. “E os mercadores da terra enriqueceram com a abundância de suas delícias.” Que isto signifique a instrução nas coisas que são do céu e da igreja, que são prazerosas e desejadas por causa do amor de dominar pelas coisas santas como meios e por causa do amor de possuir o mundo pelas mesmas, vê-se pela significação de ‘mercadores’, que são os adquirem para si as cognições do bem e do vero da Palavra, assim, os que as ensinam ou aprendem, pois chama-se ‘mercador’, no sentido próprio ou natural, aquele que compra e vende mercadorias, e por ‘comprar’ e ‘vender’ é significado adquirir e comunicar, por conseguinte, no sentido espiritual, aprender e ensinar; e pelas ‘mercadorias’ são significadas as cognições do bem e do vero da Palavra (que essas coisas sejam significadas por ‘mercadejar’ vê-se acima, n. 840). Que pelos ‘mercadores da terra’ seja significada a instrução nas coisas que pertencem à igreja é porque ensinar é instruir, e ser ensinado ou aprender é ser instruído, e sentido natural do espiritual significa os que instruem e os que são instruídos, pois o sentido espiritual considera os bens e veros abstratamente das pessoas, mas o sentido natural do espiritual considera as pessoas em que estão esses bens e veros. Que a ‘terra’ signifique a igreja é o que foi confirmado muitas vezes pela Palavra. [O que foi dito acima também] se vê pela significação de ‘abundância de suas delícias’, que são as coisas da igreja, que são chamadas cognições e consideradas santas, as quais, todavia, derivam tudo o que é seu do amor de dominar, tanto sobre o céu quanto sobre o mundo. Essas cognições, que se chamam coisas santas da igreja, são as que se entendem pelas ‘abundâncias de suas delícias’, as quais são enumeradas abaixo (vers. 11-15), por coisas que as significam. Essas riquezas são chamadas ‘abundâncias de delícias’ porque são prazeres, pois todas as coisas que brotam do amor de si e do mundo são prazeres, porquanto cada um, por seu homem natural e pelo corpo, não sente outra coisa senão o prazer. Por isso, também, quando esses amores se tornam fins, então se imaginam meios que os favorecem, e esses meios são prazeres, porque pertencem aos fins. Ora, como esses amores são os fins naqueles que são os cabeças e primazes nessa religiosidade que se entende pela ‘Babilônia’, por isso eles também imaginam os meios que os favorecem, os quais são, todos, prazeres (de que se tratará abaixo). Por aí se pode ver que ‘os mercadores da terra enriqueceram com as abundâncias de suas delícias’ significa a instrução nas coisas que são da igreja, as quais são prazerosas e desejadas por causa do amor de dominar pelas coisas santas da igreja como meios e pelo amor de possuir o mundo pelas mesmas. * * * * * * * [2] Continuação sobre a Fé Atanasiana Outra coisa que a Doutrina Atanasiana ensina é que no Senhor há duas essências, a Divina e a Humana, e aí há uma ideia clara que o Senhor tem o Divino e o Humano, ou que o Senhor é Deus e Homem, mas uma ideia obscura de que o Divino do Senhor em Seu Humano é como a alma no corpo. A ideia clara, que o Senhor tem o Divino e o Humano, se tira dessas palavras: “A verdadeira fé é que creiamos e confessemos que nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e Homem; Deus, pela substância do Pai, nascido antes do mundo, e Homem, pela substância da mãe, nascido no mundo. É perfeito Deus e perfeito Homem, consistindo de alma racional [e de corpo humano]. Igual ao Pai quanto ao Divino, e inferior ao Pai quanto ao Humano.” Aqui termina a ideia clara, e não vai adiante, porque pelas coisas que se seguem a ideia se torna obscura. As coisas que são da ideia obscura, porque não entram na memória pelo pensamento da luz, não obtêm outro lugar aí senão entre coisas tais que não pertencem à luz, porque elas não aparecem perante o entendimento, se escondem e não podem ser trazidas à memória juntamente com as coisas que pertencem à luz. Na ideia obscura nessa Doutrina está que o Divino do Senhor no Seu Humano é como a alma no corpo, pois a respeito disso se diz assim: “Que, embora seja Deus e Homem, não são, todavia, dois, mais um só Cristo; ... É inteiramente um... pela unidade de Pessoas. Porque assim como a alma racional e o corpo são um só homem, assim Deus e Homem é um só Cristo”. A ideia disso é, em si, clara, mas se torna obscura por estas palavras; “É um, não pela conversão da essência Divina em Humana, mas pela assunção da Humana na Divina. Completamente um, não pela confusão de essência, mas pela unidade de Pessoas”. [3] Uma vez que a ideia clara prevalece à ideia obscura, por isso a maioria das pessoas, tanto as simples quanto as eruditas, pensam a respeito do Senhor como de um homem comum e não do Divino d’Ele ao mesmo tempo. Se pensam do Divino, então em sua ideia o separam do Humano, e por esse modo também anulam a unidade de Pessoas. Se forem questionados onde está o Divino d’Ele, dizem, por sua ideia: No céu, no Pai. Que assim digam e percebam é porque lhes repugna pensar que o Humano é Divino e, assim, unido ao Seu Divino no céu. Não sabem que quando no pensamento assim separam o Divino do Senhor de Seu Humano, pensam não somente contra a sua própria Doutrina – que ensina que o Divino do Senhor está em Seu Humano, como a alma no corpo, portanto, que há uma unidade de Pessoas, isto é, que eles são uma só Pessoa – mas, também, que acusam imerecidamente essa Doutrina de contradição ou falácias, que seria que o Humano do Senhor unido à alma racional viesse da mãe somente, quando, todavia, todo homem é racional pela alma que vem do pai. Que, porém, haja tal pensamento e tal separação é o que decorre da ideia de três Deuses, da qual resulta que o Seu Divino no Humano vem do Divino do Pai, que é a primeira Pessoa, embora seja o Seu próprio Divino que desceu do céu e assumiu o Humano. Se o homem não perceber isso corretamente, pode talvez achar que Seu Pai, de que procede, não é um só Divino, mas três, o que, contudo, não pode ser recebido por ideia alguma da fé. Em suma, os que separam o Divino de Seu Humano e não pensam que o Divino em Seu Humano é como a alma no corpo, e que é uma só Pessoa, pode cair em ideias errôneas a respeito do Divino, bem como na ideia de um homem como que separado da alma. Por isso, tem cuidado! Não penses no Senhor como um homem semelhante a ti, mas pensa no Senhor como um Homem que é Deus. [4] Ouve, meu Leitor! Quando leres estas coisas, podes achar que no pensamento nunca separaste o Divino do Senhor de Seu Humano, nem tampouco o Humano, do Divino. Mas, peço-te, examina teu pensamento, quando o determinavas no Senhor, se jamais pensaste que o Divino do Senhor em Seu Humano é como a alma no corpo. Porventura não pensaste, e mesmo agora, se quiseres, não pensar do Seu Humano separadamente de Seu Divino? E, quando a respeito do Seu Humano, que é como o humano de outro homem? E, quando a respeito do Divino, em tua ideia este não está no Pai? Interroguei a mundo, mesmo primazes da igreja, e todos responderam que assim é. E quando eu disse que, no entanto, é da doutrina da Fé Atanasiana, que é a doutrina mesma da igreja deles, a respeito de Deus e do Senhor, que o Divino do Senhor está em Seu Humano como a alma no corpo, responderam que isto não sabiam. E quanto recitei estas palavras: “O nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus... embora seja Deus e Homem, não são, todavia, dois, mas um só Cristo; ... É inteiramente um... pela unidade de Pessoas. Porque, assim como a alma racional e o corpo são um só homem, assim Deus e Homem é um só Cristo”, eles silenciaram e, depois, confessaram que não tinham observado essas palavras, indignados por terem lido sua doutrina com olhos tão fechados. Alguns, então, abandonaram a sua união mística do Divino do Pau com o Humano do Senhor. [5] Que o Divino esteja no Humano como a alma no corpo é o que a Palavra ensina e testifica em Mateus e em Lucas. Em Mateus: Maria, desposada de José, “antes de se ajuntarem, achou-se grávida do Espírito Santo”; e o anjo disse a José em sonho: “Não temas receber Maria por tua esposa, pois o que nela é gerado é do Espírito Santo”. E José “não a conheceu, até que pariu o seu Filho primogênito, e chamou o Seu nome Jesus” (Mt. 1:18, 20, 25); e em Lucas: O anjo disse a Maria: “Eis que conceberás no útero, e parirás um Filho, e chamarás o Seu nome Jesus. ... Maria ... disse ao anjo: Como se fará isto, porque não conheço varão? Ao que, respondendo o anjo, disse: O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te ensombrará, pelo que o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc. 1:31, 32, 34, 35); pelo que é evidente que o Divino esteve no Senhor por concepção e foi a Sua vida mesma, vinda do Pai, vida essa que é a alma. Estas explicações são suficientes por enquanto. Muitas outras a este respeito estarão na sequência, onde será confirmado que também as coisas, na Doutrina Atanasiana, que constituem a ideia obscura concordam com a verdade quando se pensa e crê que a Trindade, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, está no Senhor como numa só Pessoa. Sem esse pensamento e essa fé, pode-se dizer que os cristãos, diferentemente de todo povo e nação em todas as terras do mundo que têm racionalidade, adoram três Deuses, como é até dito por eles; e, no entanto, o mundo cristão pode e deve, mais do que os outros, fazer brilhar a doutrina e a fé de que há um só Deus, em essência e em Pessoa. * * * * * * *