- VIII. 0 Amor escortatório faz cada vez mais o homem (homo) não homem (homo) e o varão não varão (vir), e o Amor conjugal faz o homem (homo) cada vez mais homem (homo) e varão (vir).
Que o Amor conjugal faça o homem, é o que ilustram e confirmam todas as cousas que foram demonstradas com luz diante da razão na Primeira Parte deste Tratado sobre o Amor e as delícias de sua sabedoria; por exemplo: 1º. Que aquele que está no Amor verdadeiramente conjugal se torna cada vez mais espiritual, e quanto mais alguém é espiritual, tanto mais é homem (homo) . 2º. Que se torna cada vez mais sábio, e quanto mais alguém é sábio, mais é homem (homo). 3º. Que nele estão cada vez mais abertos os interiores da mente, de tal modo que ele vê ou reconhece intuitivamente o Senhor, quanto mais alguém está nesta vista ou neste reconhecimento, tanto mais é homem. 4º. Que se torna cada vez mais moral e civil, porque há uma alma espiritual em sua moralidade e em sua civilidade, e quanto mais alguém é moralmente civil, tanto mais é homem. 5º. Que se torna por isso um Anjo do Céu depois da morte; e o Anjo por essência e por forma é homem, e por isso o homem real brilha em sua face por sua linguagem e por seus costumes; por isto vê-se que o Amor conjugal faz o homem (homo) cada vez mais homem (homo). Que seja o contrário para os adúlteros, a oposição mesma do adultério e do casamento, de que se tratou neste Capítulo, e de que ainda se trata, o prova claramente; por exemplo: 1º. Pelo fato de que os adultérios não são espirituais, mas são extremamente naturais; ora, o homem natural, separado do homem espiritual, é homem únicamente quanto ao entendimento, mas não quanto à vontade; ele a mergulha no corpo e nas cobiças da carne, e no mesmo instante o entendimento o acompanha; que ele não seja senão um meio homem (homo), êle mesmo pela razão de seu entendimento, se o eleva, pode vê-lo. 2º. Que os adúlteros não são sábios em seus discursos e em seus gestos, senão quando estão em sociedade com pessoas eminentes em dignidade, celebres pela erudição e de costumes exemplares; porém, sós, em casa, eles são insensatos, considerando como nada as cousas Divinas e as cousas Santas da Igreja, e maculando os princípios morais da vida com cousas impudicas e incastas, é o que será provado no Capítulo sobre os Adultérios; quem é que não vê que tais saltimancos são homens somente quanto à figura externa, e não homens quanto à forma interna? Que os adúlteros se tornam cada vez mais não homens, é o que eu vi com os meus próprios olhos, no inferno, o que foi para mim uma confirmação evidente; pois lá há demônios que, quando são vistos à luz do Céu, aparecem como tendo a face coberta de pústulas, o corpo encurvado, a voz rouca e os gestos de saltimbancos. "É preciso, porém, que se saiba que tais são os adúlteros de propósito determinado e por confirmação, mas não os adúlteros sem deliberação; pois há quatro gêneros de adúlteros, de que se tratará no Capítulo concernente aos adultérios e seus graus; os adúlteros de propósito determinado são aqueles que o são pelo desejo libidinoso da vontade; os adúlteros por confirmação, aqueles que o são pela persuasão do entendimento; os adúlteros por deliberação, aqueles que o são pelos atrativos dos sentidos; e os adúlteros sem deliberação, aqueles que não têm a faculdade, ou não têm a liberdade de consultar o entendimento. Os dois primeiros gêneros de adúlteros são os que se tornam cada vez mais não homens; mas os dois últimos gêneros tornam-se homens à medida em que se retiram de seus erros; e em seguida se tornam sábios".
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