DIVPROV &96

Sabedoria Angélica sobre a DIVINA PROVIDÊNCIA
Emanuel Swedenborg
Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Divina Providência

. (vii.) O Senhor, em toda progressão de Sua Divina Providência, preserva intactas e como santas essas duas faculdades no homem. As causas disso são: [Primeiro:] Que o homem, sem essas duas faculdades, não teria entendimento e vontade, por conseguinte, não seria homem; [Segundo:] que o homem, sem essas duas faculdades, não poderia ser conjunto ao Senhor, por conseguinte, não seria reformado e regenerado; e [Terceiro:] que o homem, sem essas duas faculdades, não teria imortalidade e vida eterna. Que seja assim, pelo conhecimento do que foi apresentado anteriormente, quanto a o que são a liberdade e a racionalidade (que são essas duas faculdades), pode-se até ver, mas não claramente, a não ser que sejam apresentadas à vista como conclusões. Por isso serão ilustradas.
[2] [Primeiro:] Que o homem, sem essas duas faculdades, não teria entendimento e vontade, por conseguinte, não seria homem. Com efeito, a vontade do homem não tem outra origem senão de ele poder livremente querer como por si mesmo, e o querer livremente como por si mesmo vem da faculdade que lhe é dada continuamente pelo Senhor, chamada liberdade. E o entendimento do homem não tem outra origem senão de ele poder como por si mesmo entender se algo é ou não segundo a razão. E entender se algo é ou não segundo a razão vem da outra faculdade que lhe é dada continuamente pelo Senhor, chamada racionalidade. Essas faculdades se conjuntam no homem como vontade e entendimento, a saber, como o homem pode querer, também pode entender, pois não existe querer sem entender; o entender é seu consorte ou par, sem o qual [a conjunção] não pode ser alguma coisa. Por isso, com a faculdade que se chama liberdade existe a faculdade que se chama racionalidade. Também, se suprimes o querer do entender, nada entendes.
[3] E o quanto quiseres, tanto podes entender, bastando que estejam presentes ou ao mesmo tempo abertos os recursos que se chamam conhecimentos, pois estes são como os instrumentais de um operário. Foi dito que o quanto quiseres podes entender, isto é, o quanto amas entender, pois a vontade e o amor agem como um só. É certo que isso parece um paradoxo, mas parece assim para os que não amam entender e, assim, não querem, e os que não querem dizem que não podem. Mas quem são os que não podem e quem são os que podem, é o que se dirá no artigo seguinte.
[4] É evidente sem confirmação que se o homem não tivesse a vontade pela faculdade que se chama liberdade e o entendimento pela faculdade que se chama racionalidade, não seria homem. As bestas não têm essas faculdades. Parece que as bestas também podem querer e podem entender, mas não podem. É somente uma afeição natural, que em si é uma cobiça, com sua ciência como par, que as conduzem e levam a fazer o que elas fazem. O civil e o moral estão mesmo em sua ciência, mas não estão acima dela, porque não têm o espiritual que dá a perceber o que é moral e, assim, o pensar nisso analiticamente. Podem até ser conduzidas a fazer algo, mas isso é somente um natural que se adiciona à ciência e, ao mesmo tempo, às suas afeições e é reproduzido pela visão ou pela audição, mas nunca se torna pensamento e muito menos razão nelas. Vide alguma coisa sobre esse assunto acima (n° 74).
[5] Que o homem, sem essas duas faculdades, não poderia ser conjunto ao Senhor e, assim, não seria reformado e regenerado, mostrou-se acima. Pois o Senhor reside nessas duas faculdades no homem, tanto nos maus quanto nos bons, e por elas Se conjunta a cada homem. Assim é que tanto o mau quanto o bom podem entender e daí terem potencialmente a vontade do bem e o entendimento do vero; se não as têm no ato, é pelo abuso das faculdades. Que o Senhor resida nessas faculdades em cada homem, é pelo influxo da vontade do Senhor, que quer ser recebido pelo homem e ter morada nele, para lhe dar as felicidades da vida eterna. Estas coisas são da vontade do Senhor, porque são do Seu Divino Amor. São essas coisas da vontade do Senhor que fazem com que no homem pareça como seu aquilo que ele pensa, fala, quer e faz.
[6] Que o influxo da vontade do Senhor opere isso, pode ser confirmado por muitos exemplos do mundo espiritual. Com efeito, às vezes o Senhor enche um anjo com o Seu Divino de tal maneira que o anjo não sabe outra coisa senão que é o Senhor. Assim foram cheios os anjos vistos por Abrahão, Agar e Gideão, anjos esses que se chamaram JEHOVAH, conforme se vê na Palavra. Um espírito pode assim também ser cheio de um outro de tal maneira que não sabe senão que é esse outro; isso eu vi muitas vezes. No céu se sabe também que o Senhor opera todas as coisas pelo querer e faz com que se faça o que Ele quer. Por aí é evidente que são essas duas faculdades pelas quais o Senhor Se conjunta ao homem e pelas quais faz com que o homem seja reciprocamente conjunto. De que maneira, porém, o homem é conjunto reciprocamente por essas faculdades, conseqüentemente, de que modo por elas ele é reformado e regenerado, foi dito acima e dir-se-ão mais coisas na seqüência.
[7] [Terceiro:] Que, sem essas duas faculdades, o homem não teria imortalidade e vida eterna, segue-se do que agora se disse, que por elas existe a conjunção com o Senhor, depois a reforma e a regeneração. Pela conjunção o homem tem imortalidade e pela reforma e regeneração tem a vida eterna; e como por essas faculdades há a conjunção do Senhor com todo homem, tanto o mau quanto o bom, como se disse, por isso todo homem tem imortalidade; mas só tem a vida eterna, isto é, a vida no céu, aquele em quem a conjunção é recíproca desde os íntimos até os últimos. Por aí se podem ver as causas pelas quais o Senhor, em toda progressão de Sua Divina Providência, preserva intactas e como santas essas duas faculdades no homem.

Versão Impressa

Para estudo mais confortável, adquira esta obra em formato impresso.