- Ao que precede ajuntarei dois Memoráveis. Primeiro Memorável: Depois que o Problema sobre a Alma foi discutido e resolvido no Ginásio, vi sair em ordem os membros da Assembléia, e na frente dêles o Grão-Mestre, depois dêle os Anciãos, no meio dos quais estavam os cinco jovens que tinham respondido, e depois deles os outros; e depois que saíram, retiraram-se para os lados em torno da casa, onde havia passeios cercados de arbustos, e, tendo se reunido aí, se dividiram em pequenos grupos, formando outras tantas companhias de jovens que discorriam juntos sobre assuntos de sabedoria; em cada grupo havia um dos Sábios da Orquestra. Tendo-os visto do meu alojamento, torneí-me em espírito, e saí em espírito em direção a eles, e me aproximei do Grão-Mestre que tinha proposto o problema sobre a Alma. Quando este me viu, disse-me: "Estou muito admirado; desde que te vi no caminho, te aproximando, ora caías sob a minha vista, e ora me escapavas, ou ora eu te via, e de repente não te via mais; certamente não estás no estado de vida dos nossos! A isto respondi sorrindo: "Não sou nem um bufão, nem um vertunno, mas estou alternadamente, ora na vossa luz e ora na vossa sombra, por conseguinte estranho aqui e também indígena". A esta resposta o Grão-Mestre me encarou e me disse: "As tuas palavras são estranhas e surpreendentes; diz o que és"; e eu disse: "Estou no Mundo onde estivestes, e de onde saistes, que é o Mundo Natural, e estou também no Mundo para onde viestes e onde estais, que é chamado Mundo Espiritual; daí vem que estou no estado natural, e ao mesmo tempo no estado espiritual; no estado Natural com os homens da terra, e no estado espiritual convosco, e quando estou no estado natural, não sou visível por vós; mas quando estou no estado espiritual, me torno visível; se sou assim, isso me foi dado pelo Senhor; quanto a ti, Homem ilustrado, tu sabes que o homem do Mundo natural não é o homem do Mundo espiritual, e vice-versa; por isso quando eu mergulhava meu espírito no corpo, eu não era visível para ti, mas quando eu o retirava do corpo, me tornava visível; tu ensinaste também no Ginásio, que vós sois alma, e que as almas vêem as almas, porque são formas humanas; sabes que vós não vos vistes, ou não vistes as vossas almas em vossos corpos, quando estáveis no Mundo natural; e isso existe por causa da diferença que há entre o Espiritual e o Natural". Logo que ouviu falar da diferença entre o Espiritual e o Natural, ele disse: "Não é como o que é mais puro e o que é menos puro? assim, o que é o Espiritual senão um Natural mais puro?" E respondi: "Tal não é a diferença; mas é como a diferença entre o anterior e o posterior, entre os quais não há razão finita, pois o anterior está no posterior como a causa no efeito, e o posterior vem do anterior como o efeito vem da causa; é por isso que um não aparece ao outro". Então o Grão-Mestre disse: "Meditei e refleti sobre esta diferença, mas em vão até ao presente; oh! Como desejaria percebê-la!" Eu disse: "Não somente perceberás a diferença entre o Espiritual e o Natural, mas a verás mesmo". E então lhe falei assim: "Tu estás no estado espiritual quando estás entre os teus, mas no estado natural quando estás comigo, pois com os teus falas a Língua espiritual que é comum a todo espírito e a todo Anjo, mas comigo falas a minha própria língua; pois todo Espírito e todo Anjo que fala com um homem fala a língua própria dêsse homem, assim a língua francesa com um Francês, e a inglêsa com um Inglês, a grega com um Grego, o árabe com um Arabe, e assim por diante. Afim, portanto, de que conheças a diferença entre o Espiritual e o Natural quanto às Línguas, faz assim: Volta para os teus, e lá pronuncia alguma cousa, e retém as suas palavras e volta com essas palavras na memória, e pronuncia-as diante de mim", e ele assim fêz, e voltou para mim com essas palavras na boca, e as pronunciou, e não compreendeu nenhuma delas; eram palavras inteiramente estranhas desconhecidas, que não existem em Língua alguma no Mundo natural; por esta experiência várias vêzes repetida, tornou-se evidente para ele que todos no Mundo Espiritual têm uma língua espiritual, que nada tem de comum com Língua alguma do Mundo natural, e que todo homem depois da morte entra por si mesmo nesta Língua espiritual; ele fêz também ao mesmo tempo a experiência de que o som mesmo da Língua espiritual difere de tal modo do som da Língua natural, que um som espiritual mesmo elevado, não era de modo algum ouvido pelo homem natural, nem um som natural pelo homem espiritual. Em seguida pedi ao Grão-Mestre e aos que o cercavam, que fossem para o meio dos seus, e escrevessem alguma sentença sobre um papel e a lêssem; eles assim o fizeram, e voltaram com o Papel na mão, mas quando quiseram lê-lo, não puderam compreender cousa alguma, porque a Escritura não se compunha senão de algumas letras alfabéticas com acentos em cima, das quais cada uma significava algum sentido da cousa; pois que cada letra do alfabeto significa lá algum sentido, vê-se claramente por que o Senhor é chamado o Alfa e o Ômega; como estes repetidamente entravam, escreviam e voltavam, descobriram que esta Escritura envolvia e continha coisas inúmeras, que nenhuma Escritura natural jamais poderia exprimir; mas lhes foi dito que isto é assim, porque o homem espiritual pensa coisas incompreensíveis e inefáveis para o homem natural, e estas cousas não podem influir nem ser postas em uma outra Escritura, nem em uma outra Língua. Então como os assistentes não queriam compreender que o pensamento espiritual ultrapassa o pensamento natural, a ponto de ser relativamente inefável, eu lhes disse: "Fazei uma experiência; entra! em vossa Sociedade espiritual, e pensai uma coisa qualquer, e retendê-la, e voltai e a exprimi diante de mim", e eles entraram, pensaram, a retiveram, voltaram, mas quando quiseram exprimir a cousa pensada, não puderam; com efeito, não encontraram idéia alguma do pensamento natural adequada a uma única idéia do pensamento puramente espiritual, assim palavra alguma para exprimi-la, pois as idéias do pensamento tornamse as palavras da linguagem; e então reentravam e voltavam e se confirmavam que as idéias espirituais eram absolutamente sobrenaturais, inexprimíveis, inefáveis e incompreensíveis para o homem natural; e por que são tão sobreeminentes, diziam que as idéias ou os pensamentos espirituais, relativamente aos naturais, eram as idéias das idéias, e os pensamentos dos pensamentos, que por isso mesmo, por elas eram expressas as qualidades das qualidades e as afeições das afeições; que por conseguinte, os pensamentos espirituais eram os começos e as origens dos pensamentos naturais; por isso tornou-se ainda evidente que a sabedoria espiritual era a sabedoria da sabedoria, por conseqüência não perceptível para sábio algum do Mundo Natural. Então lhes foi dito do Terceiro Céu, que há ainda uma sabedoria interior ou superior, que é chamada celeste cuja relação com a sabedoria espiritual é semelhante à relação desta com a sabedoria natural, e que estas sabedorias, em ordem segundo os Céus, influem da Divina Sabedoria do Senhor, que é Infinita. (*) Divindade romana que tinha a faculdade de mudar de forma. (Nota do tradutor).