AR 537

Emanuel Swedenborg
Obra: Apocalipse Revelado
Em que são desvendados os arcanos preditos no Apocalipse, e que ficaram ocultos até o tempo presente

Texto

. E EIS UM GRANDE DRAGÃO VERMELHO. Significa os que, na Igreja dos Reformados, fazem de Deus três e do Senhor dois, e que separam a caridade da fé e fazem esta salvifica e não ao mesmo tempo a caridade. São eles que, aqui e na continuação, são entendidos pelo "dragão", porque eles são contra os dois essenciais da Nova Igreja, a saber: que Deus é Um em essência e em pessoa, em Quem está a trindade, e Ele é o Senhor; e que a caridade e a fé são um como a essência e sua forma, e que somente possuem a caridade e a fé aqueles que vivem de acordo com os preceitos do Decálogo. Estes preceitos são que os males não devem ser feitos e que tanto quanto alguém não os pratica, fugindo deles como pecados contra Deus, tanto mais faz os bens que são a caridade e acredita nas verdades que são da fé.
A todo aquele que examinar este assunto é fácil ver quais são os que de Deus fazem três e do Senhor fazem dois, e que separam a caridade da fé e fazem esta salvifica e não ao mesmo tempo aquela e são contra aqueles dois essenciais da Nova Igreja. Diz-se "que de Deus fazem três e do Senhor dois", e se entende que pensam de três pessoas como de três deuses, e que separam o Humano do Senhor do Seu Divino. E quem é que pensa de outro modo, e pode pensar de outro modo, quando ora, segundo a fórmula da (sua) fé, "que Deus Pai, por causa do Filho, envia o Espírito Santo?" Não pede a Deus Pai como um Deus, por causa do Filho como um outro Deus, e em relação ao Espírito Santo como um terceiro Deus? Daí, é evidente que, embora alguém em seu pensamento faça das três Pessoas um só Deus, contudo pensa em uma divisão, isto é, divide sua idéia em três deuses, quando assim ora. A mesma fórmula de fé também faz do Senhor dois Senhores, uma vez que então só se pensa no Humano do Senhor e não ao mesmo tempo em Seu Divino, pois (a idéia) "por causa do Filho" é por causa do Seu Humano que padeceu na cruz.
Por essas considerações, pode-se, agora, ver quais são os que se entendem pelo "dragão", que "quis devorar o filho da mulher" e depois "perseguiu a mulher até o deserto por causa de seu filho". Diz-se que o dragão é "grande", porque todas as Igrejas dos Reformados distinguem três pessoas em Deus e fazem da fé o único meio de salvação, exceto alguns, aqui e ali, que não acreditam do mesmo modo em relação à Trindade e à fé. Aqueles que distinguem três pessoas em Deus se atêm a estas palavras da Doutrina Atanasiana: "Uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho. e outra a do Espírito Santo". Depois, se atêm às seguintes: "O Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus." Esses, digo eu, não podem de três fazer um só Deus. Podem dizer, é verdade, que eles são um só Deus, mas não podem pensar assim. Igualmente, os que pensam do Divino do Senhor de eternidade como de uma segunda Pessoa da Divindade, e do Humano do Senhor no tempo como do humano de um outro homem, esses também não podem deixar de fazer do Senhor dois Senhores, ainda que na Doutrina Atanasiana se diga que o Seu Divino e o Seu Humano são uma só Pessoa, unidos como alma e corpo.
Diz-se que o dragão é "vermelho", porque "vermelho" significa a falsidade derivada dos males das concupiscências, que é a falsidade infernal. Agora, como aqueles dois essenciais da Igreja dos Reformados são falsos, e como as falsidades devastam a Igreja, porque elas lhe arrebatam as verdades e os bens, eis porque eles foram representados por um "dragão". Por isso, o "dragão", na Palavra, significa a devastação da Igreja, como se pode ver nas seguintes passagens:"Porei Jerusalém em montões, em habitáculo de dragões, e reduzirei as cidades de Judá à devastação" (Jeremias 9; 11); "Eis vem um tumulto grande da terra do setentrião, para reduzir as cidades de Judá à devastação e ao habitáculo de dragões" (Jeremias 10; 22); "Hazor se tornara habitáculo de dragões, uma desolação até o século" (Jeremias 49; 33); "Para que seja um habitáculo de dragões, um átrio para as filhas da coruja" (]saias 34, 13); "Em um habitáculo de dragões está sua cama" (Isaías 35; 7); "Irei despojado e nu, farei Iamentação com os dragões e um luto como as filhas do mocho" (Miquéias 1; 8); "Gritei; tornei-me um irmão para os dragões e um companheiro para as filhas do mocho" (Job 30; 28 e 29); "Os ijim responderão em seu palácio e os dragões nos templos" (Isaías 13; 22); "Seja Babei montões, habitáculo de dragões, objeto de assovio e estupor" (Jeremias 51; 37); "Calcaste-nos em um lugar de dragões e cobriste-nos com a sombra da morte" (Salmo 44; 19); "Pus os montes de Esaú em devastação e sua herança para os dragões do deserto" (Malaquias 1; 3); E em outras passagens, como Isaías 43; 20 - Jeremias 14; 6 -Salmo 91; 13 e 14 Deuteronômio 32; 33.
Que por "dragão", aqui, se entendem os que estão na fé só e rejeitam as obras da Lei como não salvificas é o que me foi provado, várias vezes, por urna viva experiência no mundo espiritual. Vi muitos milhares, reunidos em assembléia, e então, de longe, eles eram vistos como um dragão com uma longa cauda, que aparecia eriçada de pontas como espinhos, as quais significavam as falsidades. Uma vez também foi visto um dragão ainda maior que, depois de haver erguido as costas, levantava a cauda para o céu, fazendo esforços para arrancar as estrelas. Assim, diante de meus olhos, foi manifestado que pelo "dragão" não se entendem outros (senão os que estão na fé só e rejeitam as obras da Lei).

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