- Terceiro Memorável: Em seguida um Anjo me disse: "Segue-me para o lugar onde se grita: "Ó como são sábios!" e disse: "Verás prodígios de homens; verás faces e corpos, que são de homens, e entretanto não são de homens"; e eu disse: "São de bestas?" Respondeu: "Não são de bestas, mas são de homens-bestas, pois eles são tais, que não podem de modo algum ver se o vero é vero ou não, e entretanto, podem fazer que tudo o que querem seja vero; estes, entre nós, são chamados Confirmadores". E seguimos o Grito, e chegamos ao lugar; e eis, uma Assembléia de homens, e em torno da Assembléia uma multidão, e na multidão algumas pessoas de distinção, que, tendo ouvido que eles confirmavam tudo que diziam, e que, por uma aquiescência tão manifesta, lhes eram favoráveis, se voltaram e disseram: ''Ó como são sábios!" Mas o Anjo me disse: "Não vamos para perto deles, mas chamemos um da Assembléia": e chamamos um, e nos retiramos com ele à parte, e falamos de diversas cousas; e ele confirmava todas essas cousas, a ponto de aparecerem absolutamente como verdadeiras; e lhe perguntamos se ele podia também confirmar as cousas contrárias; e ele disse que o podia tão bem como para as precedentes; então disse abertamente e do fundo do coração: "0 que é o vero? Será que na natureza das cousas há outro vero que não seja o que o homem faz vero? Diz tudo que te agrada, e eu farei que seja vero", e eu disse: "Faz vero isto, que a Fé é o todo da Igreja"; e ele o fez com tanta destreza e habilidade, que os Eruditos que estavam em torno ficaram admirados e aplaudiram: depois, lhe pedi para fazer vero, que a Caridade é o todo da Igreja; e ele o fez; e em seguida, que a Caridade não pertence em cousa alguma à Igreja, e envolveu uma e outra proposição e as ornou com aparências, de sorte que os assistentes se olhavam entre si, e diziam: "Não está aí um Sábio?" E eu disse: "Não sabes que bem viver é a Caridade, e que bem crer é a Fé? Não é que aquele que vive bem, também crê bem, e que assim a fé pertence à caridade, e a caridade à fé? Não vês que isso é vero? Ele respondeu: "Farei isso vero, e verei"; e o fez, e disse: "agora eu vejo"; mas pouco depois ele fez que o contrário fosse vero, e então disse: "Vejo também que isso é vero"; a essas palavras, sorrimos e dissemos: "Não estão aí cousas contrárias? Como dois contrários podem ser vistos veros?" A isso ele respondeu muito indignado: "Vós estais no erro, um e outro é vero, pois que não há vero senão o que o homem faz vero". Perto de lá estava alguém, que no Mundo tinha sido Embaixador de primeira classe; ficou admirado do que acabava de ouvir, e disse: "Reconheço que há alguma cousa semelhante no Mundo, mas não obstante, tu desarrazoas; faz, se podes, que seja vero que a Luz é Obscuridade, e que a obscuridade é a Luz"; e ele respondeu: "Eu o farei facilmente; o que é a Luz e a Obscuridade, senão um Estado do Olhos? Não é que a luz é mudada em sombra quando o olho acaba de ser exposto aos raios do sol? Quem não sabe que então o olho é modificado, e que em conseqüência a luz aparece como sombra; e que vice-versa, quando o estado do olho volta, esta sombra aparece como luz? A Coruja não vê na obscuridade da noite como uma luz do dia, e a luz do dia como uma obscuridade de noite; e então o sol mesmo como um globo opaco e sombrio? Se o homem tivesse os olhos como a coruja, que chamaria ele luz, e que chamaria obscuridade? Então, o que é a luz, senão um estado do olho e se é somente um estado do, olho a Luz não é a Obscuridade, e a Obscuridade a Luz? Portanto um é vero e o outro é vero". Em seguida o Embaixador pediu ao Confirmador para fazer vero isto, que o corvo é branco, e não preto; e ele respondeu: "Eu o farei ainda facilmente; e disse: "Toma uma agulha ou uma faca, e abre as asas e as penas do corvo, não são elas brancas por dentro? Depois afasta as asas e as penas, e examina o Corvo pela pele, não é ele branco? O que é o preto que o cerca, senão uma sombra pela qual, não se deve julgar a cor do Corvo. Que ,o preto não seja senão a sombra, consulta aqueles que possuem a Ciência da ótica, e eles to dirão; ou antes, pulveriza uma pedra preta, ou o vidro preto e veras que seu pó é branco?" Mas, respondeu o Embaixador: "Não é que o Corvo aparece preto diante da vista?" "0 que! replicou o Confirmador, tu queres, tu que és um homem, pensar alguma cousa pela aparência! podes dizer, é verdade, pela aparência, que o Corvo é preto, mas não o podes pensar; assim, por exemplo podes dizer, pela aparência, que o Sol se levanta, sobe, desce e se deita, mas como tu és um homem, não podes pensá-lo, pois o Sol permanece imóvel, e a Terra gira; dá-se o mesmo com o Corvo, uma aparência, é uma aparência; diz tudo que quiseres, o, corvo é inteiramente branco; e branqueia também quando se torna velho, é o que eu vi". Em seguida lhe pedimos para dizer do fundo do coração se estava brincando, ou se acreditava que não há vero senão o que o homem faz vero; e ele respondeu: Juro que o creio". Depois disso o Embaixador lhe fez esta pergunta: "Podes fazer vero isto, que és louco?" e ele disse: "Eu o poderia, mas não o quero; quem é que não é louco?" Depois desta conversa, este Confirmador universal foi enviado aos Anjos, a fim de que examinassem o que ele era; e, depois de o terem examinado, disseram que ele não possuía nem mesmo um grão de entendimento, porque tudo que está acima do racional estava fechado nele, e que nele não havia aberto senão o que está abaixo do racional; acima do Racional está a Luz celeste, e abaixo do Racional está a Luz natural, e no, homem esta é tal que ele pode confirmar tudo que lhe agrada; mas se a Luz celeste não influi na Luz natural, o homem não vê se o que é vero é vero, nem por conseqüência também se o que é falsa é falso; ora, ver um e outro depende da luz celeste na luz natural; e a luz celeste vem do Deus do Céu, que é o Senhor; é por isto que este confirmador universal não é nem homem nem besta; mas é besta-homem. Perguntei ao Anjo qual era a sorte destes confirmadores, e se podiam estar com os vivos, pois que a vida está no homem pela Luz celeste, e seu entendimento vem desta luz; e ele me disse que estes confirmadores, quando estão sós, não podem pensar cousa alguma, nem por conseqüência dizer coisa alguma, mas ficam de pé mudos como máquinas, e como que mergulhados em um profundo sono, mas despertam desde que alguma coisa atinja seus ouvidos; e acrescentou que tais se tornam aqueles que são intimamente maus; a luz celeste não, pode influir neles pela porta superior, mas influi unicamente pelo Mundo algum espiritual, de onde lhes vem a faculdade de confirmar. Depois destas explicações ouvi uma voz vinda dos Anjos que o haviam examinado, dizendo: "Faz de tudo que ouviste uma Conclusão geral": e fiz esta: "Poder confirmar tudo que agrada não é obra de um homem inteligente, mas poder ver que o que é vero é vero e o que é falso é falso, e confirmá-lo, é obra de um homem inteligente". Dirigi em seguida meu olhar para a Assembléia onde estavam os Confirmadores; e em torno deles a multidão gritava: "Ó como são sábios!" e eis que uma nuvem sombria os envolveu, e na Nuvem voavam corujas e morcegos; e me foi dito: "As corujas e os morcegos que voam na nuvem preta são correspondências e por conseguinte aparências dos pensamentos destes Confirmadores; pois as confirmações das falsidades, ao ponto de aparecerem como verdades, são representadas neste Mundo sob formas de pássaros noturnos, cujos olhos são iluminados por dentro por uma luz quimérica, pela qual vêem os objetos nas trevas como em uma luz; uma tal luz quimérica espiritual está naqueles que confirmam os falsos a ponto, de vê-lo: como veros, e em seguida, de dizê-los e crê-los como veros; todos estes estão na visão posterior, e não estão em vista alguma anterior.
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