. [Vers. 10] “E o quinto anjo derramou a [sua] taça sobre o trono da besta”. Que isto signifique o estado da igreja manifestado quanto à doutrina da fé vê-se pela significação do ‘anjo derramando a taça’, que é o estado da igreja manifestado (como acima); e pela significação de ‘trono da besta’, que é a doutrina da fé. Que pelo ‘trono da besta’ seja significada a doutrina da fé é porque pelo ‘trono’ é significada a igreja quanto ao vero, que aí reina, e pela ‘besta’ é significada a fé, como é nessa igreja; daí, pelo ‘trono da besta’ é significada a igreja quanto ‘a doutrina da fé. Isto também se segue do fato de que o ‘quarto anjo derramou a sua taça no sol’, pelo que é significado o estado da igreja manifestado quanto ao amor (vide acima, n. 981). Segue-se daí que pela ‘taça’ derramada por esse anjo sobre o trono da besta é significada a manifestação do estado da igreja quanto à fé, pois o amor e a fé fazem a igreja, mas somente quando fazem um, e não dois. Pelo ‘trono da besta’, porém, entende-se a fé como é hoje nessa igreja, que é a fé separada dos bens da vida. [2] A razão pela qual a doutrina da fé se entende pelo ‘trono da besta’ é porque pelo ‘trono’, no sentido supremo, entende-se o céu e a igreja quanto ao Divino Vero, e o Divino Vero na Igreja Cristã é chamado fé, diferentemente das igrejas antigas. Nessas não se sabia o que era a fé, porque fé envolve algo que não se entende e, todavia, deve ser crido como se fosse um vero. Tais são quase todas as igrejas e suas doutrinas hoje, por exemplo, que se deve crer na Trindade, que há três Pessoas da Divindade, que o Senhor nasceu de eternidade, que o Espírito Santo procede deles e que o procedente é uma Pessoa, que é Deus, por si, e, não obstante, que são três, mas um só, e que assim a Trindade esteja na unidade e a unidade na Trindade. Além disso, que a fé sem a sua vida, que vem do bem da caridade ou das boas obras, salva; que ao justificado pela fé só todas as obras, mesmo as más, são perdoadas, e que a Lei não o condena, porque o Senhor tirou a condenação pelo cumprimento da Lei e pela paixão da cruz; que o homem deve somente crer nisso, e será salvo. [3] Há ainda muitas outras coisas que devem ser cridas como verdadeiras, que são chamadas da fé, que não podem ser vistas porque não são verdadeiras, como as que são relatadas a respeito do livre arbítrio, da fé das crianças e da carne e do sangue na Santa Ceia. Depois, às que se referem à vida do homem após a morte e ao juízo final, que devem ser cridas, embora o entendimento veja nelas meros paradoxos que excedem toda fé. Por exemplo, que após a morte o homem é algo sombrio, imaterial e um fantasma etéreo sem forma, que não vê, não ouve nem fala, e assim ou voa no espaço ou está num determinado lugar e espera o juízo, que virá com a destruição de todo o universo, não somente do céu visível, do sol, da luz, dos astros, mas também da terra; e que então todas as coisas dos corpos deixados no mundo pela morte hão de novamente se ajuntar e revestir a alma, e que assim o homem há de receber os seus sentidos, além de outras coisa semelhantes. Como essas coisas não podem entrar no entendimento, não podem ser chamadas verdades, mas fé. Tal fé se entende pelo ‘trono da besta’. [4] Quem é que não pode ver que o homem, por essa fé, pode ser induzido a crer meramente em coisas discordantes e falsas, somente impostas para que sejam confirmadas como dogmas por aqueles que receberam autoridade e por aqueles que amam viver em obediência cega por muitos motivos? Porque os falsos, mesmo os infernais, podem ser confirmados por meio de falácias e sofismas, para parecerem veros. Por exemplo, o falso infernal de que a natureza é tudo; que tudo o aparece é o ideal; que o homem e a besta pouco diferem entre si, morrem semelhantemente e não vivem após a morte; que a Palavra não é santa e outras coisas semelhantes, pelo que é evidente que toda cegueira nas coisas espirituais foi induzida pela fé de hoje, nascida e levada à máxima escuridão pela gente babilônica. Dessa escuridão os reformados, que se afastaram daquela gente, emergiriam a alguma luz pela leitura da Palavra, mas não numa luz em que possam ver os veros, como os antigos. A razão disso foi que estes separaram da fé a vida, e pela vida o homem tem luz, e não por alguma fé separada. Por aí se pode ver agora o que se entende pelo ‘trono da besta’, do mesmo modo que anteriormente, Pelo ‘trono’ do qual se diz que o dragão deu à besta (Ap. 13:2, de que se tratou acima, n. 783); Também pelo ‘trono de Satanás (Ap. 2:13). Os doutrinais falsos também são significados pelo ‘trono’ em outras passagens na Palavra, como em Ezequiel: “Descerão de seus tronos todos os príncipes do mar, e lançarão seu mantos... e se vestirão de terrores” (Ez. 26:16); e em Ageu: “Derrubarei o trono dos reinos, e destruirei a força dos reinos das nas nações” (Ag. 2:22); e em Daniel: “Estive vendo até que foram lançados uns tronos, e o Antigo de dias se assentou” (Dn. 7:9). * * * * * * * Continuação sobre o Sexto Preceito [5] Quão santos são em si os casamentos, isto é, de criação, pode-se ver pelo fato de eles serem sementeiras do gênero humano; e como do gênero humano vem o céu angélico, eles são também as sementeiras do céu. Consequentemente, pelos casamentos não somente as terras, mas também os céus são cheios de habitantes. E como o fim de toda a criação é o gênero humano e, daí, um céu onde o Senhor mesmo habite como no que é Seu e como se fosse em Si, e a procriação deles foi instaurada segundo a ordem Divina pelos casamentos, é evidente quão santos eles são em si, por conseguinte, de criação, e quão santos daí devem ser. De fato, a terra pode ser igualmente cheia de habitantes por meio de fornicações e adultérios em vez de casamentos, mas não o céu. A razão disso é que o inferno vem dos adultérios, e o céu, dos casamentos. Que o inferno venha dos adultérios é porque o adultério vem do casamento do mal e do falso, pelo que o inferno, em todo o conjunto, é chamado adultério. Que o céu venha dos casamentos é porque o casamento vem do casamento do bem e do cero, pelo que também o céu, em todo o conjunto, é chamado casamento, como foi mostrado acima em seu artigo. Por adultério se entende onde reina o seu amor, que se chama amor do adultério, quer seja nos matrimônios ou fora deles; e por casamento se entende onde reina o seu amor, que se chama amor conjugal. Que a terra possa ser cheia de habitantes igualmente por fornicações e adultérios, em vez de casamentos, será explicado ulteriormente no artigo seguinte. [6] Quando as procriações do gênero humano se fazem pelos casamentos em que reino o santo amor do bem e do vero oriundo Senhor, então se fazem nas terras como nos céus, e o reino do Senhor nas terras corresponde ao reino do Senhor nos céus, pois os céus consistem de sociedades segundo todas as variedades de afeições celestes e espirituais ordenadas; dessa ordenação existe a forma do céu, que excede de modo sobre-eminente todas as formas no universo. Haveria semelhante forma nas terras, se aí as procriações se fizessem pelos casamentos em que reinasse o amor verdadeiramente conjugal, pois então de quantas famílias descendessem sucessivamente de um pai de família, tantas imagens de sociedades do céu existiriam em semelhante variedade. Seriam as famílias, então, como árvores frutíferas de várias espécies, das quais haveria igual número de jardins, em cada uma sua espécie de fruto, jardins esses que, tomados juntamente, apresentariam a forma do paraíso celeste. Mas essas coisas foram ditas comparativamente porque as ‘árvores’ significam os homens celestes, os ‘jardins’ a inteligência, os ‘frutos’ o bem da vida, e o ‘paraíso’ o céu. Foi-me dito do céu que tal correspondência das famílias nas terras com as sociedades nos céus existiu com os antiquíssimos com os quais foi instaurada a primeira igreja nesta terra, a qual foi até chamada pelos escritos antigos de ‘século de ouro’, porque reinaram o amor ao Senhor, o amor mútuo, a inocência, a paz, a sabedoria e castidade nos casamentos. E também foi dito do céu que eles tinham interiormente horror aos adultérios, como a coisas abomináveis do inferno.