- 0 Anjo, com os que o haviam acompanhado, voltou em seguida à sala da Assembléia, de onde as coortes de Sábios não se tinham ainda retirado; e lá, chamou para junto dele aqueles que acreditavam que a alegria celeste e a felicidade eterna não são senão a admissão no Céu, e a admissão pela graça Divina; e que então os que são admitidos têm a mesma alegria daqueles que, no Mundo, entram nas Cortes dos Reis nos dias de regozijo, ou que convidados para núpcias entram na sala do festim. 0 Anjo lhes disse: "Esperai aqui um pouco, eu vou tocar a trombeta, e aqueles que tem uma grande reputação de sabedoria nas cousas espirituais da Igreja virão aqui". Depois de algumas horas apareceram nove homens, coroados de louro em sinal de sua reputação; o Anjo os introduziu na sala da Assembléia, onde estavam presentes todos os que tinham sido precedentemente convocados; o Anjo, dirigindo em sua presença a palavra aos nove homens coroados de louro, disse: "Sei que, segundo vosso voto conforme à vossa idéia, vos foi dado subir ao Céu, e que voltastes a esta terra inferior ou subceleste, com um inteiro conhecimento do estado do Céu; contai portanto como vos pareceu o Céu". E eles responderam, um após outro; e o Primeiro disse: "A minha idéia sobre o Céu, desde minha infância até ao fim de minha vida no Mundo, tinha sido que era o lugar de todas as beatitudes, e de todas as diversões, prazeres, encantos e volúpias, e que se eu fosse admitido lá, eu me encontraria cercado pela atmosfera dessas' felicidades, e respiraria a plenos pulmões, como um noivo quando celebra suas núpcias, e entra com sua noiva no leito nupcial; com esta idéia eu subi ao Céu, e passei os primeiros guardas, e também os segundos, mas quando cheguei aos terceiros, o chefe dos guardas me dirigiu a palavra e me disse: "Quem és amigo?" E eu respondi: "Não é aqui o Céu?" Subi até aqui pelo voto do meu desejo; peço-te que me deixes entrar!" E ele me deixou entrar; e vi Anjos vestidos de branco, e eles me cercaram, e me examinaram, e disseram baixinho: "Eis um novo hóspede que não tem a vestimenta do Céu", e eu ouvi estas palavras e tive este pensamento: "Parece-me que se dá comigo como com aquele de quem o Senhor disse que tinha entrado no festim de núpcias, sem uma vestimenta nupcial; e disse: Dai-me vestimentas do Céu, eles, porém, se puseram a rir; e então acorreu um Anjo da Corte com esta ordem: "Tonham-no completamente nu, expulsai-o, e jogai suas roupas atrás dele''; e fui assim expulso. 0 Segundo em ordem disse: eu acreditava, como ele, que se fosse apenas admitido no Céu, que está acima da minha cabeça, as alegrias me cercariam e eu poderia gozá-las eternamente; obtive assim o que havia desejado; mas vendo-me os Anjos fugiram, e disseram entre si: "Que prodígio é este?'' Com efeito, senti uma mudança como se eu não fosse mais homem, ainda que eu não tivesse mudado; isso provinha, em mim, da atração da atmosfera celeste; mas em breve acorreu um Anjo da Corte com esta ordem, que dois servidores me fizessem sair e retornar ao caminho pelo qual eu tinha subido para me reconduzir à minha casa; e quando cheguei em casa, apareci aos outros e a mim mesmo como homem". 0 Terceiro disse: "A idéia do Céu era constantemente para mim uma idéia de lugar e não do amor; é por isso que, quando cheguei a este mundo, desejei com vivo ardor o Céu; e vi espíritos que subiam, e eu os segui, e fui admitido, mas não além de alguns passos; ora, quando quis alegrar minha mente (animus) com a idéia das alegrias e das beatitudes celestes, pela luz do Céu, que era branca como a neve, e cuja essência se diz ser a sabedoria, a minha mente foi tomada de estupor e por conseqüência os meus olhos foram cobertos de obscuridade, e eu comecei a ficar insensato; e em breve, pelo calor do Céu, que correspondia à brancura resplandecente desta luz, e cuja essência se diz ser o amor, meu coração palpitou, a ansiedade se apoderou de mim, e fiquei atormentado por uma dor interior, e me lancei por terra, estendido sobre o dorso; e, enquanto estava assim deitado, um guarda veio da Corte com a ordem de me fazer transportar docemente para a minha luz e o meu calor; quando para aí voltei, o meu espírito e o meu coração me voltaram". 0 Quarto disse: "Eu também, a respeito do Céu, estava na idéia do lugar e não da idéia do amor, e desde que cheguei ao Mundo espiritual, perguntei aos sábios se era permitido subir ao Céu; eles me disseram que isso era permitido a cada um, que era preciso tomar cuidado para não ser expulso; esta resposta me fez rir, e eu subi, acreditando, eu como os outros, que todos no Mundo inteiro podem receber as alegrias do Céu em sua plenitude; mas com efeito desde que entrei me achei quase sem vida, e não podendo suportar a dor e o tormento que sentia na cabeça e no corpo, me lancei por terra, e rolava como uma serpente aproximada do fogo, e rastejei até a um precipício e me lancei nele; e em seguida fui levantado pelos que estavam em baixo, e levado para uma hospedaria, onde a saúde me foi restabelecida". Os cinco outros contaram também cousas admiráveis que lhes tinham acontecido quando subiram ao Céu; e comparavam as mudanças de estado de sua vida com o estado dos peixes tirados da água para o ar, e com o estado dos pássaros no éter; e disseram que depois dessas duras provas não tinham mais desejado o Céu, mas unicamente uma vida conforme à dos seus semelhantes, em qualquer lugar que fosse; acrescentaram: "Sabemos que no Mundo dos espíritos, onde estamos, todos são preparados, primeiro, os bons para o Céu e os maus para o Inferno; e que, quando estão preparados vêem os caminhos abertos para eles em direção às Sociedades de seus semelhantes, com os quais devem permanecer durante a eternidade; e que então entram nesses caminhos com prazer, porque são os caminhos do seu amor". Todos os da primeira Convocação, ouvindo estas declarações, confessaram também que não tinham tido igualmente outra idéia do Céu senão como de um lugar, onde se saboreia de boca cheia durante toda eternidade alegrias de que se é inundado. Em seguida o Anjo da trombeta lhes disse: "Vedes agora que as Alegrias do Céu e a Felicidade eterna não pertencem ao lugar, mas pertencem ao estado de vida do homem; ora o estado da vida celeste vem do amor e da sabedoria; e como o uso é o continente de um e da outra, o estado da vida celeste vem da conjunção do amor e da sabedoria no uso; é o mesmo se se disser da Caridade, da Fé e da Boa Obra, pois a Caridade é o Amor, a Fé é a Verdade donde procede a Sabedoria, e a Boa Obra é o Uso; além disso, em nosso Mundo Espiritual há lugares como no Mundo Natural, de outra forma não haveria habitações nem moradas distintas; todavia, o lugar não e um lugar, mas é a aparência de um lugar segundo o estado do amor e da sabedoria, ou da caridade e da fé. Quem se torna Anjo carrega interiormente em si o seu Céu, porque carrega interiormente em si o amor de seu Céu, pois o homem por criação é uma pequenina efígie, a imagem e o tipo do grande Céu; a forma humana não é outra cousa; é por isso que cada um vem à sociedade do Céu, de que é a forma em uma efígie singular; é por isso que, quando entra nesta sociedade, entra em uma forma correspondente a si mesmo. Assim entra nesta sociedade como de si em si, e ela entra nele como dela nela, e tira a vida desta sociedade como sendo dele, e tira a sua como sendo desta sociedade; cada sociedade é como um Comum, e os Anjos aí estão como partes singulares pelas quais coexiste o Comum. Resulta, portanto dai que os que estão nos males e por conseguinte nos falsos formaram em si uma efígie do Inferno, e esta efígie é atormentada no Céu pelo influxo e a violência da atividade do oposto contra o oposto, pois o amor infernal é oposto ao amor celeste, e por conseguinte os prazeres destes dois amores combatem um contra o outro como inimigos, e se matam quando se encontram".