- 0 Anjo voltou em seguida à Casa da Assembléia dos sábios do Mundo Cristão e chamou a si aqueles que se tinham persuadido de que as Alegrias do Céu e a Felicidade Eterna eram delícias paradisíacas; e lhes disse: "Seguí-me, e vos introduzirei no Paraíso, vosso Céu, a fim de que comeceis a gozar das beatitudes de vossa felicidade Eterna". E ele os introduziu por uma Porta elevada, construída com um entrelaçamento de ramos e vergônteas de árvores preciosas, depois que entraram, conduziu-os por caminhos sinuosos de região em região; era efetivamente um Paraíso na primeira entrada do Céu, Paraíso a que são enviados aqueles que, no Mundo, acreditaram que o Céu inteiro é um Paraíso único porque é chamado Paraíso, e que têm impressa em si a idéia de que depois da morte há inteira cessação do trabalho e que esse repouso consistirá unicamente em respirar delícias, em passear sobre rosas, em se deleitar com o suco das uvas mais finas, em celebrar festas e festins; e que esta vida não pode existir senão no Paraíso Celeste. Conduzidos pelo Anjo, eles viam uma grande multidão tanto de velhos como de moços e crianças, e também mulheres e mocinhas, de três em três, e de dez em dez, sentadas nos bosques de roseiras, entretecendo grinaldas com que ornavam as cabeças dos velhos, os braços dos moços, e com ramalhetes os peitos das crianças; em outros lugares, colhendo frutas das árvores, e levando-as em cestas para seus companheiros; em outros lugares espremendo em taças o suco das uvas, das cerejas e das groselhas, e bebendo-o com prazer; em outros lugares, aspirando os perfumes exalados pelas flores, pelas frutas e pelas folhas odoríferas, e espalhadas por toda parte; em outros lugares, cantando odes melodiosas com que deliciavam os ouvidos dos que estavam presentes; em outros lugares, assentadas perto de fontes, e de águas que jorravam tomando formas diversas; em outros lugares, passeando, conversando e lançando exclamações alegres; em outros lugares, correndo, brincando, aqui aos pares, lá em rodas; em outros lugares, retirando-se para caramanchões no meio de jardins, para aí repousar em leitos; sem falar de muitas outras alegrias paradisíacas. Depois que viram todos esses grupos, o Anjo conduziu seus companheiros por circuitos aqui e ali, e por fim para outros espíritos que estavam sentados em um bosque de roseiras muito bonito, cercado de oliveiras, de laranjeiras e de limoeiros, e que, com a cabeça inclinada e as mãos sobre as faces, gemiam e derramavam lágrimas; os que acompanhavam o Anjo lhes dirigiram a palavra, e disseram: "Por que estais assim sentados?" E eles responderam: "Faz hoje sete dias que chegamos a este Paraíso, quando entramos, a nossa mente parecia ter sido elevada ao Céu e mergulhado nas beatitudes íntimas de suas alegrias; mas, ao cabo de três dias estas beatitudes começaram a diminuir e a se apagar em nossas mentes, e a se tornarem insensíveis, e por conseguinte nulas; e quando as nossas alegrias imaginárias assim se dissiparam, tememos a perda de todo atrativo de nossas vidas, e nos tornamos, em relação à felicidade eterna, incertos quanto à sua existência; desde esse momento temos andado errantes pelas aléias e pelas praças, procurando a porta pela qual entramos; mas temos andado em vão, de circuito em circuito; e temos interrogado os que encontramos e alguns nos disseram: "Não se acha a porta, porque este Jardim Paradisíaco é um vasto labirinto, de tal natureza que aquele que quer sair dele, cada vez embrenha-se mais; não podeis, portanto, fazer outra cousa que não seja permanecer aqui eternamente; estais agora no meio, onde todas as delícias estão concentradas". Além disso, disseram aos que acompanhavam o Anjo: "Faz agora um dia e meio que estamos aqui sentados, e como não temos esperança de encontrar uma saída, nos recolhemos neste bosque de roseiras, e vemos com abundância em torno de nós olivas, uvas, laranjas e limões, mas quanto mais os olhamos, mais se cansa a vista vendo, o olfato cheirando, e o paladar provando; eis a causa da tristeza, dos gemidos e das lágrimas que vedes em nós". 0 Anjo da Coorte, tendo ouvido estas palavras lhes disse: "Este Labirinto Paradisíaco é verdadeiramente uma entrada do Céu, conheço uma saída e vos farei sair". A estas palavras os que estavam sentados se levantaram e abraçaram o Anjo, e o seguiram com sua Coorte; e no caminho o Anjo lhes ensinou o que é a Alegria Celeste e por conseguinte a Felicidade Eterna. "Não são as delícias paradisíacas externas, a não ser que haja ao mesmo tempo Delícias Paradisíacas internas; as delícias paradisíacas externas são unicamente dos sentidos do corpo, mas as delícias paradisíacas internas são delícias, das afeições da alma; se estas não estão naquelas, não há vida celeste, porque não há alma nas delícias externas; e toda delícia sem sua alma correspondente definha e se entorpece pela continuidade, e fatiga, mais que o trabalho, a mente exterior (animus). Nos Céus há por toda parte jardins paradisíacos, e os Anjos ai encontram também alegrias, e quanto mais aí colocam a delícia da alma, tanto mais estas alegrias são para eles alegrias". A essas palavras todos perguntaram o que é a delícia da alma, e donde vem; o Anjo respondeu: "A delícia da alma vem do amor e da sabedoria procedentes do Senhor, e como é este amor que age, e age pela sabedoria, é por isso que a sede de um e da outra está na ação, e a ação é o uso; esta delícia influi do Senhor na alma, e desce pelos superiores e pelos inferiores da mente a todas as cousas do corpo, e aí se completa; daí a alegria tornar-se alegria, e torna-se eterna pelo Eterno de Que procede. Vistes, Jardins Paradisíacos, e eu vos asseguro que neles não há a menor cousa, nem mesmo a menor folha, que não provenha do casamento do amor e da sabedoria no uso; se portanto, o homem está neste casamento, está no Paraíso Celeste, e assim no Céu.
Download
Versão Impressa
Para estudo mais confortável, adquira esta obra em formato impresso.