. “Povos e multidões, e nações e línguas.” Que isto signifique que são falsos e males interiores e exteriores vê-se pela significação de ‘povos’, que são os que estão nos veros e, no sentido oposto, os que estão nos falsos (n. 175, 331 e 625); pela significação de ‘multidões’, que também são os que estão nos veros ou nos falsos, pois as multidões são povos de uma sorte inferior; pela significação de ‘nações’, que são aqueles que estão nos bens e, no sentido oposto, os que estão nos males (de que se tratou nos n. 175, 331, 452, 455 e 625); e pela significação de ‘línguas’, que são aqueles que estão em diversas confissões e percepções do bem (de que se tratou nos n. 455, 625, 657 e 990). Que ‘povos, multidões, nações e línguas’ signifiquem os falsos e males interiores e exteriores é porque o sentido verdadeiramente espiritual envolve coisas abstraídas das pessoas; portanto, quando o termo ‘povos’ – pelo qual se entende os que estão nos veros ou nos falsos – é abstraído da ideia de pessoa, então os veros ou falsos são significados no lugar deles. Semelhantemente se dá em relação a ‘multidões’, ‘nações’, e ‘línguas’. Que sejam significados os falsos e males é porque pela ‘terra’ é significada a igreja; assim, por ‘povos, multidões, nações e línguas’ são significadas as coisas de que a igreja consiste, que são ou os veros e bens ou os falsos e males. E como toda igreja é interna e externa, pelo fato de os veros e bens ou os falsos e males serem interiores e exteriores, por isso são estas coisas que são significados por essas palavras. Isto também decorre do fato de as ‘as águas sobre as quais a meretriz se senta’ – das quais aqui se diz que significam ‘povos, multidões, nações e línguas – significarem as coisas santas da igreja que foram profanadas (vide acima, n. 1033), e as coisas santas da igreja profanadas são os falsos e males, porque os veros da Palavra foram falsificados e os seus bens, adulterados. * * * * * * * [2] Continuação sobre a Palavra A Palavra do Senhor é admirável pelo seguinte: em cada uma de suas coisas há uma união recíproca do bem e do vero, que testifica que a Palavra é o Divino procedente do Senhor, que é o Divino Bem e o Divino Vero reciprocamente unidos; e testifica, também, que na Palavra há um casamento do Senhor com o céu e a igreja, o qual também é recíproco. Que haja um casamento do bem e do vero, assim, do vero e do bem, em cada coisa da Palavra, é para que daí haja sabedoria para os anjos e inteligência para os homens, pois do bem sozinho não nascem sabedoria nem inteligência alguma, tampouco do vero sozinho, mas da conjunção deles, quando o amor é recíproco. Esse amor recíproco o Senhor ensina em João: “Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim, e Eu nele” (Jo. 6:56); no mesmo: “Naquele dia conhecereis que... vós [estais] em Mim, e Eu em vós. Quem tem os Meus preceitos e os pratica, esse é o que Me ama... e Eu o amarei” (Jo. 14:20, 21). O recíproco é que eles estejam no Senhor e o Senhor esteja neles; depois, quem ama o Senhor, o Senhor também o amará. ‘Ter os preceitos’ é estar nos veros, e ‘praticá-los’ é estar no bem. [3] O recíproco também é descrito pelo Senhor na Sua união com o Pai, nestas palavras: Filipe, “como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que Eu estou no Pai, e o Pai em Mim? ... Crede-Me que Eu estou no Pai, e o Pai em Mim” (Jo. 14:9-11). Dessa união recíproca do Divino com o Humano no Senhor procede a união recíproca do Divino Bem com o Divino Vero, a qual procede do Divino Amor do Senhor, também a união recíproca do Senhor com o céu e a igreja e, em geral, a união recíproca do bem e do vero no anjo do céu e no homem da igreja. E como o bem pertence à caridade e o vero pertence à fé, e como a caridade e a fé fazem a igreja, segue-se que a igreja está no homem quando a união recíproca da caridade com a fé está nele. Depois, como bem pertence à vontade e o vero pertence ao entendimento, e como a vontade e o entendimento fazem o homem, segue-se que o homem é homem segundo a união da vontade e tudo o que é seu com o entendimento e tudo o que seu, e reciprocamente. É esta união que se chama casamento, que por criação está em cada coisa do céu e cada coisa do mundo, donde há a produção e a geração de tudo. Que haja tal casamento em cada coisa da Palavra, de modo que o bem ame o vero e o vero, o bem, assim, mutua e reciprocamente [vicissim], o sentido espiritual da Palavra o revela. É, também, desse casamento que o bem e o vero não são dois, mas um só, e são um só quando o bem pertence ao vero e o vero pertence ao bem. * * * * * * *