculos externos são tirados, {esse ódio} irrompe e até mortal, na medida que lhes são soltos os freios. Isto é também significado por ‘afligir os homens com ardor, pelo fogo’. [3] Diz-se que ‘o anjo derramou a sua taça no sol’, e ‘foi-lhe dado afligir os homens com ardor, pelo fogo’, e que pelo ‘sol’ é significado o amor a Deus e pelo ‘ardor’ e pelo ‘fogo’ são significadas as cobiças em relação aos falsos e para fazer o mal. Isto é porque, também, os amores e, daí, as cobiças do falso e do mal saem e se manifestam nos maus pelo influxo do amor ou da afeição do bem e do vero, vindo do céu, porque quanto mais as afeições e os amores celestes influem nos maus, mais os maus são abrasados com o ardor e a cobiça de fazer o mal e falar o falso. A razão disso é que todo bem do céu neles é mudado em mal, e todo vero do céu em falso, porque os interiores deles, que pertencem à vontade e ao pensamento daí, são voltados em direção contrária às coisas celestes, e tudo o que influi no que é contrário se muda em contrário. E se o que influi se fortalece, muda-se em furor; e se prevalece, em tormento, de modo que, quando o bem influi com a virtude nos maus, então os maus entram em furor ou em tormento infernal; mas quando o mal influi com poder nos bons, então os bons também entram em angústia e também numa espécie de tormento de consciência. [4] A causa íntima desse efeito é porque a vida das afeições e dos pensamentos daí de todos em todo o mundo, tanto o espiritual quanto o natural, procede da única fonte de vida, que é o Senhor, e porque essa vida é recebida por cada um segundo a qualidade de sua vida, assim, segundo a qualidade de seu amor. Portanto, aqueles que em si mudaram o amor celeste em amor infernal não podem deixar de mudar o influxo do amor do céu em seu amor, semelhantemente ao que costuma acontecer com o calor e a luz do sol influindo nos objetos da terra, dentre os quais alguns, por, por esse influxo, emitem um odor perfumado, outros um odor fétido, quando, todavia, o calor e a luz em si sejam os mesmos e, também, são de uma única fonte, a saber, do sol. * * * * * * * Continuação sobre o Sexto Preceito [5] Visto que o adultério é o inferno no homem, e o casamento é o céu nele, segue-se que quanto mais o homem ama o adultério, mais se afasta do céu; consequentemente, os adultérios fecha o céu e abrem o inferno. Fazem isso quanto mais se crê que são lícitos e percebidos como prazer mais do que os casamentos. Por esse motivo, o homem que confirma em si os adultérios e os comete por desculpa e consentimento da vontade, e tem aversão aos casamentos, fecha para si o céu, até que finalmente não crê em coisa alguma da igreja ou da Palavra, torna-se homem inteiramente sensual e, após a morte, um espírito infernal, pois, como foi dito acima, o adultério é o inferno e, assim, o adúltero é sua forma. Como o adultério é o inferno, segue-se que, a menos que o homem se abstenha dos adultérios, fuja deles e tenha aversão a eles como infernais, ele fecha para si o céu e não recebe o menor influxo dali. Em seguida ele raciocina que os casamentos e os adultérios são semelhantes, mas que os casamentos devem ser protegidos nos reinos por causa da ordem e por causa da educação dos filhos; e que os adultérios não são criminosos, porquanto deles nasce igualmente a prole; e que não são prejudicais às mulheres, porque podem sustentá-las; e que por eles é promovida a procriação do gênero humano. Não sabem que tais raciocínios e outros semelhantes em favor dos adultérios sobem das águas do Estige dos infernos, e que a natureza ferina e libidinosa do homem, que ele tem por nascimento, as atrai e suga com prazer, como porcos em relação às coisas estercorosas. Que tais raciocínios, que hoje obsedam as mente de muitos no mundo cristão, sejam estigiais, ver-se-á na sequência.