- Ao que precede ajuntarei dois Memoráveis:
Primeiro Memorável: Algum tempo depois, dirigi o olhar para a Cidade de Atenas, da qual se disse alguma cousa em um Memorável precedente, e ouvi, proveniente de lá, um clamor extraordinário; havia nesse barulho alguma cousa do riso, no riso alguma cousa da indignação, e na indignação alguma cousa da tristeza; entretanto, nem por isso esse clamor era dissonante, mas havia consonância, porque não era um som com um outro, mas era um som dentro do outro; no Mundo espiritual percebe-se distintamente no som a variedade e a mistura das afeições. Perguntei de longe o que era; e me disseram: "chegou uma mensagem do lugar onde aparecem primeiro os recém-vindos no Mundo Cristão, dizendo que lá tinham sabido de três recém-vindos, que no Mundo de onde chegaram acreditavam com todos os outros, que os que gozassem da ventura e da felicidade depois da morte estariam em um repouso completo sem trabalho algum, e que como as administrações, os empregos e as ocupações são trabalhos, haveria repouso em relação a esses encargos; e como estes três acabam de ser trazidos pelo nosso Emissário, e estão à parte e esperam, elevou-se um clamor e depois de se ter deliberado a respeito, decidiu-se que êles seriam introduzidos, não no Paladium sobre o Parnaso, como os precedentes, mas no grande Auditório, para aí tornar conhecidas as suas Novidades do Mundo Cristão; e alguns de nós fomos designados para introduzi-los com solenidade". Como eu estava em espírito, e como para os espíritos as distâncias são conforme os estados de suas afeições; e como então eu tinha a afeição de vê-los e de ouvi-los, eu me vi lá presente, e os vi introduzir e os ouvi falar. Os mais Antigos ou os mais Sábios se assentaram no Auditório dos lados, e todos os outros estavam no, meio; e diante destes havia um estrado; foi para aí que os três recém-vindos com a mensagem, acompanhados solenemente pelos mais jovens foram conduzidos passando pelo meio do Auditório; e quando se fez silêncio, eles foram saudados por um dos mais Antigos, e este lhes perguntou: "Que há de novo na terra?" E eles disseram: "Há muitas Novidades; mas diz, por favor sobre qual assunto". E o Antigo respondeu: "Que há de novo na terra a respeito de nosso mundo e do Céu?" E êles responderam: "Chegando recentemente a este Mundo, soubemos que aqui e no Céu há Administrações, Cargos, Funções, Comércios, Estudo de ciências e Ocupações admiráveis; e entretanto tínhamos acreditado que após a nossa emigração ou translação do Mundo natural para o Mundo espiritual, entraríamos em um repouso eterno sem trabalho algum; ora, que são as funções senão trabalhos?" 0 Antigo, lhes disse: "Será que por um repouso eterno sem trabalho algum entendestes uma eterna ociosidade, na qual estaríeis continuamente assentados e deitados, aspirando as delícias pelo peito, e sorvendo as alegrias pela boca?" A estas palavras, os três Recém-vindos sorrindo levemente disseram que se tinham figurado alguma cousa semelhante; e então lhes foi dada esta resposta: "0 que têm as alegrias e as delícias, e por conseguinte a felicidade, de comum com a ociosidade? Pela ociosidade a mente se abate e não se expande, ou antes o homem cai em um estado de morte e não é vivificado; suponha-se alguém sentado em completa ociosidade, com os braços cruzados, os olhos abaixados ou levantados, e suponha-se que esteja ao mesmo tempo cercado de uma atmosfera de alegria, não se apoderaria de sua cabeça e de seu corpo, um amolecimento profundo, a expansão vital da face não se extinguiria, e por fim, as fibras se relaxando, não cambalharia ele cada vez mais, até cair por terra? 0 que é que mantém em expansão e em tensão o sistema de todo o corpo, a não ser a contenção da mente (animus)? E de onde vem a contenção desta mente, a não ser das cousas a administrar e das ocupações, quando a gente se entrega a elas com prazer? Por isso vos ensinarei uma Novidade do Céu, é que lá há administrações, ministérios, tribunais grandes e pequenos, e também profissões e ocupações". Quando estes três recém-vindos souberam que no Céu havia Tribunais, grandes e pequenos, disseram: "Por que estes tribunais? Será que todos no Céu não são inspirados e conduzidos por Deus, e não sabem por conseguinte o que é justo e direito? Por que então há necessidade de juízes?" E o Sábio antigo respondeu: "Neste Mundo nos ensinam e nós aprendemos o que é o bem e o vero, e também o que é o justo e o eqüitativo, como no Mundo natural, e nós o aprendemos não imediatamente de Deus, mas mediatamente pelos outros; e todo Anjo do mesmo modo que todo homem, pensa o vero e faz o bem como por si mesmo; e isso é, conforme o estado do Anjo, misturado e não puro; e entre os Anjos há também simples e sábios; e os sábios devem julgar, quando os simples por simplicidade e por ignorância estão na dúvida sobre o justo ou dele se afastam. Mas vós, pois que sois recentemente chegados a este Mundo, segui-me à nossa cidade, se isso vos agrada, e nós vos mostraremos tudo". E saíram do Auditório, e alguns dos Antigos os acompanharam também; e a princípio entraram em uma vasta Biblioteca que era, segundo as ciências, dividida em Bibliotecas menores: os três recém-vindos, vendo tantos livros, ficaram muito admirados, e disseram: "Há também livros neste Mundo! onde se obtém o pergaminho e o papel? de onde tirais as penas e a tinta?" Os Anjos lhes responderam: "Nós percebemos que acreditáveis, no Mundo de onde viestes, que este Mundo é vazio, porque é espiritual; e se acreditáveis isso, é parque mantivestes a respeito do espiritual uma idéia abstrata no material; e o que é abstrato do material vos parecia como nada, assim como vazio; e entretanto aqui está a plenitude de todas as cousas; aqui todas as cousas são Substanciais e não materiais, e as cousas materiais tiram sua origem das substanciais; nós que estamos aqui somos homens espirituais, porque somos substanciais e não materiais; daí vem que aqui há em sua perfeição todas as coisas que estão no Mundo natural, mesmo livros e escritas, e muitas outras coisas ainda". Quando os três recém-vindos ouviram falar de co,usas Substanciais, pensaram que isso devia ser assim, tanto porque tinham visto os Livros escritos, como porque tinham ouvido esta sentença, que as matérias vêm origirináriamente das substâncias. A fim de que fossem ainda mais confirmadas nestas verdades, foram conduzidos às Moradas dos escreventes que copiavam exemplares de obras compostas pelos sábios da cidade, e êles examinaram as escritas, e ficaram admirados de as ver tão nítidas e tão brilhantes. Em seguida foram conduzidos aos Museus, Ginásios e Colégios, e aos lugares onde se realizavam seus Jogos Literários, alguns dos quais eram chamados jogos dos Helicônides, outros jogos dos Parsassides; outros, jogos dos Ateneides; e outros, jogos das Virgens da fonte; disseram-lhes que êstes são assim chamados, porque as Virgens significam as afeições das ciências, e que cada um tem inteligência segundo a afeição das ciências; os Jogos assim chamados eram exercícios e lutas espirituais. Em seguida foram conduzidos na cidade às casas dos Governadores, dos Administradores e de seus Funcionários, e por êstes às obras maravilhosas que são executadas de uma maneira espiritual por artistas. Depois que viram tudo, o Sábio antigo conversou de novo com êles sobre o Repouso eterno do trabalho, em que entram aqueles que gozam da beatitude e da felicidade depois da morte, e lhes disse: "0 Repouso eterno não é a ociosidade, porque da ociosidade resultam, para a mente, e por conseguinte para o corpo, o langor, o entorpecimento, o estupor, e o amolecimento, e isso é a morte e não a vida, e ainda menos a vida eterna, em que estão os Anjos do Céu; por isso o Repouso eterno é um repouso que expulsa estes inconvenientes e faz com que o homem viva; e não é outra coisa senão o que eleva a mente; é portanto um estudo e uma obra pelos quais a mente é excitada, vivificada e alegrada; e isso se faz segundo o uso pelo qual, no qual e para o qual se opera; daí vem que todo o Céu é considerado pelo Senhor como o continente dos usos; e cada Anjo é Anjo segundo o uso que faz; o prazer do uso o leva como uma corrente favorável arrasta o navio, e faz que esteja em uma paz eterna, e no repouso da paz; é assim que é entendido, o repouso eterno do trabalho. Que o Anjo seja vivificado segundo o estudo da mente pelo uso, isso é bem evidente em que cada Anjo tem o Amor conjugal com sua força, sua potência e suas delícias, segundo o estudo do uso real em que está". Depois que êstes três recém-vindos foram confirmados sobre êste ponto, que o repouso eterno é, não a ociosidade, mas o prazer de fazer alguma cousa que seja para o uso, algumas Virgens vieram com bordados e filé, obras de suas mãos, e lhes fizeram presente disso; e quando êstes espíritos noviços se retiraram, as Virgens cantaram uma ode, pela qual exprimiam com uma melodia angélica a afeição das obras do uso com seus encantos.
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