- Ao que precede ajuntarei dois Memoráveis. Primeiro Memorável. Um dia, eu me achava no meio de Anjos, e ouvi sua conversação; a sua conversação era sobre a Inteligência e sobre a Sabedoria; diziam que o homem não sente e não percebe outra coisa senão que elas estão uma e outra nêle, e que assim tudo o que pensa pelo entendimento e se propõe pela vontade vem dêle, enquanto que, entretanto, do homem não vem a menor cousa disso, exceto a faculdade de receber de Deus as cousas que pertencem ao entendimento e à vontade; e, como todo homem por nascimento é inclinado a se amar, então a fim de que o homem não pereça pelo amor de si e pelo fasto da própria inteligência, foi provido por criação a que êste amor do marido fosse transferido para a esposa, e que por nascimento fosse implantado nesta o amor da inteligência e da sabedoria de seu marido, e assim do marido; é por isso que a esposa atrai a si continuamente o fasto da própria inteligência de seu marido, e o extingue nele e o vivifica nela, e assim o muda em amor conjugal, e o enche de encantos além de toda medida; foi provido a isso pelo Senhor, a fim de que o fasto da própria inteligência não enfatue o marido, a ponto de crer ser inteligente o sábio por si mesmo e não pelo Senhor, que assim queira comer da árvore da ciência do bem e do mal, e em conseqüência se crer semelhante a Deus, e também Deus, como a serpente, que era o amor da própria inteligência, o disse e o persuadiu; é por isso que o homem, depois de ter comido dela, foi expulsão do Paraíso, e o caminho para a Arvore da vida foi guardado por um Querubim. 0 Paraíso, espiritualmente entendido, é a inteligência; comer da árvore da vida, no sentido espiritual, é ser inteligente e sábio pelo Senhor; e comer da árvore da ciência do bem e do mal, no sentido espiritual, é ser inteligente e sábio por si mesmo.