. (Vers. 6) “E vi a mulher embriagada com o sangue dos santos”. Que isto signifique a religiosidade que enlouquece pelos falsos do mal, pelos quais se faz violência aos Divinos veros, vê-se pela significação de ‘mulher’, que é a religiosidade que se entende por Babilônia num sentido geral (como acima, n. 1042); pela significação de ‘embriagar-se’, que é enlouquecer nas coisas espirituais pelos falsos do mal (de que se tratou acima, n. 376 e 1035); e pela significação de ‘sangue dos santos’, que são os Divinos veros; aqui, a violência feita a eles, porque se entende que o sangue foi derramado; (que o ‘sangue’ signifique o Divino Vero vê-se nos n. 30, 328, 329, 476 e 748; e que ‘derramar sangue’ signifique fazer violência aos Divinos veros, n. 329). Diz-se ‘sangue dos santos’ por que são os Divinos veros que são chamados santos, e porque pelos ‘santos’, no sentido espiritual, não se entendem os santos, mas as coisas santas, pois o sentido espiritual é abstraído da ideia de pessoa, lugar e tempo, diferentemente do seu sentido natural. [2] De que maneira esses dois sentidos diferem entre si pode-se ver em muitas passagens da Palavra, como aqui, onde se diz que ele ‘viu a mulher embriagada do sangue dos santos, e do sangue das testemunhas ou mártires de Jesus’, palavras pelas quais, no sentido natural, se entende que a Babilônia derramou o sangue dos santos e o sangue daqueles testificaram a respeito do Senhor. Mas, no sentido espiritual, por essas palavras se entende que Babilônia fez violência aos Divinos veros e, também, à testificação do Senhor. Que este seja o sentido dessas palavras, também se pode ver ou concluir pelo fato de que a Babilônia de hoje não mata os santos nem as testemunhas do Senhor, pois adora os santos até à idolatria, e adora o Senhor com suprema santidade, embora externa, e ao papa, interna. Daí é evidente que não são essas coisas que se devem entender, mas algo que se encerra interiormente nessas palavras, isto é, que eles fizeram violência aos Divinos veros e, também, à autoridade Divina do Senhor. Pois fizeram violência aos Divinos veros pelo fato de terem falsificado, adulterado e profanado a Palavra; e fizeram violência à autoridade Divina do Senhor pelo fato de a terem transferido para si mesmos, como é notório. * * * * * * * Continuação a respeito da profanação [3] Foi dito que o gênero mais grave de profanação é quando os veros da Palavra são reconhecidos pela fé e confirmados na vida, e o homem depois se desvia da fé e vive no mal, ou, se não se afasta da fé, mas, não obstante, vive no mal. Contudo, aquele que desde a infância até a adolescência está na fé e na vida segundo ela, e, depois, na idade viril, se fasta da fé e da vida da fé, esse não profana. A razão disso é que a fé da infância é a fé da memória, e é a fé dos mestres nele, enquanto a fé da idade viril é a fé do entendimento e, assim é a fé própria do homem. Essa fé pode ser profanada se o homem se desvia dela e vive contra ela, mas não antes. Com efeito, nada entra na vida do homem e a afeta senão o que vem ao entendimento e, daí, à vontade. E o homem não pensa por seu entendimento nem age por sua vontade antes que amadureça em idade. Antes disso, pensava somente pelos conhecimentos, agiu pela obediência. Isto não faz a sua vida, por conseguinte, não pode ser profanado. [4] Em suma, tudo o que o homem pelo entendimento pensa, faz e fala, com a vontade favorecendo, é de sua vida; e, se isto for santo, é profanado por se desviar. Mas as profanações desse gênero são mais greves e mais leves, segundo a qualidade do vero e da fé daí, segundo a qualidade do bem e da vida daí, e segundo o afastamento destes. Por isso há muitas diferenças específicas dessa profanação.