Texto
. PORQUE OS TEUS MERCADORES ERAM OS GRANDES DA TERRA. Significa que os superiores em sua hierarquia eclesiástica são tais, porque, por diversos direitos, até mesmo direitos arbitrários, que lhes são outorgados nos estatutos da ordem, eles traficam e obtêm proveitos. Pelos "grandes" se entendem os superiores em sua hierarquia eclesiástica, os quais são chamados cardeais, bispos e primazes. Eles são chamados "mercadores", porque enriquecem por meio das coisas santas da Igreja, como por mercadorias (nºs 771 e 783). Aqui, são aqueles que, por diversos direitos, mesmo direitos arbitrários, outorgados a eles nos estatutos da ordem, traficam e obtêm proveitos. Por que motivo se diz isso, vê-se claramente no que precede, pois isso é uma conseqüência das coisas ditas. No que precede foi dito que "em Babilônia não mais se ouvirá voz de harpistas e de músicos e de flautistas e de tocadores de trombetas", que "não se achará ali artífice de qualquer arte", que "não se ouvirá ali ruído de mó", que "ali não mais haverá luz de lâmpada" e que "não mais (se ouvirá) voz de noivo e de noiva", pelo que é significado que em Babilônia não haverá qualquer afeição pela verdade espiritual, nem qualquer entendimento dela e, por conseguinte, nenhum pensamento (sobre ela), nem pesquisa, nem exame, nem ilustração, nem percepção dessa verdade e, conseqüentemente, nenhuma conjunção do bem e da verdade, a qual faz a Igreja (vejam-se os nºs 792, 794, 796 e 797). Que eles não têm estas coisas, é porque os superiores, na ordem, fazem comércio e enriquecem e, assim, dão exemplo aos inferiores. É por isso que se diz "Porque os teus mercadores eram os grandes da terra". Mas talvez alguém diga "Quais são esses direitos, mesmo arbitrários, que podem ser chamados mercadorias?" Não são suas rendas anuais nem seus honorários, mas são concessões em virtude do poder das chaves. Essas concessões são que eles perdoam pecados até mesmo enormes e isentam por esse meio das penas temporais, e que, por intercessões junto ao Papa, obtêm poder para realizarem casamentos em graus proibidos e romperem os realizados em graus não proibidos. E a si mesmos permitem tolerâncias sem intercessão, (a saber): por se concederem privilégios que são de sua jurisdição; por ordenação de ministros e confirmações; por gratuidades gerais e particulares provenientes dos monastérios; por adição de renda de outras fontes que, de direito, pertencem a outrem; e por muitas outras maneiras. Estas coisas que eles praticam, e não suas rendas anuais, se eles se contentassem com elas, são a causa de eles não terem qualquer afeição, pensamento, exame e percepção da verdade espiritual, nem conjunção da verdade e do bem, porque tais coisas são ganhos do injusto Mamon; e uma pessoa injusta cobiça perpetuamente as riquezas naturais e tem aversão às riquezas espirituais, que são as Divinas Verdades procedentes da Palavra. Por essas explicações, pode-se ver agora que por "porque os teus mercadores eram os grandes da terra" é significado que os superiores em sua hierarquia religiosa são tais (mercadores), porque por diversos direitos, até mesmo arbitrários, que lhes são outorgados pelos estatutos de sua ordem, eles traficam e obtêm proveitos.
Aqui se dirá ainda alguma coisa das concessões, em virtude do poder das chaves, a respeito de crimes enormes. Por meio dessa concessão, libertam os culpados não somente das penas eternas mas também das penas temporais; e, se não os libertam, pelo menos os protegem, dando-lhes asilo. Quem não vê que isso não é do direito eclesiástico, mas do direito civil, e que é estender a dominação sobre tudo o que é secular e destruir a segurança pública? (Quem não vê) que, por esse poder que reservam para si, eles têm o poder de exercer sua primeira dominação despótica sobre todos os julgamentos estabelecidos pelos reis, assim também sobre os julgamentos dos juízes, mesmo os supremos? É o que fariam se não temessem ser abandonados. É isso o que se entende pelas seguintes palavras, em Daniel: "A quarta besta que subiu do mar pensará em mudar os tempos e a lei" (Daniel 7; 25).