. “Que ainda não receberam o reino, mas recebem autoridade como reis por uma hora, com a besta.” Que isto signifique naqueles que não reconheceram tanto que a autoridade do Senhor sobre o céu e a terra foi transferida ao homem, e que atribuíram a santidade Divina à Palavra e não tanto aos ditames do papa, vê-se pela significação de ‘reis’, que são os veros da Palavra; aqui, são os dois veros primários de que se tratou nos versículos logo precedentes; e pela significação de ‘reino’, que é a igreja; aqui, é a igreja que se chama Babilônia, onde esses dois veros foram profanados; e, no entanto, esses veros não foram profanados, mas aceitos por aqueles que [se entendem] pelos ‘reis que ainda não receberam reino’; pela significação de ‘uma hora’, que é alguma parte, pois pela ‘hora’, na Palavra, assim como pelos ‘tempos’ em geral e em particular, é significada a coisa quanto à qualidade de seu estado; aqui, pois, ‘uma hora’ significa alguma parte, por conseguinte, que reinassem de algum modo com a mulher meretriz. Disto resulta, portanto, este sentido: que esses dois veros primários – a a saber, que a autoridade do Senhor sobre o céu e sobre a igreja, por conseguinte, sobre as almas dos homens para salvá-los, foi transferida a certo homem, e que a palavra da boca do papa tem poder e santidade igual à Palavra – não foram reconhecidos e, assim, não foram profanados. Que este sentido esteja encerrado nessas palavras, pode-se ver, sobretudo, pela sequência, ou seja, que ‘darão autoridade à besta’, pelo que é significado que haveriam de atribuir a santidade Divina à Palavra; e, também, que ‘o Cordeiro lutará com eles’ e que ‘o Cordeiro os vencerá’, pelo que é significado que seria reconhecido que o Senhor tem o poder de salvar, portanto, que Ele, e não o papa, tem o domínio sobre o céu, a igreja e as almas dos homens. [2] Foi dito acima que há duas coisas que fazem a igreja, a saber, o reconhecimento e a fé que o Senhor tem poder [potestas] de salvar, e que a Palavra é Divina. Onde esses dois pontos não são reconhecidos, aí a igreja não existe. A razão disso é que o Senhor reforma o homem e lhe dá a fé e o amor, e a Palavra ensina o caminho pelo qual o homem deve ir ao Senhor, para que receba d’Ele a fé e o amor. A menos que esses dois pontos sejam conhecidos na igreja, não há igreja. Mas, a fim de que a igreja não perecesse inteiramente no mundo europeu, foi provido pelo Senhor que, não somente dentro do reino da Babilônia, mas, também, fora dele, houvesse sociedades em que não fizessem um com os babilônicos quanto a esses dois veros primários, que são as colunas e os fundamentos mesmos da igreja. Dentro da Babilônia se acham os que estão no reino da França e muitos na Holanda, Inglaterra, Escócia e Irlanda, que não tiraram do Senhor o poder de salvar os homens, nem da Palavra a santidade Divina e atribuíram esta e aquele a algum substituto [vicario], como se pode ver pela disputa da Igreja Francesa com a Romana, que tem persistido e ainda persiste. A este respeito, principalmente, foram ditas as coisas que estão contidas nos versículos 12 a 14. Uma vez que fora dos reinos da Babilônia se acham igrejas que dão ao Senhor todo poder de salvar, e nenhum ao papa, e somente a Palavra é reconhecida como Divina, e estes se afastaram completamente do domínio papel, sendo por isso chamados protestantes e reformados, por isso se trata disso também, neste capítulo, pois são aqueles de quem se diz que ‘terão ódio à meretriz e a farão devastada e nua, e comerão as suas carnes, e a queimarão no fogo’, e ‘que darão o reino à besta’ (vers. 16 e 170. Mas, a este respeito, ver-se-á na sequência. * * * * * * * [3] Continuação a respeito da Palavra Mas, como o mundo ignora de que maneira se deve entender que o Senhor é a Palavra (Jo. 1:1, 2, 14), isto deve ser ulteriormente explicado. Sabe-se na igreja que Deus é o Bem mesmo e o Vero mesmo, e que, daí, vem de Deus todo bem que o anjo e o homem têm, assim como todo vero. Ora, como o Senhor é Deus, é também o Divino Bem e o Divino Vero, e isto é o que se entende pela ‘Palavra, que estava em Deus e que era Deus’, e, também, que era ‘a Luz que ilumina todo homem’ e que ‘se fez Carne’, isto é, Homem no mundo. Que o Senhor tenha sido o Divino Vero, que é a Palavra, quando este no mundo, Ele ensina em muitas passagens, onde Ele Se chama ‘Luz’ e, também, onde Se chama ‘Caminho, Verdade e Vida’, e onde diz que o ‘Espírito da Verdade’ procede d’Ele. O ‘Espírito da Verdade’ é o Divino Vero. Quando o Senhor foi transfigurado, Ele representou a Palavra; pela ‘face que resplandeceu como sol’, o Seu Divino Bem; e pela ‘vestes, que eram brancas como a luz’ e ‘alvas como a neve, o Divino Vero; ‘Moisés e Elias’, que então falavam com o Senhor, também significavam a Palavra; ‘Moisés’, a Palavra histórica, e ‘Elias’, a Palavra profética. Além disso, por todas as coisas da paixão do Senhor foi representada a qualidade da violência que a não judaica fizera à Palavra. Também por causa do Divino Vero, que é Ele, é que o Senhor é chamado ‘Deus’, ‘Rei’ e ‘Anjo’, e Se entende também pela ‘Rocha em Horebe’ e pela ‘Rocha’ [Petram] onde se trata de Pedro. Por aí se pode ver que o Senhor é a Palavra, porque é o Divino Vero. A Palavra na letra, que está conosco, é o Divino Vero nos últimos.