. “E flor de farinha e trigo”. Que isto signifique o culto pelos veros e bens que são de origem espiritual, profanado, vê-se pela significação de ‘flor de farinha’ que é o vero de origem espiritual (de que se tratará a seguir) e pela significa de ‘trigo’, que é o bem de origem espiritual (de que se tratou nos n. 364 e 375). Que estes também signifiquem o culto é porque com eles se fazia o minchá, que era oferecido com os sacrifícios sobre o altar, do mesmo modo que o vinho e o óleo, pois os minchás eram feitos com óleo, e as libações, com vinho; e, também, porque do provento deles se alegravam nas festas, que foram instituídas por causa das suas colheitas. Que a ‘flor de farinha’ [simila seu similago] signifique o vero do bem espiritual é porque ela se faz do trigo, pelo qual é significado o bem espiritual, assim como o vero se faz do bem. [2] Como esse vero da igreja é significado pela ‘flor de farinha’, por isso era estabelecido quanto dela se tomasse nos bolos que eram chamados minchás, que eram oferecidos com os sacrifícios no altar (a cujo respeito se lê em Êx. 29; Lv. 5-7, 23 e Nm. 18, 28-29); quanto, também, de farinha houvesse nos pães da proposição (Lv. 23:17; 24:5), pois foi ordenado que o minchá, que era uma oferenda no altar, fosse feito de flor de farinha na qual se punha óleo e incenso (Lv. 2:1). Como isto era significado pela ‘flor de farinha’, por isso Abrahão, quando falava com os três anjos, disse a Sara, sua esposa: “Depressa, amassa três medidas de flor de farinha e faze bolos” (Gn. 18:6). [3] Pela flor de farinha foi significado o vero do bem de origem espiritual também em Ezequiel: “Flor de farinha, mel e óleo comeste, pelo que te tornaste extremamente bela e prosperaste até o reino. ... O Meu pão, que te dei, a flor de farinha, o mel e o óleo, com que te alimentei, tu puseste diante dos ídolos como odor de repouso” (Ez. 16:13, 19). Essas palavras são a respeito de Jerusalém, pela qual é significada a igreja quanto à doutrina; e nesse capítulo se descreve como ela fora no princípio e como se tornou depois; pela ‘flor de farinha’ e pelo ‘óleo’ é significado o vero do bem de origem espiritual, e pelo ‘mel’ o bem de origem espiritual; pelo fato de ‘tornar-se extremamente bela’ é significado que se tornou inteligente e sábia; por ‘prosperar até o reino’ é significado até se tornar igreja (o ‘reino’ é a igreja); ‘pô-la aos ídolos como odor de repouso’ é significado o culto idolátrico em que o verdadeiro culto da igreja se converteu depois. [4] Mas pela ‘farinha’ de cevada é significado o vero de origem natural, pois a ‘cevada’ significa esse bem, assim como o ‘trigo’ significa o bem espiritual. Por exemplo, em Isaías: “Toma a mó, e mói farinha... desnuda-te” (Is. 47:2), Essas palavras são a respeito de Babel, e por ‘tomar a mó e moer farinha’ é significado falsificar os veros da Palavra; por ‘desnudar-se’ é significado adulterar os bens da Palavra. Em Oséias: “Semeiam vento e colhem tempestade; não têm grão, o germe não dará farinha; e, se talvez a der, estranhos a comerão” (Os. 8:7); aqui, também, pela ‘farinha’ é significado o vero de origem espiritual. * * * * * * * [5] Continuação sobre a Fé Atanasiana e sobre o Senhor (v.) A quinta lei da Divina providência é: Que o homem, pelo sentido e pela percepção em si, não saiba de que maneira influem do Senhor o bem e o vero, e de que maneira influem do inferno o mal e o falso, nem veja de que maneira a Divina providência opera pelo bem contra o mal, pois assim o homem não agiria como por si mesmo pelo livre segundo a razão. Basta que saiba e reconheça isto pela Palavra e pela doutrina da igreja. Isto se entende pelas palavras do Senhor em João: “O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem ou para onde vai. Assim é todo aquele que é gerado do espírito” (Jo. 3:8); e, também, por estas em Marcos: “O reino de Deus é assim como o homem que lança semente sobre a terra e depois dorme e se levanta de noite e de dia; mas a semente germina e cresce sem que ele o saiba; pois a terra livremente dá fruto, primeiro a erva, depois a espiga, finalmente o grão cheio na espiga; e quando produziu o fruto, ele lança a foice, porque é chegada a ceifa” (Mc. 4:26-29). [6] Que o homem não perceba a operação da Divina providência em si é porque isto tira o seu livre e, daí, a faculdade de pensar como por si mesmo e, como ela, também todo o prazer da vida. Assim o homem seria como um autômato, no qual não há o recíproco e, por este, a conjunção. E, além disso, seria servo e não livre. Que a Divina providência ande tão secretamente que dificilmente aparece algum vestígio dela, ainda que opere nas coisas mais singulares do pensamento e da vontade do homem, as quais visam o seus estado eterno, é a principal razão pela qual o Senhor quer continuamente insinuar o Seu amor no homem e, por ele, a Sua sabedoria, criando-o desse modo à Sua imagem. Por esse motivo, a operação do Senhor é no amor do homem e, deste, no seu entendimento, e não o contrário. O amor com suas afeições, que são múltiplas e inumeráveis, não é percebido senão num sentido muito geral, e tão pouco que dificilmente há alguma coisa sua. E, no entanto, para ser reformado e salvo, o homem deve ser conduzido de uma afeição do amor a outra, segundo a ligação em cuja ordem estão, coisa que é incompreensível não somente ao homem, mas ao anjo também. [7] Se o homem conhecesse algum desses arcanos, não poderia deixar de conduzir a si mesmo, e também seria continuamente conduzido do céu ao inferno, quando, todavia, ele é continuamente conduzido do inferno ao céu pelo Senhor; porque o homem, por si, age constantemente contra a ordem, mas o Senhor age constantemente segundo a ordem, pois o homem está no amor de si e no amor do mundo pela natureza oriunda dos pais, e, daí, tudo é desses amores ele percebe como bem por um sentido de prazer; e, no entanto, esses amores como fins devem ser removidos, o que o Senhor faz por caminhos infinitos que aparecem como labirintos perante os anjos do terceiro céu. [7] Se o homem conhecesse algum desses arcanos, não poderia deixar de conduzir a si mesmo, e também seria continuamente conduzido do céu ao inferno, quando, todavia, ele é continuamente conduzido do inferno ao céu pelo Senhor; porque o homem, por si, age constantemente contra a ordem, mas o Senhor age constantemente segundo a ordem, pois o homem está no amor de si e no amor do mundo pela natureza oriunda dos pais, e, daí, tudo é desses amores ele percebe como bem por um sentido de prazer; e, no entanto, esses amores como fins devem ser removidos, o que o Senhor faz por caminhos infinitos que aparecem como labirintos perante os anjos do terceiro céu. [8] Por aí é evidente que saber disso pelo sentido ou pela percepção em nada ajuda ao homem, mas lhe seria nocivo e o destruiria eternamente. É suficiente que o homem conheça os veros e, por eles, o que são o bem e o que é mal, e reconheça o Senhor e o Seu Divino auspício em cada coisa. Então, quanto mais conhece os veros e, por eles, o que são bem e o mal, e os faz por si, tanto mais o Senhor, através do amor, o introduz na sabedoria e conjunge o amor à sabedoria e a sabedoria ao amor, e faz com que sejam um, porque são um n’Ele. Esses caminhos pelos quais o Senhor conduz o homem podem ser comparados aos vasos pelos quais o sangue circula e se move no homem, e também com as fibras e seus entrelaçamentos dentro e fora dos vasos do corpo, principalmente no cérebro, pelas quais o espírito animal influi e anima. [9] O homem desconhece de que maneira todas essas coisas influem e percorrem, e, não obstante, ele vive e somente sabe e faz o que lhe convém. Mas os caminhos pelos quais o Senhor conduz o homem são muito mais complexos e inextrincáveis, tanto aqueles pelos quais o Senhor conduz o homem pelas sociedades do inferno e para fora delas, quanto aquelas pelas quais Ele conduz o homem pelas sociedades do céu e mais interiormente nelas. É isto, pois, que se entende por “O vento sopra onde quer, e não sabes de onde vem nem para onde vai (Jo. 3:18), e, também, por “A semente germina e cresce sem que o homem o saiba” (Mc. 4:27). Além disso, de que adianta o homem saber de que a maneira a semente cresce, contanto que saiba arar a terra, gradá-la, semear e, quando colher, bendizer a Deus?