. Quem é que não pode, por sua faculdade que se chama racionalidade, entender que esse ou aquele bem é útil ao bem comum, e que esse ou aquele mal é nocivo ao bem comum? Por exemplo, que a justiça, a sinceridade e a castidade do casamento são úteis ao bem comum, e que a injustiça, a insinceridade e a devassidão com as esposas dos outros são nocivas ao bem comum? Conseqüentemente, que esses males em si são danosos e que esses bens em si são proveitosos? E quem não pode fazê-los objetos de sua razão, se somente o desejar? Ele tem racionalidade e tem liberdade. Quanto mais foge desses males em si, mais sua racionalidade e sua liberdade se desnudam, manifestam, dirigem e lhe dão a percepção e o poder; e quanto mais faz isso, mais visa esses bens como um amigo visa o amigo. [2] Por aí o homem pode, em seguida, por sua faculdade que se chama racionalidade, concluir a respeito dos bens que são úteis ao bem comum no mundo espiritual e a respeito dos males que ali são nocivos, se apenas em lugar dos males entender pecados e em lugar dos bens entender as obras de caridade. Isso também o homem pode fazer por sua razão, se somente o desejar, porquanto tem racionalidade e liberdade. E sua racionalidade e sua liberdade se desnudam, manifestam, dirigem e lhe dão percepção e poder à medida que foge dos males como pecados; e quanto mais faz isso, mais visa os bens da caridade como o próximo ao próximo pelo amor de um e outro. [3] Ora, visto que o Senhor, por causa da recepção e da conjunção, quer que tudo o que o homem faz livremente segundo a razão lhe pareça como seu, e isso segundo a razão mesma, segue-se que o homem, pela razão, pode querer, porque isso é sua felicidade eterna, e pelo poder que implora ao Senhor, pode fazer.