Texto
. PRIMEIRO MEMORÁVEL.
Uma vez, ao despertar do sono, caí em profunda meditação a respeito de Deus; e, como olhasse para cima, vi, no céu, acima de mim, uma luz branca muito brilhante em forma oval. E quando eu fixava minha atenção naquela luz, ela se retirava para os lados e entrava nas periferias. Então, eis que o céu se abriu para mim e vi algumas coisas magníficas, e anjos em pé, em forma de um círculo, no lado meridional da abertura, os quais conversavam entre si. E como inflamava-me o desejo de ouvir o que diziam, foi-me permitido primeiramente ouvir o som de sua voz, que estava cheia de amor celeste, e depois sua linguagem, plena de sabedoria proveniente daquele amor.
Eles conversavam entre si a respeito do Deus Uno, da Conjunção com Ele e da Salvação resultante dessa Conjunção. .Diziam coisas inefáveis, a maior parte das quais não pode ser expressa pelas palavras de qualquer língua natural. Como, porém, eu tinha, algumas vezes, estado em associação com os anjos do céu mesmo, e tinha então falado na mesma língua deles, porque estava em um estado semelhante, por isso pude compreendê-los e tirar de seus discursos algumas coisas que podem ser expressas racionalmente pelas palavras de uma língua natural.
Diziam eles que o Divino Ser é Um, o Mesmo, o Si Mesmo e Indivisível; assim também a Divina Essência, porque o Divino Ser é a Divina Essência; assim também Deus, porque a Divina Essência, que também é o Divino Ser, é Deus. Ilustravam isso com idéias espirituais, dizendo que o Divino Ser não pode incidir em muitos, cada um dos quais tendo o Divino Ser e, entretanto, (continuar) a ser o Um, o Mesmo, o Si Mesmo e Indivisível, pois cada um deles pensaria de per si e por si segundo seu Ser. Se, então, (pudessem pensar) ao mesmo tempo segundo os outros e por meio dos outros unanimemente, haveria muitos deuses unânimes e não Um Deus. Pois a unanimidade, porque é o consenso de muitos e ao mesmo tempo de cada um de per si e por si, não concorda com a unidade de Deus, mas com a pluralidade (eles não disseram "de Deuses" porque não puderam, pois a luz do céu, de que provinha seu pensamento e em que se processava seu discurso, resistia contra isso).
Diziam também que, quando querem pronunciar. "Deuses" e (falar) de cada um deles como Pessoa por si (per se), o esforço para pronunciar cai logo em "Um Só" e até em "Um único Deus". A estas coisas eles acrescentavam que o Divino Ser é o Divino Ser em Si e não de Si porque de Si supõe um Ser em Si Mesmo de quem ele
procede, assim supõe um Deus de Deus, o que não é dado (entender). Aquilo que é de Deus não é chamado Deus, mas é chamado Divino, pois que é um Deus de Deus? Assim, que é um Deus de toda eternidade nascido de Deus? Que é "um Deus procedente de Deus por meio de um Deus nascido de toda eternidade" senão palavras em que não há luz alguma procedente do céu? Outra coisa ocorre no Senhor Jesus Cristo. N'Ele há o Divino Ser Mesmo a Quo (de Quem tudo procede), ao Qual corresponde a alma no homem. N'Ele há o Divino Humano, ao Qual corresponde o corpo no homem. E n'Ele há o Divino Procedente, ao Qual corresponde a atividade no homem. Este trino é um, porque do Divino a Quo se deriva o Divino Humano e, conseqüentemente, do Divino a Quo, por meio do Divino Humano, é derivado o Divino Procedente. É por isso também que em cada anjo e em cada homem, pelo fato de serem imagens, há alma, corpo e atividade, que fazem um, pois da alma é derivado o corpo, e da alma, por meio do corpo, é derivada a atividade.
Diziam mais que o Divino Ser, que em Si é Deus, é o Mesmo, não o Mesmo simples, mas Infinito, isto é, o Mesmo de eternidade a eternidade; o Mesmo em toda parte e o Mesmo junto de cada um e em cada um; mas (diziam) que tudo é variado e variável no recipiente; é o estado do recipiente que faz isso.
Eis como ilustravam que o Divino Ser, que é Deus em SI, é o Si Mesmo: "Deus é o Si Mesmo, porque Ele é o Amor Mesmo, a Sabedoria Mesma, o Bem Mesmo, a Verdade Mesma, a Vida Mesma. A menos que fossem o Si Mesmo em Deus, essas coisas nada seriam no céu nem no mundo, porque nada haveria nelas em relação ao Si Mesmo. Toda qualidade tira sua qualidade do que há no Si Mesmo, pelo qual ela é e ao qual se refere para ser tal. Este Si Mesmo, que é o Ser Divino, não está em um lugar mas, de acordo com a recepção, está junto daqueles que estão em um lugar. Não se pode dizer do Amor e da Sabedoria, do Bem e da Verdade, que são o Si Mesmo, em Deus, ou antes Deus Mesmo, que eles estão em um lugar ou progredindo de um lugar para outro, mas (pode-se referir) à ausência de espaço, de que resulta a Onipresença. Por isso, o Senhor diz que "está no meio deles" e também que "Ele Mesmo está neles e eles estão n'Ele!". Como, porém, Ele não pode ser recebido por criatura alguma tal qual Ele é em Si,' Ele'aparece tal qual Ele à em Si como Sol 'acima dos céus angélicos. 0 que procede desses céus como luz é Ele Mesmo quanto à Sabedoria e o que procede como calor é Ele Mesmo quanto ao Amor. Ele Mesmo não é o Sol, mas o Divino Amor e a Divina Sabedoria saindo d'Ele tão proximamente, ao Seu redor, que aparece diante dos anjos como Sol. Ele no Sol é Homem, é Nosso Senhor Jesus Cristo tanto quanto ao Divino a Quo como quanto ao Divino Humano, pois o Si mesmo, que é o Amor Mesmo e a Sabedoria Mesma, era a Alma que Ele tinha do Pai, assim a Vida Divina, que é a Vida em Si. Não ocorre o mesmo com cada homem; nele a alma não é a vida, mas um recipiente da vida. 0 Senhor também ensina isto, dizendo "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João 14; 6) e, em outro lugar, "Como o Pai tem a vida em Si Mesmo, assim também deu ao Filho ter a vida em Si Mesmo" (João 5; 26). "A vida em Si Mesmo" é Deus.
A isso acrescentaram que aquele que está em alguma luz espiritual pode perceber, por estas noções, que o Divino Ser, que é também a Divina Essência, sendo o Um, o Mesmo, o Si Mesmo e, por conseguinte, o Indivisível, não pode existir em muitos e, se se dissesse que pode, haveria contradições manifestas em qualquer afirmação adicional.
Depois de eu ter ouvido essas explicações, os anjos perceberam em meu pensamento as idéias gerais da Igreja Cristã sobre a Trindade das Pessoas na Unidade e sua Unidade na Trindade a respeito de Deus, como também sobre o nascimento de um Filho de Deus de toda eternidade. Então os anjos disseram: "Em que estás pensando? Não estás pensando nessas coisas segundo a luz natural com a qual a nossa luz espiritual não concorda? Se não afastares, pois, as idéias desse pensamento, nós te fecharemos o céu e nos iremos".
Mas, então, eu lhes disse: "Entrai, eu vos peço, mais profundamente em meu pensamento e talvez possais ver uma concordância".
E assim fizeram, e viram que pelas três Pessoas eu entendia três Atributos Divinos procedentes, que são a Criação, a Salvação e a Reforma, e que esses Atributos pertencem a um Só Deus; e (viram) que pelo nascimento de um Filho de Deus de toda eternidade eu entendia o Seu Nascimento previsto de toda eternidade e provido no tempo. Então, eu lhes contei que o meu pensamento natural sobre a Trindade e a Unidade das Pessoas, e sobre o nascimento do Filho de Deus de toda eternidade, me viera da doutrina da fé da Igreja, que tem o nome de, Atanásio; e (lhes que essa doutrina é exata e reta, contanto que em vez da Trindade de Pessoas se, entenda a Trindade de uma Pessoa, que existe unicamente no Senhor Jesus Cristo, e que, em vez do nascimento do Filho de Deus, se entenda o Seu Nascimento previsto de toda eternidade e provido no tempo, porque, quanto ao Humano, que Ele tomou no tempo, Ele é chamado abertamente o Filho de Deus.
Os anjos então disseram "Está bem" e me pediram que eu dissesse, como vindo de suas bocas, que, se o homem não se dirigir ao Deus Mesmo do céu e da terra, não pode ir ao céu, porque o céu é céu por esse Deus único e esse Deus é Jesus Cristo, Que é Jehovah, o Senhor de eternidade, Criador, Salvador no tempo, e Reformador na eternidade, Oue, assim, é ao mesmo tempo Pai, Filho e Espírito Santo.
Depois destas coisas, a luz celeste, vista anteriormente sobre a abertura, tornou a voltar e gradualmente baixou de lá e encheu os interiores de minha mente e iluminou minhas idéias naturais sobre a Unidade e a Trindade de Deus. E então eu vi as idéias sobre elas, captadas a princípio, que tinham sido meramente naturais, (serem) separadas, como a palha é separada do trigo pelo movimento do panejador, e arrebatadas como pelo vento para o norte do céu e dispersadas.