. Dir-se-á em poucas palavras de que maneira o homem pode ser conjunto cada vez mais de perto ao Senhor e, em seguida, de que maneira essa conjunção aparece cada vez mais próxima. (i.) De que maneira o homem é conjunto cada vez mais de perto ao Senhor. Isto não ocorre pela ciência somente, nem pela inteligência somente, nem mesmo pela sabedoria somente, mas pela vida conjunta a elas. A vida do homem é seu amor e o amor é múltiplo. Existe, em geral, o amor do mal e o amor do bem; o amor do mal é o amor de adulterar, de fazer vingança, de fraudar, de blasfemar e de privar os outros de seus bens. O amor do mal sente volúpia e prazer em pensar nessas coisas e em fazê-las. As derivações, que são as afeições desse amor, são tantas quantos são os males nos quais se determinou, e as percepções e os pensamentos desse amor são tantos quantos são os falsos que favorecem esses males e os confirmam. Esses falsos fazem um com os males, assim como o entendimento faz um com a vontade, sem se separarem um do outro, porque um está no outro. [2] Ora, visto que o Senhor influi no amor da vida de cada um e, por suas afeições, nas percepções e nos pensamentos, e não vice-versa, como se disse acima, segue-se que Ele não pode Se conjuntar mais de perto [ao homem] a não ser à medida que é afastado o amor do mal com as suas afeições. E como estas residem no homem natural, e em tudo que o homem age pelo natural sente que age por si, por isso o homem deve se afastar como por si mesmo do amor desses males, para que, tanto quanto o remove, na mesma proporção o Senhor Se aproxime mais de perto e conjunte o homem a Si. Cada um pode ver pela razão que as concupiscências com esses prazeres bloqueiam e fecham as portas ao Senhor, e elas não podem ser expulsas pelo Senhor enquanto o homem mantiver as portas fechadas e de fora fizer pressão e agir para que não sejam abertas. Que o homem mesmo deva abri-las, vê-se por essas palavras do Senhor no Apocalipse: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo" (Ap. 3:20). [3] Por aí se vê que quanto mais alguém foge dos males como diabólicos e como obstáculos à entrada do Senhor, cada vez mais de perto é conjunto ao Senhor, e ainda mais de perto aquele que os abomina como a outros tantos diabos negros e ígneos, pois o mal e o diabo são um só, e o falso do mal e satanás são também um só. Pois que assim como o influxo do Senhor é no amor do bem e em suas afeições e, por estas, nas percepções e nos pensamentos que provêm todos do bem em que o homem está e que são veros, assim também o influxo do diabo, isto é, do inferno, é no amor do mal e em suas afeições, que são as concupiscências e, por estas, nas percepções e nos pensamentos que provêm todos do mal em que o homem está e que são falsos. [4] (ii.) De que maneira essa conjunção parece mais próxima. Quanto mais os males no homem natural forem afastados pela fuga e aversão a eles, mais de perto o homem é conjunto ao Senhor. E como o amor e a sabedoria, que são o Senhor mesmo, não estão no espaço, visto que a afeição que é do amor e o pensamento que é da sabedoria nada têm em comum com o espaço, por isso o Senhor parece mais próximo segundo a conjunção pelo amor e pela sabedoria e, vice-versa, mais afastado segundo a rejeição do amor e da sabedoria. Não existe espaço no mundo espiritual, mas as distâncias e as presenças ali são aparências segundo as semelhanças e dessemelhanças das afeições, pois, como foi dito, as afeições que são do amor e os pensamentos que são da sabedoria e que, em si mesmos, são espirituais, não estão no espaço. Sobre isso, vide os pontos que foram demonstrados no tratado Divino Amor e Divina Sabedoria (n° 7-10, n° 69-72 e outros lugares). [5] A conjunção do Senhor com o homem em quem os males foram afastados é entendida por estas palavras do Senhor: "Os limpos de coração verão a Deus" (Mt. 5:8); e por estas: "Quem tem os Meus preceitos e os faz, nele farei morada" (Jo. 14:21, 23). Ter os preceitos é saber, e fazer os preceitos é amar, pois também foi dito ali: "Quem faz os Meus preceitos, esse é o que Me ama" [(Jo. 14:21)].