. “E prisão de todo espírito imundo”. Que isto signifique onde não há senão males oriundos dos bens da Palavra adulterados, vê-se pela significação de ‘prisão’, que é onde se acham os que se entendem pela ‘Babilônia’; (por ‘prisão’, aqui, entende-se o mesmo que pelo ‘habitáculo’, acima); e pela significação de ‘espíritos imundos’, que estão os que estão nos males pela adulteração do bem, assim, abstratamente, os males mesmos, que são os bens adulterados. Dizem-se bens adulterados os que são aplicados aos males, como os bens do amor ao Senhor aplicados aos amores de si, e os bens do amor para com o próximo aplicados aos amores do mundo. O amor ao Senhor e o amor para com o próximo são amores puros e santos, enquanto os amores de si e do mundo, como são os daqueles que reivindicaram para si o domínio do Senhor sobre o céu e a igreja, são amores impuros e profanos. Por isso, converter os amores santos em amores profanos é adulterar os bens da Palavra, principalmente quando chamam de santos os seus profanos, e chamam de bens os seus males. Os que foram tais no mundo se tornam esses espíritos imundos após a morte, e o inferno deles se entende pela ‘prisão de espírito imundo’. * * * * * * * [2] Continuação sobre a Fé Atanasiana Foi dito que o homem tem pensamento pela luz e tem pensamento pelo amor, e que o pensamento pela luz faz a presença do homem no céu, mas o pensamento pelo amor faz a conjunção do com o céu. A razão disso é que o amor é a conjunção espiritual. Daí vem que, quando o pensamento da luz do homem se torna pensamento do seu amor, o homem é introduzido no céu, como nas núpcias; e quanto mais o amor age como principal no pensamento da luz, ou conduz o pensamento, mais o homem entra no céu, como uma noiva no quarto nupcial e se casa. Com efeito, na Palavra o Senhor é chamado ‘Noivo’ e ‘Marido’, e o céu e a igreja, ‘Noiva’ e ‘Esposa’. Por ‘casar-se’ entende-se ser conjunto ao céu em alguma sociedade, e ele é conjunto na proporção em que no mundo adquiriu para si inteligência e sabedoria do Senhor por meio da Palavra, assim, na proporção em que aprendeu a pensar pelos Divinos veros que há um Deus e que o Senhor é esse Deus. O que aprendeu, porém, por uns poucos veros, assim, por pouca inteligência, esse, quando pensa pelo amor, é, de fato, conjunto ao céu, mas nos seus ulteriores. [3] Por ‘amor’ entende-se o amor ao Senhor, e por ‘amar o Senhor’ não se entende amar o Senhor como Pessoa. Por esse amor, somente, o homem não é conjunto ao céu, mas pelo amor do Divino Bem e do Divino Vero, que são o Senhor no céu e na igreja; e esses dois não são amados pelo fato de alguém conhecê-los, pensar neles, entendê-los e falar neles, mas por querê-los e fazê-los porque foram mandados pelo Senhor e, assim, porque são usos. Nada é pleno antes de ser feito, e o feito é o fim, e o fim pelo qual se faz é o amor; por isso, pelo amor de querer e de fazer algo existe o amor de saber, de pensar e de entender aquilo. Dize-me: Por que tu queres saber e entender alguma coisa, senão por causa do fim que tu amas? O fim que é amado é o feito. Se dizes por causa da fé, é a fé só, ou a fé meramente cogitativa, sem a fé no ato, que é o fato; é o não ser [non ens]. Estás muito enganado se pensas crer em Deus e não fazes as coisas que são de Deus, pois o Senhor ensina em João: “Quem tem os Meus preceitos e os pratica, esse é o que Me ama... e morada nele farei; quem, porém, não Me ama, não guarda as Minhas palavras” (Jo. 14:21, 23-24). Em suma, amar e fazer são uma só coisa. Por isso, onde na Palavra se diz ‘amar’, entende-se fazer; e onde se diz ‘fazer’, entende-se também amar, pois o que eu amo, isto eu faço.