- Aquèles que crêem na Divina operaçâo em cada cousa da natureza, podem, por um grande número de fatos que vèem na natu-reza, se confirmar pelo Divino, tanto e mesmo mais do que aquèles que se confirmam pela natureza; èstes, com efeito, que se confirmam pelo Divino prestam atenção às maravilhas que se percebe tanto nas produções dos vegetais como na dos animais. Nas produções dos vege-tais; no fato de que de uma muito pequena semente lançada na terra sai uma raiz, pela raiz um caule, e sucessivamente ramos, fôlhas, flòres, frutos, até novas sementes, absolutamente como se a semente soubesse a ordem de sucessão, ou o processo pelo qual deve se renovar; pode um homem racional pensar que o Sol, que é puro fogo, saiba isso, e que possa insinuar seu calor e a sua luz para fazerem isso, e que possa aí formar estas maravilhas, e ter em vista o usoP Quando o ho-mem, cujo Racional foi elevado, vê estas maravilhas e as examina, não pode fazer outra causa senão pensar que elas vêm d'Aquêle cuja Sabe-doria é infinita, por conseqiiência de Deus; os que reconhecem o Di-vino vêem também isso e o pensam, mas os que não o reconhecem, não o vêem e não o pensam, porque não o querem; e assim mergulham seu racional no sensual, que tira tôdas as suas idéias da luminosidade em que estão os sentidos do corpo, e confirmam as ilusões dos senti-dos, dizendo: Não se vê o Sol operar estas causas por seu calor e por sua luzP O que não se vê, o que vem a serP é alguma cousaP Os que se confirmam pelo Divino prestam atenção às maravilhas que vêem nas Produções dos animais; e para não falar aqui senão nas que estão nos Ovos, êles aí vêem o filhote escondido em seu germe ou comêço com tudo o que é necessário até à eclosão, e também com tudo o que concerne ao crescimento depois da eclosão até que se torne pássaro ou volátil na forma daquele que o engendrou; e se presta atenção à forma ela é tal, que não se pode, se pensar profundamente, deixar de ser tomado de surprêsa, descobrindo que nos menores dêstes voláteis como nos maiores, nos que são invisíveis como nos que são visíveis, há os 6rgãos dos sentidos, que são a vista, o ouvido, o olfato, o paladar e o tato; e os 6rgãos do movimento, que são os músculos, pois eles voam e andam; como também as vísceras em tôrno do coração e do pulmão, que são postas em atividade por seus cérebros; que vis insetos gozem também destas cousas, isto é sabido por sua anatomia, descrita por vá-rios sábios, sobretudo por SwammercTam em suas Bíblias da natureza. Os que atribuem tudo à natureza vêem, é verdade, tais cousas, mas pensam unicamente que elas são, e dizem que a natureza as produziu; e dizem isso porque afastaram sua mente de todo pensamento sôbre o Divino; e aquêles que se afastaram de todo pensamento s8bre o Di-vino, quando vêem as maravilhas da natureza, não podem pensar nelas racionalmente nem com mais forte razão espiritualmente, mas pensam nelas sensualmente e materialmente, e então pensam na natureza pela natureza, e não acima da natureza, da mesma maneira daqueles que estão no inferno, diferindo das bêstas unicamente pelo fato de gozarem da racionalidade, isto é, porque podem compreender, e assim pensar de outro modo se quiserem.