- Depois de pronunciar estas palavras, o Anjo seguiu em frente, e, em primeiro lugar, foi seguido pela Coorte daqueles que se tinham persuadido de que as Alegrias Celestes eram unicamente reuniões muito alegres e conversações muito agradáveis. 0 Anjo os introduziu em Assembléias da Plaga Setentrional, que não tinham tido, no mundo precedente, outras noções a respeito das Alegrias do Céu. Havia lá uma Casa espaçosa na qual os que eram assim tinham sido reunidos; esta Casa tinha mais de cinqüenta salas, distinguidas segundo os diversos gêneros de palestras; em umas se falava do que se tinha visto e ouvido nas praças públicas e nas ruas; em outras, se tratava de diversos assuntos agradáveis sobre o belo sexo, entremeiando-os com gracejos, multiplicados ao ponto de espalhar o riso da alegria sobre todas as faces da Assembléia; em outras salas, ocupavam-se de Novidades das Cortes, dos Ministérios, do Estado político, de diferentes cousas, que tinham transpirado dos Conselhos secretos, e se faziam raciocínios e conjeturas sobre os acontecimentos; em outras, se falava do comércio; em outras, de literatura; em outras, do que se relaciona com a Prudência civil e a Vida moral; em outras, de cousas Eclesiásticas e de Seitas; e assim por diante. Foi-me dado fazer uma inspeção nesta Casa, e vi pessoas que corriam de sala em sala, procurando companhia conforme suas afeições e por conseqüência conforme sua alegria; e, nas companhias, vi três espécies de pessoas; umas ansiosas por falar, outras desejosas de perguntar, e outras ávidas de ouvir. Havia quatro portas na Casa, uma para cada Plaga, e notei que muitos deixavam as companhias e se apressavam para sair; segui alguns deles até à porta Oriental, e vi alguns outros assentados com ar triste perto desta porta; aproximei-me, e lhes perguntei por que estavam sentados assim tristes, e eles me responderam: "As portas desta Casa são conservadas fechadas para os que querem sair; e eis que agora é o terceiro dia desde que entramos aqui; e que aqui temos vivido, conforme o nosso desejo, em companhias e em conversações; e estas conversas contínuas nos fatigam de tal modo, que mal podemos suportar ouvir o seu próprio burburinho; é por isso que levados pelo enfado, viemos para esta porta, e temos, batido; mas nos responderam: "As portas desta Casa se abrem, não para os que querem sair, mas para os que querem entrar; ficai e gozai as alegrias do Céu"! Por estas respostas, concluímos que ficaremos aqui eternamente; desde esse momento a tristeza se apoderou de nossas mentes, e agora o nosso peito começa a se cerrar, e a ansiedade a se apoderar de nós". Então o Anjo tomou a palavra e lhes disse: "Este estado é a morte de vossas alegrias que acreditastes serem unicamente celestes, quando entretanto não são mais do que acessórios das alegrias celestes". E eles disseram ao Anjo: "0 que é então a Alegria Celeste?" E o Anjo respondeu em poucas palavras: "É o prazer de fazer alguma cousa que seja útil a si mesmo e aos outros; e o prazer do uso tira do Amor a sua essência, e da Sabedoria a sua existência; o prazer do uso que tira sua origem do Amor pela Sabedoria é a alma e a vida de todas as Alegrias Celestes. Há nos Céus Reuniões muito agradáveis, que alegram as mentes dos Anjos, divertem suas mentes exteriores (animi), deleitam seus corações, e recreiam seus corpos; mas não as gozam senão depois de terem feito usos em suas funções e em suas obras, por isto há alma e vida em todas as suas alegrias e em todos os seus divertimentos; mas que se tire esta alma ou esta vida, e as alegrias acessórias deixam progressivamente de ser alegrias, e se tornam a princípio indiferentes, e em seguida como nada, e por fim não são mais que tristezas e ansiedades". Depois que ele assim falou, a porta se abriu, e os que estavam sentados perto dela saíram precipitadamente; e fugiram para suas casas, indo cada um para sua função e seu trabalho; e foram aliviados.