- Mas como acontece que o Anjo perceba e sinta isso como seu, e assim receba e retenha, quando entretanto isso não lhe pertence, pois foi dito acima que o Anjo é Anjo não pelo que lhe pertence, mas pelas cousas que nele vêm do Senhor? É o que vai ser dito agora; eis o que é a cousa em si mesma: Há em cada Anjo uma Liberdade e uma Racionalidade; estas duas cousas estão nele a fim de que ele seja suscetível de receber o amor e a sabedoria que provém do Senhor; mas uma e outra, tanto a Liberdade como a Racionalidade, pertencem não a ele, mas ao Senhor nele; entretanto como estas duas cousas foram intimamente conjuntas à sua vida, e tão intimamente que se pode dizer juntas na vida (injucta vitae), é por isso que aparecem como suas próprias; por elas ele pode pensar, falar e agir, e aquilo que por elas pensa e quer, diz e faz, aparece como se fosse por ele mesmo; é isto que faz o recíproco, pelo qual há conjunção. Mas não obstante tanto quanto o Anjo crê que o amor e a sabedoria estão nele, e assim se lhes atribui como seus, tanto o Angélico não está nele, e tanto por conseguinte não há conjunção dele com o Senhor, pois não está na verdade; e como a verdade faz um com a luz do Céu, tanto ele não pode estar no Céu; pois por isso nega que vive pelo Senhor, e crê que vive por ele mesmo, por conseqüência que a Divina Essência é dele; é nestas duas cousas, a Liberdade e a Racionalidade, que consiste a vida que é chamada angélica e humana. Por estas explicações pode-se ver que o Anjo tem o recíproco para a conjunção com o Senhor, mas que o recíproco considerado em sua faculdade, pertence não a ele mas ao Senhor; dai vem que se ele abusa desse recíproco, pelo qual percebe e sente como seu o que é do Senhor, o que acontece quando se lho apropria, então decai do angélico. Que a conjunção seja recíproca, o Senhor o ensina em João 14º, 20 a 24 e 15º, 4, 5, 6; e que a conjunção do Senhor com o homem, e do homem com o Senhor, seja nas cousas que pertencem ao Senhor, as quais são chamadas suas palavras, vê-se em João 15º, 7.