- Mas como esta verdade é contra a aparência, pode ser considerada como não merecendo confiança, a menos que seja demonstrada, e ela não pode ser demonstrada senão por cousas que o homem pode perceber pelos sentidos de seu corpo; por isso ela vai ser demonstrada por estas cousas. Há no homem cinco sentidos externos que se chamam o tato, o paladar, o olfato, o ouvido e a vista. O sujeito do Tato é a Pele, com que o homem é envolvido; a substância mesma e a forma mesma da pele faz com que ele sinta as cousas que aí são aplicadas; o sentido do tato não está nas cousas que são aplicadas, mas está na substância e na forma da pele, as quais são o sujeito; este sentido é unicamente a afeição do sujeito produzida pelas cousas que foram aplicadas. Dá-se o mesmo com o Paladar; este sentido é unicamente a afeição da substância e da forma que pertencem à língua, a língua é o sujeito. Dá-se o mesmo com o Olfato; sabe-se que o odor afeta as narinas, e esta nas narinas, e que é a afeição das narinas segundo as cousas odoríferas que as tocam. Dá-se o mesmo com o Ouvido; parece que o ouvido está no lugar onde o som começa, mas o ouvido está na orelha, e é a afeição da substância e da forma da orelha; que o ouvido esteja à distância da orelha, está ai uma aparência. Dá-se o mesmo com a vista; quando o homem vê os objetos a uma distância, parece que a vista esteja lá, mas não obstante ela está no olho que é o sujeito, e semelhantemente ela é a afeição do sujeito; a distância vem unicamente do julgamento que conclui sobre o espaço pelos intermediários, ou pela diminuição e, por conseguinte pelo obscurecimento do objeto, cuja imagem se apresenta interiormente no olho segundo o ângulo de incidência; por isso é evidente que a vista não sai do olho para o objeto, mas que a imagem do objeto entra no olho e lhe afeta a substância e a forma; com efeito, dá-se com a vista como com o ouvido; o ouvido não sai tampouco da orelha para apreender o som, mas o som entra na orelha, e a afeta. Por estas explicações, pode-se ver que a afeição da substância e da forma, que faz os sentidos, não é alguma cousa separada do sujeito, mas que faz nele unicamente uma mudança, ficando então o sujeito como antes e depois; segue-se daí que a vista, o ouvido, o olfato, o paladar e o tato, não são alguma cousa de volátil efluindo de seus órgãos, mas que são os órgãos considerados em sua substância e em sua forma; quando a substância e a forma são afetadas, a sensação se produz.