. “E adoraram a Deus, que está sentado no trono”. Que isto signifique a adoração ao Senhor, que tem todo o poder nos céus e nas terras, vê-se pela significação de ‘adorar’, que aqui é a adoração pela humilhação de coração; e pela significação de ‘sentado no trono’, que é ter poder nos céus e nas terras, pois pelo ‘trono’, onde se trata do Senhor, entende-se todo o céu e, também, todo o poder ali. Que também se entende todo o poder nas terras é porque o poder nos céus não pode ser separado do poder nas terras, porquanto o mundo espiritual, no que estão os céus e os infernos, não pode ser separado do mundo natural. Por conseguinte, os anjos e espíritos não podem ser separados dos homens, porque são consociados e conjuntos, pois cada homem, quanto aos pensamentos de seu entendimento e quanto às afeições de sua vontade, está no mundo espiritual, nas sociedades ali, assim, com os anjos do céu de uma parte e com os espíritos do inferno de outra. Com efeito, quanto aos seus pensamentos e suas afeições, o homem é um espírito; por isso também, após a morte, quando se torna espírito, vem às sociedades em que esteve quando no mundo. Daí é evidente que, como o Senhor tem poder nos céus, também tem poder nas terras, e uma coisa não pode ser separada da outra. Que por ‘Deus’, aqui e em outras passagens na Palavra, se entenda o Senhor, é porque Ele tem toda autoridade nos céus e nas terras, como Ele mesmo ensina na Palavra, pois só Ele é Deus. * * * * * * * [2] Continuação (2.) Que a natureza em si seja morta, criada para que por ela o espiritual se revista de formas que sirvam para o uso e nela se determine [terminetur]. Natureza e vida são duas coisas distintas. A natureza nasce do sol do mundo, e a vida nasce do Sol do céu. O sol do mundo é puro fogo, e o Sol do céu é puro amor. O que procede do sol que é puro fogo se chama natureza, e o que procede do Sol que é puro amor se chama vida. O que procede do puro fogo é morto, mas o que procede do puro amor é vivo. Daí é evidente que a natureza em si é morta. Que a natureza sirva para revestir o espiritual é evidente pelas almas das bestas, que são afeições espirituais, por serem revestidas dos materiais que há no mundo. Que os corpos delas sejam materiais é notório, semelhantemente aos corpos dos homens. [3] Que o espiritual possa se revestir do material é porque todas as coisas que existem na natureza do mundo, tanto a atmosférica quanto à aquosa e terrena, quanto a todos os seus indivíduos, são efeitos produzidos do espiritual como causa. E o efeito e a causa agem como um só e concordam interiormente, segundo este axioma, que nada existe no efeito que não esteja numa causa. Mas a diferença é que a causa é uma força viva, porque é espiritual, enquanto o efeito daí é uma força morta, porque é natural. Por isso é que no mundo natural existem coisas tais que concordam inteiramente com aqueles que estão mundo espiritual e podem ser convenientemente conjuntos. Daí é, pois, que se diz que a natureza foi criada para que o espiritual por ela se revista de formas que servem ao uso. [4] Que a natureza tenha sido criada para que nela o espiritual seja determinado é o que segue do que foi dito, que as coisas que há no mundo espiritual são causas, e as que há no mundo natural são efeitos, e efeitos são as determinações [termini]. Onde houve um primeiro deve necessariamente haver um último; e como no último coexiste todo intermediário desde o primeiro, a obra da criação nos últimos é perfeita. Por causa desse fim é que foi criado o sol do mundo, pelo sol, a natureza, e, por último, o globo terráqueo, para que aí haja as últimas matérias em que todo espiritual termina [desinat} e nos quais a criação subsista. Por esse fim, também, é que a obra da criação aí continuamente persiste e é perene, o que ocorre pelas gerações de homens e de animais, e pelas germinações dos vegetais, e a fim de que daí todas as coisas retornem ao Primeiro de que procederam, o que se faz por meio do homem. Que os intermediários coexistam nos últimos é evidente pelo axioma de que nada há no efeito que não esteja na causa, assim, pela continuidade das causas e dos efeitos desde o Primeiro até o último.