- Primeiro Memorável: Um dia em que eu meditava sobre o Amor Conjugal, minha mente foi tomada pelo desejo de saber o que tinha sido este Amor nos que viveram no Século do Ouro, e o que tinha sido nos que viveram nos Séculos seguintes, chamados Século da Prata, do Bronze e do Ferro: e como eu sabia que todos os que viveram bem naqueles Séculos estão no Céu, pedi ao Senhor para que me fosse permitido conversar e me instruir com eles: e eis que um anjo se apresentou a mim, e me disse: "Fui enviado pelo Senhor para te servir de guia e de companheiro de viagem; e primeiramente, te conduzirei e te acompanharei aos que viveram na Primeira Idade ou Primeiro Século, que é chamado Século de Ouro"; e disse: "0 caminho que conduz a eles é escarpado; passa por uma floresta espessa que ninguém pode atravessar sem o socorro de um guia dado pelo Senhor". Eu estava em espírito e me preparei para a viagem e voltamos a face para o Oriente, e avançando vi uma Montanha cuja altura ia além da região das nuvens. Atravessamos um grande deserto, e chegamos a uma Floresta formada de diferentes espécies de árvores, cuja espessura produzia uma grande obscuridade; era a Floresta de que o Anjo tinha falado, mas era cortada por várias picadas estreitas e o Anjo me disse que eram outros tantos labirintos de erros, e que se o viajante não tivesse os olhos abertos pelo Senhor, e não visse Oliveiras cercadas de ramos de vinha, e não fosse de Oliveira em Oliveira, iria se lançar nos Tártaros que estão nos arredores sobre os lados; esta Floresta é assim disposta com o fim de defender a passagem; pois nenhuma outra Nação que não seja a da Primeira Idade habita esta Montanha. Quando entramos na Floresta, os nossos olhos foram abertos, e vimos aqui e ali Oliveiras cercadas de cepas, donde pendiam cachos de uvas de uma cor azul celeste, e as Oliveiras por sua disposição formavam curvas contínuas, nós também fizemos voltas e voltas seguindo sua direção; e enfim vimos um Bosque formado de Cedros elevados, e em seus galhos algumas Águias. A esta vista, o Anjo disse: "Agora estamos na Montanha, não muito longe de seu Cume". E continuamos a caminhar; e eis que depois do Bosque uma Planície de uma extensão circular, onde pastavam Cordeiros e Ovelhas novas, que eram formas representativas do estado de inocência e de paz dos Habitantes da Montanha. Atravessamos esta Planície; e eis, Tabernáculos e mais Tabernáculos em número de vários milhares, se apresentavam a nossos olhos, adiante e dos lados, tanto quanto a vista podia abranger; e o Anjo disse: "Agora, estamos no Acampamento; lá está o Exército do Senhor Jehovah; é assim que eles se chamavam, a eles e a suas habitações; quando estavam no Mundo, estes Antiqüíssimos habitavam em Tabernáculos; é por isso também que habitam assim agora; mas prossigamos o nosso caminho para o Sul, onde estão os mais sábios dentre eles, a fim de encontrar algum com quem conversemos". Caminhando vi ao longe três rapazinhos e três meninas, que estavam sentados à porta de Uma Tenda; mas uns e outros, quando nos aproximamos, foram vistos como homens e mulheres de uma estatura média; e o Anjo disse: "Todos os habitantes desta Montanha aparecem de longe como Crianças, porque estão em um estado de inocência, e a Infância é a aparência da inocência". Logo que estes homens nos viram, acorreram e disseram: "Donde sois? e como viestes aqui? As vossas faces não são faces da nossa Montanha". Mas o Anjo respondeu e contou como a entrada pela Floresta nos tinha sido permitida, e porque tínhamos vindo. Depois de ter ouvido esta explicação, um dos três Homens nos convidou a entrar em seu Tabernáculo e nos introduziu nele: 0 Homem estava vestido com um manto de cor de jacinto e com uma túnica de lã branca, e sua Esposa estava vestida com um vestido de púrpura, e por baixo uma túnica de fino linho, bordada a agulha lhe cobria o peito; e como havia no meu pensamento o desejo de conhecer os Casamentos dos Antiqüíssimos, eu olhava alternativamente para o Marido e para a Esposa; e percebi, por assim dizer, a unidade de suas almas sobre suas faces, e disse: "Vós dois, sois um". E o Homem respondeu: "Nós somos um; a sua vida está em mim, e a minha vida está nela; nós somos dois Corpos, mas uma única Alma; a união entre nós é como a que existe no Peito entre as duas tendas que se chamam o Coração e o Pulmão, ela é meu Coração, e eu sou o seu Pulmão; mas como pelo Coração nós entendemos aqui o Amor e pelo Pulmão a Sabedoria, ela é o Amor da minha sabedoria, e eu sou a Sabedoria do seu amor; é por isso que por fora o seu amor vela a minha sabedoria, e por dentro a minha sabedoria está em seu amor; é daí que a unidade de nossas Almas se mostra sobre nossas faces, como o disseste". E então, lhe fiz esta pergunta: "Se tal é a união, será que podes contemplar uma outra mulher além da tua?" E ele respondeu: "Eu o posso; mas como minha Esposa está unida à minha Alma, nós a contemplamos os dois juntos, e então nada de libidinoso pode penetrar; pois quando vejo as esposas dos outros, eu as vejo por minha Esposa a quem eu amo unicamente; e, como tem ela a percepção de todas as minhas inclinações, ela dirige, como intermediária, os meus pensamentos; afasta tudo que é discordante, e introduz ao mesmo tempo frieza e horror por tudo que é incasto; é por isso que aqui nos é tão impossível olhar para a Esposa de um outro com desejo libidinoso, como é impossível das trevas do Tártaro, encarar a luz de nosso Céu; por isso também não existe entre nós nenhuma idéia do pensamento, nem com mais forte razão nenhuma expressão da linguagem, para os atrativos de um amor libidinoso". Ele não pôde pronunciar a palavra escortatório, porque a castidade de seu Céu a isso se opunha. Então o Anjo que me servia de guia me disse: "Compreendes agora que a linguagem dos Anjos deste Céu é a linguagem da sabedoria, pois eles falam segundo as causas". Depois disso dirigi o olhar em torno de mim, e vi seu Tabernáculo como coberto de ouro, e perguntei donde provinha isso. Ele respondeu: "Isto provém de uma luz inflamada que brilha como ouro, e que ilumina com seus raios e incide levemente sobre os pavilhões de nosso Tabernáculo, quando falamos sobre o Amor Conjugal; pois o Calor de nosso Sol que em sua essência é o Amor, se põe então a nu, e tinge com sua cor de ouro a luz, que em sua essência é a Sabedoria; e isso acontece, porque o Amor Conjugal, em sua origem, é o jogo da Sabedoria e do Amor; pois o Homem nasceu para ser sabedoria, e a Mulher para ser amor da sabedoria do homem; daí provêm as delícias deste jogo no Amor conjugal e por este Amor, entre nós e nossas esposas. Nós aqui vimos claramente, desde milhares de anos, que estas delícias, quanto à sua abundância, a seu grau e a sua vontade, aumentam e se elevam em razão do culto que prestamos ao Senhor Jehovah, de quem influi esta união celeste ou este Casamento celeste, que é o do Amor e da Sabedoria". Depois que assim falaram, vi uma grande luz sobre a colina na parte do meio, entre os Tabernáculos; e me informei de onde vinha essa luz. Ele disse: "É do Santuário do Tabernáculo de nosso Culto". E perguntei se era permitido aproximar-me; e ele, disse: "Isso é permitido". E aproximei-me, e vi um Tabernáculo inteiramente semelhante, por fora e por dentro, à descrição do Tabernáculo que foi construído no deserto pelos filhos de Israel, e cuja forma tinha sido mostrada a Moisés no Monte Sinai. (Êxodo XXV, 40; XXVI, 30). E perguntei o que havia no interior daquele santuário, que produzia uma tão grande luz. E ele respondeu: "É uma Mesa sobre a qual há esta inscrição: Aliança entre Jehovah e os Céus". E não disse mais a respeito. E como então nós nos dispúnhamos a nos retirar, lhe fiz esta pergunta: "Alguns de vós, quando estáveis no Mundo natural, viveram com mais de uma esposa?'' Ele respondeu: "Nenhum, que eu saiba; pois nós não podíamos pensar em várias; os que tinham pensado nisso nos tinham dito que imediatamente as beatitudes celestes de suas almas se tinham retirado dos íntimos para os extremos de seus corpos até às unhas, e com elas ao mesmo tempo tudo o que há de louvável na virilidade; esses, desde que se tinha a percepção disso, eram expulsos de nossas terras". Depois de ter pronunciado estas palavras, o marido correu a seu Tabernáculo, e voltou com uma Romã que continha em abundância grãos de ouro; e ele m'a deu, e eu a levei; era para mim um sinal de que tínhamos estado com os que viveram no Século de ouro. E então, depois da saudação de paz, nós nos retiramos, e voltamos para casa.
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