. “E prisão de toda ave imunda e detestável.” Que isto signifique onde não há senão falsos oriundos dos veros da Palavra falsificados, vê-se pela significação de ‘prisão’, que é onde eles estão, assim, o inferno (como logo acima); pela significação de ‘toda ave imunda e detestável’, que são os falsos oriundos dos veros da Palavra falsificados, pois pelas ‘aves’ são significadas as coisas racionais, intelectuais, os pensamentos, as ideias, os raciocínios, assim, os veros ou os falsos, e por ‘imundo’ se entende o que vem de um amor impuro, e emana principalmente do amor de dominar, pois isto constitui a imundície no inferno. E por ‘detestável’ é significado o que brota de um princípio falso, por conseguinte, da religiosidade confirmada pelo sentido da letra da Palavra falsificado. Que as ‘aves’ signifiquem coisas tais que pertencem ao pensamento do homem, tanto as espirituais quanto as infernais, assim, tanto as verdadeiras quanto as falsas, pois essas coisas pertencem ao pensamento, isto vem da correspondência. Que venha da correspondência, vê-se pelas aves vistas no mundo espiritual, onde todas as coisas que aparecem perante os olhos e perante os demais sentidos são correspondências. Ali aparecem animais da terra de todo gênero e, também, aves [volatiliza] do céu, tanto as belas quanto as feias; e elas aparecem a partir as afeições e dos pensamentos dos anjos ou espíritos; os animais, a partir das afeições, e as aves, a partir dos pensamentos. Que sejam correspondências, todos ali o sabem, e sabem também a quais afeições e pensamentos elas correspondem. Que sejam correspondências das afeições e dos pensamentos, mostrou-se claramente, porque, quando o espírito ou anjo se vai, ou cessa de pensar nisso, elas se dissipam num momento. Visto que as aves são correspondências dos pensamentos, tanto os racionais quanto os não racionais, portanto, tanto das verdades quanto das falsidades, por isso as mesmas coisas são significadas por elas na Palavra, porque todas as coisas da Palavra são correspondências.
[2] Que as ‘aves’ signifiquem as cognições que pertencem aos veros, tanto as racionais quanto as espirituais, pode-se ver pelas passagens que se seguem. Em David:
Louvem o nome de Jehovah “a fera e toda besta, o réptil e a ave de asa” (Sl. 148:5, 10);
que pela ‘fera’ e pela ‘besta’ sejam significadas as afeições do homem natural, tanto do vero quanto do bem, e, no sentido oposto, as cobiças do falso e do mal, vide acima (n. 522, 650, 781). Daí, pela ‘ave de asa’ são significadas as cognições. Por isso é que se diz que louvassem a Jehovah, pois é o homem que louvará pelas afeições e cognições, assim, pelos bens e veros.
[3] Em Oséias:
“Firmarei com eles uma aliança naquele dia, com a fera do campo e com a ave dos céus, e com o réptil da terra; e quebrarei da terra o arco, e a espada e a guerra” (Os. 2:18);
palavras essas que tratam do advento do Senhor e do estado do céu e da igreja oriundos d’Ele; por ‘naquele dia’ se entende o advento do Senhor; pela ‘aliança’ que então firmaria é significada a conjunção com aqueles que creem n’Ele. Daí, pela ‘fera do campo’ e pela ‘ave do céu’ não podem ser significadas as feras e aves, mas as coisas que a elas correspondem, que são as afeições do bem e do vero e as cognições daí. Que, então, não haveria infestação dos falsos e males vindos do inferno é significado por ‘o arco, a espada e a guerra serem quebrados na terra’.
[4] Em David:
“Fizeste-O dominar sobre as obras de Tuas mãos; todas as coisas puseste sob os Seus pés; o rebanho e a manada... também as bestas dos campos, a ave do céu e os peixes do mar” (Sl. 8:6-8).
Essas palavras são a respeito do Senhor, do Qual aqui se diz que ‘dominará sobre todas as obras das mãos de Jehovah’, pelas quais não se entendem as terrestres, como são os rebanhos, as manadas, as bestas, as aves e os peixes. O que essas coisas seriam em relação ao domínio d’Ele, que está nos céus, e, pelos céus, nas terras sobre os homens, aos quais Ele conduz à vida eterna? Por isso, são coisas espirituais da igreja que se entendem. Pelo ‘rebanho’ são significadas em geral todas as coisas espirituais no homem; pela ‘manada’, todas as coisas naturais nele que correspondem às espirituais; pelas ‘bestas dos campos’, as afeições do bem no homem natural, que pertencem à igreja (porque o ‘campo’ significa a igreja); as ‘aves do céu’ significam as cognições do homem racional, e os ‘peixes do mar’, os conhecimentos.
[5] Em Ezequiel:
“Tomarei do broto do alto cedro... no monte da altura de Israel o plantarei, para que levante ramo e dê fruto, e se torne um cedro magnífico; para que habitem sob ele todas as aves de toda asa; na sombra de seus ramos habitem” (Ez. 17:22-23);
por essas palavras se entende a instauração de uma nova igreja pelo Senhor; a instauração de novo, ou da primeira origem, se entende pelo ‘broto do alto cedro’; pelo ‘cedro’, aqui como em outras passagens na Palavra, é significada a igreja espiritual racional, qual fora a igreja entre os antigos após o dilúvio. Por ‘plantas um broto no monte da altura de Israel’ é significado no bem espiritual, que é o bem da caridade; esse bem é significado pelo ‘monte da altura de Israel’; por ‘tornar-se um cedro magnífico’ é significada a plena instauração dessa igreja; ‘para que habitem sob ele todas as aves de toda asa’ significa que aí estarão os veros racionais de todo gênero; ‘na sombra de seus ramos habitarão’ significa terminados nos veros naturais, pois estes cobrem e guardam os veros racionais, que são de origem espiritual.
[6] No mesmo:
“A Assíria, um cedro no Líbano”... que “se fez alta; ... nos seus ramos se aninharam todas as aves dos céus, e sob os seus ramos pariram todas as bestas do campo, e na sua sombra habitaram todas as grandes nações” (Ez. 31:3, 5-6);
pelo ‘cedro’ aqui é semelhantemente significada a igreja espiritual racional, pois a ‘Assíria’ significa o racional. Como pelo’ cedro’ é significada a igreja, segue-se que pelas ‘aves dos céus’, que se aninharam em seus ramos, e pelas ‘bestas do campo’, que pariram sob os seus ramos, se entendem as cognições racionais a respeito dos veros da igreja e as afeições delas. Porque elas são significadas, por isso também se diz: ‘na sua sombra habitaram todas as grandes nações’.
[7] Em Daniel:
Nebuchadnezzar viu em sonho “uma árvore no meio da terra, cuja altura era grande, e... cresceu e se fez robusta; e a sua altura chegou até o céu, e sua vista até o fim... da terra; sua folhagem era bela, e suas flores, muitas... comida para todos havia nela; sob ela tinha sombra a besta do campo, e em seus ramos habitavam as aves do céu, e dela se alimentava toda carne. ... mas um vigia e santo desceu do céu, clamando: ... Cortai a árvore e arrancai os seus ramos; dissipai a folhagem, dispersai a sua flor. Fugi, ó besta, de sob ela, e as aves, de seus ramos” (Dn. 4:10-14, 20-21);
pela ‘árvore’, também aqui, é significada a igreja chamada Babilônia, em seu início e sua progressão e, assim, ela nas cognições do vero e do bem. Seu início e sua progressão são descritos por ‘fez-se grande e robusta, a sua folhagem bela, e suas flores, muitas’, e que, então, ‘comida para todos havia nela’. Suas afeições do bem e cognições do vero são significadas pela ‘besta do campo, que sob ela tinha sombra’, e pelas ‘aves que habitavam em seus ramos’. Que tenha estendido o seu domínio sobre as coisas santas da igreja e sobre o céu entende-se por ‘um vigia e santo desceu do céu e clamou: cortai a árvore, arrancai os seus ramos’. Que a ‘besta’ também signifique aí as afeições e as cognições é evidente pelo fato de que, quando a árvore foi cortada, também foi dito: ‘fuja a besta de debaixo dela, e as aves, de seus ramos’.
[8] Coisas semelhantes são significadas pelas ‘aves do céu’ nos Evangelhos:
Disse Jesus: “O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que um homem, tomando-o, semeou em seu campo; ... e se tornou árvore, de sorte que vieram as aves [volatiliza] do céu e se aninharam em seus ramos” (Mt. 13:31-32; Mc. 4:31-32; Lc. 13:19);
pela ‘árvore’ de um grão de mostarda é significado o homem da igreja e, também, a igreja, que nasce do mínimo bem espiritual por meio do vero, porque, se tão somente o menor bem espiritual lançar raiz no homem, ele cresce como a semente num húmus bom. E como pela ‘árvore’ daí é significado o homem da igreja, segue-se que pelas ‘aves do céu’, que se aninharam em seus ramos, são significadas as cognições do vero e os pensamentos daí. Que não seja uma comparação nua qualquer um pode ver, pois qual seria a necessidade de tais coisas na Palavra e outras semelhantes nos Profetas?
[9] Assim também em David:
Jehovah, “que envias fontes nos rios, vão entre os montes; dão de beber a toda fera dos campos, os jumentos selvagens saciam a sua sede; junto deles habita a ave dos céus, de entre os ramos alçam as vozes... Saciaram-se as árvores de Jehovah, o cedro do Líbano que plantou, onde as aves se aninham; a cegonha, cuja casa é nos abetos” (Sl. 104:10-12, 16-17).
Tais coisas também não seriam ditas na Palavra Divina a não ser que cada uma delas fosse correspondência de coisas espirituais e celestes, e, assim, santas. Pois, de outro modo, o que seria que ‘os rios das fontes fossem entre os montes, dessem de beber a toda fera do campo’, que ‘os jumentos selvagens saciassem a sede’, e que ‘junto deles a ave dos céus habitasse, e entre os ramos alçasse a voz, e a cegonha nos abetos’? Mas, quando pelas ‘fontes’ se entendem os veros da Palavra, pelos ‘rios’ a inteligência daí, pelos ‘montes’ os bens do amor, pela ‘fera dos campos’ as afeições do vero, pelos ‘jumentos selvagens’ o racional, e pela ‘ave dos céus’ as cognições oriundas dos Divinos veros, então a Palavra é o santo Divino. De outro modo seria meramente humana.
[10] Em Jó:
“Interroga, peço, às bestas, e te ensinarão; ou às aves do céu, e te anunciarão... e te narrarão os peixes do mar. Quem não sabe, de todos eles, que a mão de Jehovah faz isto?” (Jó 12:7-9).
Que pelas ‘bestas’, pelas ‘aves do céu’ e pelos ‘peixes do mar’ não se entendam bestas, aves e peixes, é evidente, pois eles não podem ser interrogados, ensinar, anunciar e narrar que a mão de Jehovah faz isto. Mas por eles é significado o homem quanto às coisas que pertencem à sua inteligência; pelas ‘bestas’ se entendem as suas afeições, pelas ‘aves do céu’ os seus pensamentos, pelos ‘peixes do mar’ as cognições e os conhecimentos. Por estes o homem pode ensinar que a mão de Jehovah faz isto. Se o homem não fosse significado quanto às coisas que pertencem à sua inteligência não se poderia dizer ‘quem não sabe de todos eles?’.
[11] Em Ezequiel:
“Filho do homem, diz à ave de toda asa, e à toda fera do campo: Ajuntai-vos e vinde, ajuntai-vos do arredor... para o grande sacrifício sobre os montes de Israel. ...E porei a Minha glória entre as nações” (Ez. 39:17, 21).
Aí se descreve a instauração da igreja entre as nações e o convite e a convocação a ela, pois se diz: ‘Assim porei a Minha glória entre as nações’. Por isso, pela ‘ave de toda asa’ e por ‘toda fera do campo’ são significados todos os que estão na afeição do bem e no entendimento do vero.
[12] Semelhantemente, no Apocalipse:
O anjo que estava no sol “clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voam no meio do céu: Vinde e ajuntai-vos à ceia do grande Deus” (Ap. 19:17),
onde pelas ‘aves que voam no meio do céu’ não se podem entender aves, mas os homens que são racionais e espirituais, pois são convidados à ceia do grande Deus.
[13] Em Jeremias:
“Vi os montes, e eis que foram abalados, e todas as colinas foram abatidas. Vi quando eis que não havia homem, e todas as aves do céu voaram; vi quando o Carmelo estava deserto, e todas as suas cidades foram desoladas” (Jr. 4:24-26).
Essas palavras foram ditas a respeito da devastação da igreja quanto a todo o seu bem e vero; pelos ‘montes e vales’ são significados os amores celestes e espirituais, e por serem ‘abalados e abatidos’ é significado perecer, porque, no mundo espiritual, quando não existe mais algum amor celeste ou espiritual entre os espíritos, então os montes, sobre os quais tinham habitado, são realmente abalados e as colinas abatidas; por isso, ‘todas as aves voaram’ significa que não havia mais conhecimento algum e, daí, pensamento do vero; por ‘não haver homem’ é significado que não há entendimento do vero; por ‘o Carmelo se tornar deserto’ é significada a igreja sem o bem e o vero; e pelas ‘cidades desoladas’ é significado que não havia mais os doutrinais do vero.
[14] No mesmo:
Os habitáculos “foram devastados, de modo que não há varão que passe, nem há que ouça a voz do gado; desde a ave dos céus até a besta, voaram, se foram, porque farei de Jerusalém montões, habitáculo de dragões” (Jr. 9:10-11; 12:9).
Também aqui se trata da devastação da igreja. Pelos ‘habitáculos’ que foram devastados, de modo que não há varão que passe’ são significados os doutrinais da igreja, que tinham sido oriundos da Palavra, nos quais agora não há bem e vero algum; pela ‘voz do gado’, que ‘não ouvirão’ é significado que não há bem algum da caridade nem vero da fé; pelas ‘aves dos céus, até a besta, voaram, se foram’ é significado que não pensamento algum do vero por sua cognição, nem afeição do bem. Que não se entenda o voo das aves do céu nem a ida das bestas da terra, mas a devastação da igreja quanto à doutrina, é evidente, pois é acrescentado: ‘farei de Jerusalém montões, habitáculo de dragões’; por ‘Jerusalém’ é significada a igreja quanto à doutrina; por ‘fazê-la um montão, e habitáculo de dragões’ é significada a sua devastação.
[15] Em Oséias:
“Não há verdade, e não há misericórdia, e não há cognição de Deus na terra; por causa disso a terra lamentará... quanto à fera do campo, e quanto à ave dos céus, e também os peixes do mar serão recolhidos” (Os. 4:1, 3).
Que pela ‘fera do campo’, pela ‘ave dos céus’ e pelos ‘peixes do mar’ sejam significadas coisas semelhantes às de cima é evidente, pois aqui também se trata da devastação da igreja, porquanto se diz: ‘não há verdade, não há misericórdia e não há cognição de Deus na terra’; pela ‘terra’ é significada a igreja.
[16] Em Sofonias:
“Consumirei o homem e a besta; consumirei a ave dos céus e os peixes do mar; ...cortarei o homem das faces da terra” (Sf. 1:3);
‘consumir o homem e a besta’ significa destruir a afeição espiritual e natural; ‘consumir as aves dos céus e os peixes do mar’ significa destruir as percepções e as cognições do vero. Como por essas coisas são significadas as que são da igreja, por isso se diz: ‘cortarei o homem das faces da terra’; pelo ‘homem’ é significado tudo da igreja.
[17] Em David:
Disse Deus: “Conheço toda ave dos montes, e a fera dos Meus campos comigo” (Sl. 50:11).
Em Ezequiel:
“Haverá grande terremoto sobre a terra de Israel, e tremerão diante de Mim os peixes do mar, e as aves dos céus, e a fera do campo, e todo réptil que rasteja sobre a terra, e todo homem que há sobre as faces da terra” (Ez. 38:19-20).
Coisas semelhantes às que estão logo acima são significadas aqui pela ‘ave dos céus’ e pela ‘fera da terra’. Pelo ‘terremoto’ é significada a mudança de estado da igreja.
[18] Em Isaías:
“Ai da terra de asas ensobradas, que está além dos rios de Cush; ...serão deixadas as aves dos montes, e as bestas da terra, mas as aves o abominarão, e toda besta da terra o desprezarão” (Is. 18:1, 6).
Aí se trata da instauração da igreja entre as nações e da devastação da Igreja Judaica. Assim, pela ‘ave’ e pela ‘besta da terra’ são significadas as cognições do vero e as afeições do bem.
[19] No mesmo:
“Eu [sou] Deus, e não há outro Deus, e não como Eu... que chamo do nascente a ave, e da terra do longínquo o varão do conselho” (Is. 46:9, 11);
pela ‘ave’, que será chamada do nascente, é significado o vero da Palavra, que, por ser proveniente do bem do amor, é chamado ‘do nascente’; o ‘nascente’ é o bem do amor. De outro modo, o que seria isso, de ‘Deus chamar do nascente a ave, e da terra do longínquo o varão do conselho’? ‘Varão do conselho’ é o homem inteligente, a saber, pelos veros que pertencem ao bem do amor.
[20] Em Oséias:
“Efraim, como ave voará a sua glória, desde o parto e desde o ventre, e desde a concepção” (Os. 9:11);
no mesmo:
“Não voltarei a destruir Efraim; ... após Jehovah irão, com honra virão, como a ave vinda do Egito e como a pomba vinda da terra da Assíria” (Os. 11:9-11);
por ‘Efraim’ é significado o entendimento das verdades da igreja; daí se fazer comparação dele com a ave e se dizer: ‘como ave voará a sua glória’. Também é comparado à ave em Oséias 7:12, pois tudo o que é do entendimento, tanto o conhecimento quanto o cogitativo e o racional, é significado pela ‘ave’, e tudo o que é prazer ou volúpia, assim, voluntário, e que pertence à afeição, é significado pela ‘besta’ e pela ‘fera’. Pela ‘ave vinda do Egito’ é significado o conhecimento, que pertence ao homem natural, e pela ‘pomba vinda da Assíria’, o racional, pois pelo ‘Egito’ é significado o conhecimento, e pela ‘Assíria’, o racional. Trata-se aí da igreja a ser instaurada pelo Senhor.
[21] Como a maioria das coisas da Palavra tem também um sentido oposto, assim também as ‘aves’, e, nesse sentido, elas significam as falácias do homem sensual e, também, os raciocínios pelos falsos contra os veros e, ainda, os falsos mesmos, piores e mais nocivos segundo os gêneros e as espécies de aves imundas. Os falsos que destroem os veros são significados principalmente pelas aves de rapina. Em muitas passagens na Palavra é dito que ‘seriam dados por comida às aves e às feras’, e isto significa que haviam de perecer completamente pelas falácias, pelos falsos e pelos raciocínios daí, pelas cobiças do mal e, em geral, pelos males e falsos do inferno. Isto é significado ‘dar por comida às aves do céu e às bestas da terra’ nas passagens que se seguem. Em Jeremias:
“Será o cadáver deste povo por comida para a ave dos céus... sem haver quem as afugente” (Jr. 7:33);
no mesmo:
“Visitarei sobre vós com quatro gêneros... com espada, para matar... com os cães, para dilacerar [trahendum]... com aves dos céus e bestas da terra, para devorar e destruir” (Jr. 15:3).
no mesmo:
“À espada e à fome serão consumidos, para que o cadáver deles se torne por comida para as aves dos céus e para as bestas da terra” (Jr. 16:4; 19:7; 34:20);
em Ezequiel:
“Sobre as faces do campo cairás, não serás recolhido, nem serás ajuntado; à fera da terra e à ave do céu te dei por comida” (Ez. 29:5).
no mesmo:
“Sobre os montes de Israel cairás... e à ave dos céus de toda asa, e à fera do campo te dei por comida” (Ez. 39:4);
essas palavras são a respeito de Gog. Em David:
“Vieram as nações à Tua herança, poluíram o templo de Tua santidade; fizeram de Jerusalém um montão; deram o cadáver de Teus servos por comida à ave dos céus, a carne dos Teus santos à fera da terra” (Sl. 79:1-2).
[22] Visto que as ‘aves dos céus’ e as ‘feras da terra’ significam tais coisas, e como as ‘nações da terra de Canaã’ significavam os males e falsos da igreja, por isso foi um costume da nação judaica, após as matanças, expor os cadáveres de seus adversários às feras e as aves, pelas quais fossem devorados. Por esse motivo é que outrora e até hoje é considerado coisa horrenda e profana deixar insepultos sobre a face da terra os homens mortos, mesmo após os combates. Isto também é significado na Palavra por ‘não serem sepultados’ e, também, ‘os ossos serem extraídos dos sepulcros e lançados fora’. Os falsos infernais são também significados
Pelas aves que desciam sobre os cadáveres, ás quais Abrahão afugentou (Gn. 15:11),
como também pelas ‘aves’ no Apocalipse 19:21; e, ainda, pelas aves comeram o que foi semeado sobre o caminho duro (Mt. 13:3, 4; Mc. 4:4; Lc. 8:5).
Em Daniel:
“No meio da semana fará cessar o sacrifício e a oferta. Finalmente, sobre a ave das abominações [virá] a desolação, e até à consumação, e a decisão derramará sobre a devastação” (Dn. 9:27).
Essas palavras tratam da total devastação da Igreja Judaica, que aconteceu quando o Senhor nasceu. A sua devastação pelos falsos horrendos é significada pela ‘ave das abominações’; que o falso se entenda aí pela ‘ave’ é claramente evidente. Cumpre saber que há vários gêneros de falsos, e cada um dos deles é significado por seus gêneros de aves, que são enumeradas em Moisés (Lv. 11:13 e seq.; Dt. 14:11-20), e nomeadas em várias passagens na Palavra, como as águias, os milhafres, os picanços, os corvos, as corujas [ululae], os corvos, os pelicanos, as garças, as corujas [noctuae], os mochos, os dragões e outras.
* * * * * * *
[23] Continuação sobre a Fé Atanasiana
Existe o pensamento da luz de Deus e das coisas Divinas que, no céu, são chamadas celestes e espirituais e, no mundo, eclesiásticas e teológicas, e existe o pensamento não da luz deles. O pensamento não da luz deles têm aqueles que as conhecem e não as entendem, como são todos hoje que querem que o entendimento esteja sob a obediência da fé, e, mesmo, que se deve crer e não se entender, dizendo que a fé intelectual não é a verdadeira fé. Mas estes são os que não se acham na afeição genuína do vero pelo interior e, daí, em nenhuma iluminação; e muitos destes estão no orgulho da própria inteligência e no amor de dominar sobre as almas dos homens pelas coisas santas da igreja; não sabem que o vero quer está na luz, porque a luz do céu é o Divino Vero, e que o entendimento verdadeiramente humano é afetado por essa luz e vê por ela; e, se não visse, seria a memória que teria a fé, e não o homem. Essa fé pé cega, porque não tem ideia da luz do vero, porquanto o entendimento é o homem, e a memória introduz. Se devesse ser crido aquilo que não é entendido, o homem poderia ser ensinado, como um papagaio, a falar e a lembrar, até que os ossos dos mortos e dos sepulcros têm santidade, que os cadáveres fazem milagres, que o homem será atormentado no purgatório se consagrar suas riquezas aos ídolos ou mosteiros, que os homens são deuses porque o céu e o inferno estão sob a autoridade deles, além de coisas semelhantes em que o homem acredita pela fé cega e pelo entendimento fechado, e, assim, pela luz extinta em ambos. Mas saibam que todos os veros da Palavra, que são os veros do céu e da igreja, podem ser vistos, no céu espiritualmente, no mundo racionalmente, pois o entendimento verdadeiramente humano é a visão mesma deles, pois é separado do material, e, quando é separado, vê os veros tão claramente quanto vê os objetos com os olhos. Vê os veros conforme os ama, pois conforme os ama, é iluminado. Os anjos têm sabedoria pelo fato de verem os veros. Por isso, quando se diz a algum anjo que isto ou aquilo dever ser crido embora não entendido, o anjo responde: “Porventura me consideras insano, ou te achas Deus em quem eu crerei, se não vir? Pois isto pode ser um falso do inferno”.
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