- Depois de ter visto e estes tristes e hediondos espetáculos, dirigi o olhar em torno de mim, e vi não longe de mim dois Anjos de pé, e conversando um com o outro, um estava vestido com uma vestimenta de lã resplandecente de uma cor própria inflamada, e havia sobre esta vestimenta uma túnica de linho de uma brancura deslumbrante; o outro tinha vestimenta semelhante em escarlate, com uma tiara, cujo lado direito era enriquecido com alguns carbúnculos; aproximei-me deles, e lhes dei a saudação de paz; e lhes fiz com tom respeitoso esta pergunta: "Por que estais aqui em baixo?" Responderam: "Descemos do Céu para aqui por ordem do Senhor, para Conversarmos contigo sobre a sorte feliz daqueles que querem dominar pelo amor dos usos; nós somos adoradores do Senhor; eu, Príncipe de uma Sociedade; ele, Sumo Sacerdote da mesma Sociedade". E o Príncipe disse que era o servidor de sua Sociedade, porque a servia fazendo usos; e o outro disse que era o ministro da Igreja, porque servia seus consociados fazendo-os conhecer as cousas santas para os usos de suas almas; que estavam os dois nas alegrias perpétuas provenientes da felicidade eterna pelo Senhor; e que nesta Sociedade tudo é resplandecente e magnífico, resplandecente pelo ouro e pelas pedras preciosas, e magnífico pelos palácios e pelos paraísos; e acrescentaram: "Isto provém de ser o nosso amor de dominar procedente não do. amor de si, mas do amor dos usos; e como o amor dos usos vem do Senhor, é por isso que todos os bons usos nos Céus resplandecem e brilham com esplendor; e como em nossa Sociedade, estamos todos nesse amor, é por isso que a atmosfera aí aparece da cor do ouro pela luz que lá participa do inflamado do Sol, e o inflamado do Sol corresponde a este amor". Depois que pronunciaram estas palavras, vi também em torno deles uma semelhante esfera; e lhes disse mesmo, e lhes pedi para acrescentarem alguma cousa mais ao que haviam dito do amor do uso; e eles continuaram, dizendo: "As dignidades em que estamos, nós as ambicionamos, é verdade, mas não foi por nenhum outro fim senão o de poder fazer usos mais plenamente e estendê-los mais largamente; e somos mesmo cercados de honras, e as aceitamos, não por nós, mas para o bem da Sociedade; pois os nossos confrades e consociados que são do povo não sabem outra cousa senão que as honras de nossas dignidades estão em nós, e que em conseqüência os usos que fazemos são nossos; mas nós, sentimos diferentemente, sentimos que as honras das dignidades estão fora de nós, e que são como vestimentas de que estamos revestidos, mas os usos que desempenhamos procedem do amor dos usos em nós pelo Senhor; e este amor recebe sua beatitude da comunicação com outros por meio dos usos; e sabemos pela experiência que quanto mais fazemos os usos pelo amor dos usos, tanto mais este amor cresce, e com o amor a sabedoria pela qual se faz a comunicação; mas quanto mais retemos em nós os usos e não os comunicamos, tanto mais perece a beatitude; e então o uso se torna como um alimento encerrado no estômago, e que, não tendo sido dispersado aqui e ali, não alimenta o corpo nem as partes do corpo, mas fica sem ser digerido, donde resultam os vômitos; em uma palavra, todo o Céu não é senão o continente do uso desde seus primeiros até seus últimos; o que é o uso senão o amor efetivo do próximo? E o que é que mantém os Céus senão este amor?" Depois de ter ouvido estas explicações, lhes fiz esta pergunta: "Como alguém pode saber se faz os usos pelo amor de si ou pelo amor dos usos? Todo homem, quer seja bom, quer seja mau, faz usos, e faz usos por um amor; suponhamos que no Mundo houvesse uma Sociedade inteiramente composta de diabos, e uma Sociedade inteiramente composta de Anjos; creio que os diabos, em sua sociedade, fariam pelo fogo do amor de si, e pelo esplendor de sua glória, tantos usos como os Anjos na sua; quem pode, portanto,, saber de que Amor e de que origem provém os usos?" A isto os dois Anjos responderam: "Os diabos fazem os usos para eles mesmos e pela reputação, a fim de serem elevados as honras, ou para adquirir riquezas, mas os Anjos fazem os usos, não por tais motivos, mas pelos usos por amor dos usos; o homem não pode discernir estes usos, Mas o Senhor os discerne; quem quer que crê no Senhor e foge dos males como pecados, faz os usos pelo Senhor; mas quem quer que não crê no Senhor e não foge dos males como pecados, faz os usos por si mesmo e para si mesmo; é esta a distinção entre os usos feitos pelos diabos e os usos feitos pelos Anjos". Os dois Anjos, tendo assim falado, foram embora; e de longe foram vistos transportados em um carro de fogo, como Elias, e elevados ao Céu.