. Esta lei da Divina Providência segue das duas anteriores, a saber, que o homem aja pelo livre segundo a razão (de que se tratou nos n° 71 a 99), e que faça isso por si, ainda que seja pelo Senhor, por conseguinte, como por si mesmo (de que se tratou nos n° 100 a 128). E visto que o ser constrangido não é pelo livre segundo a razão e não é por si, mas é o não livre e por um outro, por isso esta lei da Divina Providência segue em ordem depois das duas anteriores. Qualquer um também sabe que ninguém pode ser constrangido a pensar o que não quer pensar e a querer o que pensa não querer, por conseguinte, tampouco a crer o que não crê e, absolutamente, o que não quer crer, nem a amar o que não ama e absolutamente a amar aquilo que não quer amar. Com efeito, o espírito do homem ou sua mente está na plena liberdade de pensar, querer, crer e amar. Nessa liberdade ele está pelo influxo do mundo espiritual, que não constrange, pois o espírito ou a mente do homem está naquele mundo, mas não no influxo do mundo natural, que não é recebido, a não ser que os influxos atuem como um só. [2] O homem pode ser persuadido a dizer que pensa e quer certas coisas, e que nelas crê e as ama, mas se elas não forem da afeição e, daí, de sua razão, de fato não as pensa, nem as quer, crê ou ama. O homem pode também ser constrangido a falar pela religião e a agir segundo ela, mas não pode ser constrangido a pensar por ela por alguma fé e a querê-la por algum amor. Nos reinos em que a justiça e o juízo são observados, cada um é também constrangido a não falar contra a religião e a não agir contra ela, mas, não obstante, ninguém pode ser constrangido a pensar e querer por ela, pois cada um tem a liberdade de pensar com o inferno e de querer por ele, como também de pensar pelo céu e de querer por ele. Mas a razão ensina qual é um e qual é outro, e que sorte espera um e outro, e à vontade pela razão pertencem a opção e a escolha. [3] Por aí se pode ver que o externo não pode constranger o interno. Isso, todavia, acontece às vezes, mas que isso seja prejudicial, será demonstrado nesta ordem: (i.) Ninguém é reformado por meio de milagres e sinais, porque eles constrangem. (ii.) Ninguém é reformado por meio de visões e por conversas com os mortos, porque elas constrangem. (iii.) Ninguém é reformado por meio de ameaças e castigos, porque eles constrangem. (iv.) Ninguém é reformado em estados de não racionalidade e de não liberdade. (v.) Não é contra a racionalidade e a liberdade constranger-se a si mesmo. (vi.) O homem externo deve ser reformado por meio do interno e não o contrário.