. “E, estando de longe por causa do temor de seu tormento”. Que isto signifique quando estão nos externos pelo medo das punições infernais, vê-se pela significação de ‘estar de longe’, que é estar nos externos (de se tratará a seguir); e pela significação de ‘temor do tormento’, que é o medo por causa das punições infernais, pois o ‘tormento’ significa essas punições. Que ‘estar de longe’ signifique estar nos externos é porque o homem está em si quando está nos externos, pois aí reside o seu amor, assim, a sua vida mesma. Os internos do homem pertencem ao seu espírito, e na Palavra se entendem pelos que estão ‘próximos’; portanto, os externos, por estarem distantes dos internos, se entendem pelos ‘longínquos’; aqui, por ‘estar de longe’. Além disso, todo homem maus, quando está nos externos, não é o mesmo de quando está nos internos; então não somente fala e faz diferentemente, mas também pensa e quer diferentemente, porque o pensamento e a sua vontade é, então, que apareça como homem civil, moral e também espiritual, e isto por causa ou da lei de suas punições, ou por causa da reputação e, daí, da honra e do ganho, por conseguinte, por causa do temor de perdê-los. Que, então, esteja de longe em relação a si mesmo é evidente pelo fato de que, quando dos externos retorna aos seus internos, o que acontece quando está sozinho, então pensa e quer inteiramente diferente, e também quando está com companheiros semelhantes a si fala diferentemente. Daí é evidente que ‘estar de longe’, no sentido espiritual, significa estar nos externos. [2] A principal razão pela qual um homem mal passa ou vem dos internos aos externos é o temor; por isso, quando vê as punições e o tormento de seus companheiros, então o temor fecha os seus internos; estando estes fechados, ele está nos externos e neles permanece enquanto a punição está diante de sua mente. No entanto, pelas punições o seu interno não é corrigido; este permanece exatamente tal como antes. Por isso, assim que o temor da punição é afastado, ele volta aos seus males, que estão interiormente nele e são de seu espírito e, assim, de sua vida. Isto pode ser ilustrado por meio de experiências do mundo espiritual. Ali, o mau espírito é impelido a não falar o mal e não fazer o mal, e é tal enquanto está no lugar onde a punição está diante de sua mente; mas, assim que o temor da punição é afastado, ele é mau como antes. É o mesmo no mundo: os roubadores, ladrões e outros criminosos, enquanto estão na cidade, onde todos são mantidos em vínculos pela lei e por suas punições, não roubam nem assaltam; mas, assim que vão às florestas ou aos lugares onde não temem as punições da lei, ou quando podem perverter a lei por meio de astúcias e, assim, afastar as punições, entram em seus internos e cometem crimes. [3] Por aí é evidente que os externos se acham distantes dos internos e ficam como que de longe. Por isso é que, na Palavra, pelo ‘longínquo’ é significado o externo, ou o que é remoto do interno, como nas seguintes passagens. Em Isaías: “Ouvi, [vós, os] longínquos, o que fiz, e conhecei, [vós], os de perto, o Meu poder [virtutem]” (Is. 33:13); pelos ‘longínquos’, aí, entendem-se os gentios, porque estão distantes dos veros internos; e pelos ‘de perto’ se entendem os que são da igreja e pela Palavra estão nos veros. No mesmo: “Traze os Meus filhos do longínquo, e Minhas filhas da extremidade da terra” (Is. 43:6); também aqui, pelos ‘filhos’ e ‘filhas’ se entendem os gentios, que, por estarem distantes dos veros e dos bens, que são da igreja interna, são chamados ‘filhos do longínquo e filhas da extremidade da terra’; pelos ‘filhos’ se entendem os que estão nos veros, e pelas ‘filhas’, os que estão nos bens; ‘extremidade da terra’ significa os últimos da igreja. [4] No mesmo: “Atendei-Me, ó ilhas, e [escutai,] ó povos do longínquo. ...Eis que” para Ti “virão do longínquo, e eis que estes do setentrião e do ocidente” (Is. 49:1, 12); pelas ‘ilhas’ e pelos ‘povos do longínquo e do setentrião e do ocidente’ se entendem semelhantemente as nações com as quais seria instaurada a igreja. Em Jeremias: “Anunciai nas ilhas do longínquo” (Jr. 31:10), semelhantemente. Em Zacarias: “Os de longe virão e edificarão o templo de Jehovah” (Zc. 6:15); ‘os de longe, também aqui, são as nações, e o ‘templo’ que edificarão é a igreja. Em Jeremias: “Não sou Eu Deus de perto... e não sou Deus de longe?” (Jr. 23:23), significando que o Senhor é Deus para aqueles que estão dentro da igreja e, também, para os que estão fora dela, bem para os que estão nos veros internos e para os que estão nos veros externos. Em David: “Deus... a confiança de todos os fins da terra, e do mar dos de longe” (Sl. 65:5); ‘fins da terra e mar dos de longe’ significam os últimos da igreja. No sentido oposto, pelo ‘longínquo’ é significado o mal, porque este está no homem externo, pois todos os que estão nos males e nos falsos daí são homens externos. Esses se entendem pelas ‘nações e povos de longe’ e ‘da extremidade da terra’ nas seguintes passagens. Em Isaías: Nações “do longínquo... e da extremidade da terra” (Is. 5:26); no mesmo: Os povos “que vêm da terra de longe e da extremidade da terra6” (Is. 13:5); em Jeremias: Nações “que vêm da terra de longe” contra Jerusalém (Jr. 4:16); no mesmo: “Trarei” sobre a casa de Israel “uma nação de longe” (Jr. 5:15). Como ‘Babel’ significa o mal de todo gênero e a profanação do bem, por isso ela é chamada “Terra do longínquo” (Is. 39:3). Que ‘os de longe’ signifiquem os que estão nos externos da igreja pode-se ver também pelos que estão nos externos e pelos que estão nos internos, no mundo espiritual; os que estão nos internos estão no meridião, e os que estão nos externos, no setentrião; por conseguinte, acham-se distantes segundo os graus de recepção do vero e do bem. Que por ‘perto’ se entenda o interno, vê-se acima (n. 16). * * * * * * * [5] Continuação sobre a Fé Atanasiana e sobre o Senhor Como Deus é infinito, é também onipotente, pois a onipotência é o poder infinito. A onipotência de Deus se mostra no universo, que é o céu visível e o mundo habitável, os quais são as grandes obras do Criador onipotente, igualmente a todas as coisas que estão no céu visível e sobre o globo habitável. A criação e a sustentação deles testificam que são oriundos da Divina onipotência, e a ordem deles e a mútua relação dos fins, dede o primeiro até o último, testificam que são oriundos da Divina Sabedoria. A onipotência de Deus se mostra também pelo céu que está acima ou dentro de nosso céu visível, e pelo mundo aí que é habitado pelos anjos, assim como o nosso pelos homens. Aí se acham testemunhos estupendos da Divina onipotência que, por terem sido vistos por mim e revelados a mim, é lícito relatá-los. Ali se acham todos os homens que morreram desde a primeira criação do mundo, os quais, após o óbito, são ainda homens quanto à forma e são espíritos quanto à essência. [6] Espíritos são afeições que pertencem ao amor e, assim, também pensamentos. Os espíritos do céu são afeições do amor do bem, e os espíritos do inferno, afeições do amor do mal. As afeições boas, que são anjos, habitam sobre o mundo que se chama céu, e as afeições más, que são espíritos do inferno, habitam profundamente sob eles. O mundo é um só, mas dividido em expansões, uma abaixo da outra. Há seis expansões; na suprema habitam os anjos do terceiro céu, sob eles o anjo do segundo céu e sob estes os anjos do primeiro; abaixo destes habitam os espíritos do primeiro inferno, sob eles os espíritos do segundo inferno e sob estes os espíritos do terceiro. Todas as coisas são assim dispostas em ordem para que as afeições más, que são es espíritos do inferno, sejam mantidas em vínculos pelas afeições do bem, que são os anjos do céu; os espíritos do inferno ínfimo pelos anjos do céu supremo, os espíritos do inferno médio pelos anjos do céu médio e os espíritos do primeiro inferno pelos anjos do primeiro céu; por essa oposição as afeições são mantidas em equilíbrio como nos pratos de uma balança. [7] Esses céus e esses infernos são inumeráveis, distintos em assembleias e sociedades segundo os gêneros e as espécies de todas as afeições, e estas em ordem e em ligação segundo as afinidades mais próximas e mais remotas delas. Como é nos céus, também é nos infernos. Essa ordem e essa ligação das afeições são conhecidas somente pelo Senhor, e a ordenação de tantas variedades de afeições, que foram homens desde a primeira criação e que serão depois, pertence à infinita sabedoria e ao infinito poder ao mesmo tempo. Que o poder Divino seja infinito ou que seja a onipotência, vê-se claramente pelo fato de nenhum anjo do céu ou diabo algum do inferno tem algum poder por si. Se o tivesse, o inferno cairia, o inferno se tornaria um caos e com eles pereceria todo homem.