. Aqui são acrescentados dois memoráveis tirados do Apocalipse Revelado. O primeiro é este: Fui subitamente acometido por uma doença quase mortal. Toda a minha cabeça estava pesada; uma fumaça pestilencial foi solta da grande cidade, que é espiritualmente chamada Sodoma e Egito, Apoc. XI: 8. Estava moribundo, sofrendo cruelmente, e esperava a minha última hora. Fiquei assim deitado na cama durante três dias e meio, tal se tornara meu espírito e, por conseguinte, meu corpo. Então ouvi em torno de mim vozes de pessoas que diziam: Eis deitado morto na praça de nossa cidade, aquele que pregava a penitência para a remissão dos pecados e pregava o homem Cristo só. E perguntaram a alguns eclesiásticos, se ele era digno da sepultura, como se diz das duas testemunhas assassinadas nessa cidade, (Apoc. 11: 8 - 10) e estes responderam: "Não, que ele fique deitado e sirva de espetáculo." Eles iam e vinham e escarneciam. Na verdade isto aconteceu a mim assim, quando eu explicava esse capítulo do Apocalipse. Ouviam-se as palavras graves destas pessoas, mormente estas: "Como é possível fazer penitência sem a fé? Como o Cristo homem pode ser adorado como Deus? Não somos, pois, salvos gratuitamente sem mérito algum de nossa parte, e que necessidade há de outra coisa além dessa fé só, que Deus Pai enviou Seu Filho, para retirar a danação da lei, imputar-nos o mérito do Filho, e assim diante d'Ele nos justificar, nos absolver de nossos pecados, e nos dar então o Espírito Santo, que opera todo o bem em nós? Não são essas coisas segundo a Escritura e além disso conforme a razão?" A multidão dos assistentes aplaudia essas palavras. Eu as ouvia e não podia responder, porque estava deitado quase morto. Mas depois de três dias e meio meu espírito recobrou as forças, e saí, quanto ao meu espírito, da praça para a cidade e disse novamente: "Fazei penitência e crede no Cristo, e vossos pecados serão remidos e sereis salvos; senão perecereis. O Senhor Mesmo não pregou a penitência para a remissão dos pecados e que se deve crer n'Ele? Não ordenou aos discípulos que pregassem a mesma coisa? Uma completa segurança da vida não é a conseqüência do dogma de vossa fé?". Eles, porém, disseram: "Que significa todo esse palavrório? O Filho não satisfez? O Pai não imputou essa satisfação do Filho, e não justificou a nós que cremos nisso? Não somos assim guiados pelo Espírito de graça? Então, o que é o pecado em nós? Então o que a morte tem conosco? Compreendes tu este Evangelho, ó pregador do pecado e da penitência? Mas então saiu uma voz do céu, que disse: "Que é a fé do impenitente, senão uma fé morta? O fim vem, o fim vem sobre vós, que estais em segurança, que sois, sem culpa aos vossos olhos, justificados em vossa fé, e, entretanto sois diabos." E então, de repente, um abismo se abria no meio daquela cidade, e cresceu, e as casas caíram umas sobre as outras e eles foram tragados; e logo água fervente de um vasto sorvedouro saiu e inundou essa devastação. Quando eles ficaram submersos e foram vistos inundados, desejei saber qual era a sua sorte no abismo, e do céu me foi dito: Vais ver e ouvir. E então, as águas com que eles foram inundados, desapareceram diante de meus olhos, porque as águas no mundo espiritual são correspondências, e, por conseguinte aparecem ao redor dos que estão nos falsos. E então os vi em um fundo arenoso, onde havia montões de pedras, entre os quais eles corriam, e se lamentavam de terem sido precipitados da sua grande cidade. E diziam vociferando e gritando: "Por que nos sucedeu isto? Não somos por vossa fé limpos, puros, justos, santos?" Outros diziam: "Por nossa fé, não fomos limpos, purificados, justificados e santificados?" E outros diziam: "Por nossa fé não nos tornamos tais, que somos perante Deus Pai, e perante toda a Trindade, reputados e considerados, e, perante os anjos declarados como limpos, puros, justos e santos? Não obtivemos a reconciliação, a propiciação, a expiação, e por esse modo não fomos absolvidos, lavados e limpos dos pecados? A danação da lei não foi abolida pelo Cristo? Por que fomos lançados aqui como danados? Ouvimos bradar em nossa grande cidade por um audacioso pregador do pecado: "Crede no Cristo e farei penitência;" mas não temos crido no Cristo quando cremos, em Seu mérito, e não temos feito penitência, quando confessamos que éramos pecadores? Por que então isto veio sobre nós?" Mas, então, ouviu-se de um lado uma voz que lhes disse. "Conheceis um só dos pecados em que estais? Acaso vós vos tendes examinado? Fugistes, por conseguinte de algum mal como pecado contra Deus? E quem não foge de um mal, está no mal. O pecado não é o diabo? Vós estais portanto entre aqueles de que o Senhor diz: "Então começareis a dizer: Comemos diante de Ti, e bebemos, e ensinaste em nossas praças. Mas Ele dirá: Digo-vos que não sei de onde sois, retirar-vos de Mim, vós todos, que praticais a iniqüidade." (Lucas 13:26, 27. Como também em Mateus 7: 22, 23); ''Ide, pois, cada um para o seu lugar. Estais vendo antros nestas cavernas, entra! aí e se dará a cada um de vós o seu trabalho para cumprir. E então cada um receberá comida à proporção do trabalho, se não, a fome forçar-vos-á a entrar". Depois uma voz do céu se fez ouvir, sobre a terra ali, a alguns que tinham estado fora da cidade, dos quais se fala no vers. 13 do Capítulo 11 do Apocalipse. E lhes foi dito em voz alta: "Acautelai-vos da associação com pessoas semelhantes. Não podeis compreender que os males, que são chamados pecados e iniqüidades, fazem o homem imundo e impuro? Como pode o homem ser lavado e purificado deles de outro mo,do senão pela penitência real e pela fé no Senhor Deus Salvador? A penitência real consiste em examinar-se, em conhecer e reconhecer os seus pecados, em se confessar culpado, em confessá-los perante o Senhor, em implorar auxílio e o poder para lhes resistir, e assim abster-se deles, e ter uma vida nova e em fazer tudo isso como por vós mesmos. Fazei ,assim uma ou duas vezes no ano, quando vos aproximardes; da Santa Comunhão. E depois, quando os pecados de que vos confessastes culpados voltarem, dizei a vós mesmos: "Não queremos fazer tais coisas, porque são pecados contra Deus." Isto é a penitência real. Quem não pode entender que quem não se examina, e não vê os seus pecados, permanece em seus pecados? Pois, todo mal por nascimento é um prazer, pois é um prazer vingar-se, entregar-se à devassidão, roubar, blasfemar. Não é o prazer que faz com que não se veja mal nessas ações? E se for dito que são pecados, não é por causa do prazer deles que vós os desculpais? Mais ainda, pelas falsidades vos confirmais e vos persuadis de que não são pecados. E assim permaneceis nesses pecados, e depois os praticais mais do que antes ao ponto de não saber o que é o pecado nem até mesmo se o pecado existe. "Mas é muito diferente com aquele que faz penitência real. Os seus males, que ele conhece e reconhece, ele os chama pecados, e por essa razão ele começa a fugir deles, a tê-los em aversão, e a achar desagradável o prazer de tais ,males. E quanto mais isso é feito, tanto mais ele vê e ama os bens, e finalmente ele sente os seus prazeres, que são os prazeres do céu. Em uma palavra, quanto mais o homem rejeita o diabo, tanto mais ele é adotado pelo Senhor e é por Ele instruído, conduzido, desviado dos males e mantido nos bens. Isto é o caminho, e não há outro, para ir do inferno ao céu." É uma coisa que espanta: os reformados sentem, para fazer penitência real, uma sorte de repugnância, recusa e aversão, que é tão grande, que não podem compelir-se a se examinarem, verem os seus pecados e confessá-los perante Deus. Uma sorte de horror os invade quando eles têm a intenção de fazê-lo. Interroguei muitos a esse respeito no mundo espiritual, e todos me disseram que isso estava acima de suas forças. Quando ouviram que, entretanto, os católico-romanos o fazem, isto é, que eles se examinam e confessam francamente os seus pecados perante um padre, ficaram em extremo admirados, e tanto mais quanto os reformados não podem fazê-lo secretamente diante de Deus, ainda que isso lhes seja igualmente recomendado antes de aproximarem da Santa Ceia. E alguns dos que estavam presentes, tendo procurado a razão do fato, acharam que a fé só era a causa de tal estado de impenitência e de tal disposição do coração. Então se lhes permitiu verem que os católico-romanos que se dirigem ao Cristo e O adoram, e que não adoram, mas somente honram, os prelados e os chefes de sua Igreja, são salvos. Depois disso, ouviu-se como um trovão, e uma voz falando do céu dizendo: "Estamos espantados. Dize às assembléias dos reformados: Crede no Cristo e fazei penitência, e sereis salvos." Eu disse, acrescentando: "O batismo não é um sacramento de penitência, e por conseguinte a introdução na igreja? Que prometem os padrinhos para aquele que vai ser batizado, senão, de renunciar ao diabo e às suas obras? A Santa Ceia não é um sacramento de penitência e por conseguinte a introdução no céu? Não se diz aos comungantes para fazerem inteiramente penitência antes de se aproximarem dela? Não é o Decálogo a doutrina universal da Igreja Cristã que ensina a penitência? Nele não se diz nos seis mandamentos da segunda tábua: Não farás tal e tal mal? E não se diz: Farás tal e tal bem. Por tudo isso podeis saber que, quanto mais alguém foge do mal, tanto mais ele ama o bem; e que antes disso não sabeis o que é o bem, nem o que é o mal." (Apoc. Rev. nº 531).