- I. O Amor e a Sabedoria, e por conseguinte a Vontade e o Entendímento, fazem a vida mesma do homem. Mal sabe alguém o que é a vida; cpiando se pensa na vida, parece que é alguma causa volátil, de que não se faz idéia; isso parece assim, porque se ignora que Deus só é a vida, e que a vida de Deus é o Divino Amor e a Divina Sabedoria; daí é evidente que a vida no homem não é outra cousa, e que segundo o grau em que recebe há nêle a vida. Sabe-se que do Sol procedem o calor e a luz, e que tôdas as cousas do universo são reci-pientes, e que se aquecem e brilham segundo o grau em que recebem; dá-se o mesmo com o Sol onde está o Senhor, o calor que dêle procede é o Amor, e a luz que dêle procede é a Sabedoria, como foi mostrado na Segunda Parte. A vida vem portanto do Amor e da Sabedoria que proceàem do Senhor como Sol. Que o Amor e a Sabedoria procedentes do Senhor sejam a vida, pode-se ver também pelo fato de que o homem se torna inerte quando o amor se retira dêle, e estúpido quando a sabe-doria se retira, e se se retirassem um e outro inteiramente, êle seria aniquilado. Há várias cousas do amor que receberam outros nomes, porque são derivações, como as afeições, os desejos, os apetites, suas volúpias e seus divertimentos; e há também várias causas da sabedoria, como a percepção, a reflexão, a lembrança, o pensamento, a atenção; e mesmo várias causas de um e de outro, tanto do amor como da sabe-doria, como o consentimento, a conclusão, a determinação ao ato, sem falar de outras; tôdas estas cousas, é verdade, pertencem ao amor e à sabedoria, mas recebem seu nome daquele dos dois que tem mais poder e está mais próximo. Dêstes dois são derivadas em filtimo lugar as sensações que pertencem à vista, ao ouvido, ao olfato, ao paladar e ao tato, com seus prazeres e seus encantos; pela aparência é o ôlho que vê, mas é o entendimento que vê pelo ôlho, é mesmo por isso que ver se diz do entendimento; há a aparência de que o ouvido ouve, mas é o entendimento que ouve pelo ouvido, é por isso que ouvir se diz da atenção e da ação de escutar, que pertencem ao entendimento; há a aparência de que as narinas cheiram e a língua saboreia, mas é por sua percepção o entendimento que sente o cheiro e que também saboreia, é ainda por isso que cheirar e saborear se dizem da perceççáo; e assim por diante. As fontes de tôdas estas causas e de tôdas aquelas são o amor e a sabedoria; por isto, pode-se ver que o amor e a sabe-doria fazem a vida do homem.
📥 Download
📚 Versão Impressa
Para estudo mais confortável, adquira esta obra em formato impresso.