- Ao que precede serão ajuntados dois Memoráveis.
Primeiro Memorável: Um dia, eu olhava por uma janela para o Oriente, e vi sete Mulheres sentadas sobre um canteiro de rosas perto de uma fonte, bebendo água; eu tinha o olhar muito atento para ver o que faziam, e essa tensão de minha vista as chocou, por isso uma delas me fez um convite por aceno; e eu saí de casa, e me aproximei às pressas; e quando cheguei perto, pergunteilhes com polidez donde elas eram; e disseram: "Somos Esposas, e conversamos aqui sobre as Delícias do amor conjugal, e por numerosas confirmações concluímos que estas delícias são também as delícias da sabedoria". Esta resposta agradou de tal modo a minha mente (animus), que me parecia estar em espírito, e por conseguinte em percepção, mais interiormente e com mais ilustração do que jamais tinha estado antes. Por isso, lhes disse: "Permiti-me fazer algumas perguntas sobre êsses encantos". E elas consentiram; e fiz esta pergunta: "Como vós, esposas, sabeis que as delícias do amor conjugal são as mesmas que as delícias da sabedoria?" Responderam: "Nós o sabemos pela correspondência da sabedoria nos maridos com as delícias do amor conjugal em nós; pois as delícias dêste amor em nós são exaltadas e diminuídas, e têm, absolutamente, sua qualidade segundo a sabedoria em nossos maridos". Depois de ter ouvido sua resposta, fiz uma outra pergunta, dizendo: "Sei que as palavras de doçura dos maridos e as palavras de alegria de sua mente vos afetam e que vós sentis em todo o peito grandes delícias; mas admiro-me de que digais que a sua sabedoria produz este efeito; dizei-me ao menos o que é a sabedoria, e que sabedoria. A estas palavras as esposas indignadas responderam: "Tu imaginas que nós não sabemos o que é a sabedoria, nem que sabedoria; e entretanto sobre ela em nossos maridos nós refletimos continuamente, e cada dia, de sua boca, nós aprendemos, pois nós, esposas, pensámos sobre o estado de nossos maridos desde a manhã até à noite; quando muito haverá uma hora durante o dia de interrupção, ou em que o nosso pensamento intuitivo se retira inteiramente dêles, ou na qual está ausente dêles; do seu lado, os maridos no decorrer do dia, pensam muito pouco sobre o nosso estado; daí vem que nós sabemos que sabedoria neles produz delícias em nós; esta Sabedoria, os maridos chamam sabedoria espiritual-racional e espiritual-moral; a Sabedoria espiritual-racional eles dizem que pertence ao entendimento e aos conhecimentos, e a Sabedoria Espiritual-moral eles dizem que pertence à vontade e à vida; mas êles conjugam as duas, e fazem delas uma só e decidem que os encantos desta sabedoria são transferidos de suas mentes como delícias para nosso peito, e do nosso para o seu peito, e assim voltam à sabedoria, sua origem". E então perguntei: "Sabeis alguma cousa mais sobre a sabedoria dos maridos que se torne delícias em vós?" Disseram: "Sim; há uma sabedoria espiritual, e em conseqüência uma sab,edoria racional e uma sabedoria moral; a sabedoria espiritual é reconhecer o Senhor Salvador por Deus do Céu e da terra, e aquirir d'Ele os veros da Igreja, o que se faz pela Palavra e pelas prédicas segundo a Palavra donde resulta a racionalidade espiritual; e viver por Ele segundo estes veros, donde resulta a moralidade espiritual; estas duas, a racionalidade espiritual e a moralidade espiritual, os maridos chamam Sabedoria, que produz em geral o amor verdadeiramente conjugal; aprendemos também com eles a causa, é que por esta sabedoria são abertos os interiores de sua mente, e em conseqüência os interiores de seu corpo, donde existe uma livre passagem desde os primeiros até aos últimos para a veia do amor, e é do afluxo, da suficiência e da virtude desta veia que depende e vive o amor conjugal. A sabedoria espiritual-racional e moral de nossos maridos, especialmente quanto ao casamento tem por fim e por alvo amar uma única esposa, e se despojar de toda cobiça pelas outras; e quanto mais isso se dá, tanto mais este amor é exaltado quanto ao grau, e aperfeiçoado quanto à qualidade, e tanto mais também sentimos em nós, de uma maneira mais distinta e mais delicada, as delícias que correspondem aos prazeres das afeições e aos encantos dos pensamentos de nossos maridos". Em seguida perguntei se elas sabiam como se faz a comunicação. Disseram: "Em toda conjunção por amor, deve haver ação, recepção e reação; o estado delicioso de nosso amor é o agente ou a ação, o estado da sabedoria dos maridos é o recipiente ou a recepção, e é também o reagente ou a reação segundo a percepção; e esta reação é percebida por nós com delícias no peito segundo o estado continuamente tenso e preparado para receber estas cousas, que, de algum modo, são coerentes com a virtude nos maridos, por conseqüência também com o estado extremo do amor em nós, e que dêle procede". Além disso, disseram: "Guarda-te de entender pelas delícias, de que acabamos de falar, as delícias finais deste amor; desta nós jamais dizemos alguma cousa, mas falamos de nossas delícias peitorais, de que existe uma perpétua correspondência com o estado da sabedoria de nos os maridos". Depois disso, apareceu de longe como uma Pomba que voava com uma folha de árvore no bico; mas quando se aproximou, em lugar de uma pomba, viu-se um menino com um papel na mão; e avançou para nós, e apresentou m'o, e disse: "Lê-o diante destas Virgens da fonte". E li isto: "Diz aos habitantes da terra com quem estás, que há um amor verdadeiramente conjugal, cujas delícias são por miríades; o mundo, até ao presente, conhece apenas algumas delas; mas as conhecerá porque a Igreja noiva com o Senhor e se casa". E então fiz esta pergunta: "Por que êste menino vos chamou Virgens da fonte?" Responderam: "Somos chamadas Virgens quando estamos sentadas nesta fonte, porque somos as afeições das verdades da sabedoria de nossos maridos, e a afeição do vero é chamada Virgem; a fonte também significa o vero da sabedoria, e o canteiro de rosas sobre o qual estamos sentadas significa as suas delícias". Então uma das sete fêz uma grinalda de rosas, e espargiu-a com a água da fonte, e a colocou sobre o boné do menino em torno de sua cabecinha, e disse: "Recebe as delícias da inteligência; sabe que o boné significa a inteligência, e esta grinalda de rosas as delícias". E o menino assim decorado, foi embora; e de longe foi visto de novo como uma pomba que voava, mas com uma coroa sobre a cabeça.
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